estudos:marion:objecoes-eu-empirico
Objeções formais ao eu empírico
MarionDado
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Duas aporias (não-individuação, solipsismo) decorrem diretamente da atribuição ao “eu penso” da função de Eu transcendental
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Evitá-las-ia poupando-lhe esta função e interpretando-o como um “mim” empírico? Talvez com efeito, mas ao preço de uma consequência radical
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Tal “mim”, suposto empírico, portaria de fato já certos dos caracteres do que se introduz sob o título do atributário, antes que os do Eu, mesmo retomado pela empiricidade
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Donde duas últimas aporias
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Terceira aporia formal: empiricidade essencial do “mim” sustenta-se no fato de que o primeiro ato do “eu penso”, em suma da espontaneidade do entendimento, consiste em uma síntese do diverso, portanto que vem depois (ou com) a advinda deste diverso na intuição
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O primeiro ato — “eu penso” — só pode “acompanhar” em segundo a chegada da intuição; dele depende então
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O que Kant já havia assim sugerido: se a intuição precede o entendimento segundo a doação, então o mim empírico previne a unidade originariamente sintética do “eu penso” (a apercepção)
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Cabe a Husserl tê-lo exemplarmente formalizado: o originário não pertence ao Eu transcendental da intencionalidade ou da constituição, mas à impressão temporal sem cessar nova, que surge adiante daquela que ela torna assim imediatamente passada, embora retida na primeira presença
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Somente a impressão originária do tempo vivente é primeira, não mais a apercepção da unidade sintética
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Portanto o originário se desloca do “eu penso” da representação de si segundo o entendimento ao “eu sou afetado” na intuição pelo instante sempre renovado, mas absolutamente sem precedente, que vem por assim dizer estourar sobre a tela de minha consciência
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Despertá-la, nela desaparecer e abri-la assim à impressão seguinte, encarregada por sua vez da originariedade
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Parecida transferência da origem à impressão temporal não relativiza somente a pretensão transcendental do Eu (formalmente, embora parcialmente mantida por Husserl); expõe-na sobretudo à doação radical que o tempo exerce sobre a consciência, que, de golpe, muda de estatuto
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“Mim” empírico não vem aqui se acrescentar, como facultativamente, ao “eu penso” transcendental: a impressão originária, que somente dá acesso à temporalidade, não poderia absolutamente advir ao interior de uma unidade já originariamente sintética, nem de uma constituição transcendental de objeto (uma e outra pressupondo aliás esta temporalidade que recebem e organizam, mas não produzem, nem provocam)
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Ao contrário, a impressão originária só advém porque se dá de parte a parte e sem nada de objetivável
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Só entra assim na fenomenalidade enquanto sua doação se encontra nela recebida como o único evento originário
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Exige então que o Eu, salvo ignorá-la totalmente, renuncie ao estatuto de representação acompanhadora e originariamente sintetizante, para endossar a simples função de receptividade, em suma que deixe o “eu penso” pelo “eu sou afetado”
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Não se trata então aqui, com o “mim” empírico, de uma simples duplicata nem de um rival do Eu transcendental, mas já, sob este título ambíguo e obscuro, de um reviramento completo imposto à subjetividade inteira pela fenomenalidade irredutível da impressão originária do tempo
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Este fenômeno particular e somente absoluto impõe não somente ao Eu transcendental de cedê-lo definitivamente ao “mim” empírico, mas sobretudo ao “mim” empírico de assegurar sua primazia sobre a única receptividade à doação, portanto de se submeter perfeitamente a ela
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Mais: parecida receptividade, instituída como único a priori conveniente à doação (temporal) de que se trata enfim aqui, define exatamente, nos lugar e posição do Eu e mesmo do “mim”, a instância que se esgota inteiramente na função de receber, o “a qu[em]”, o atributário
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Aporia da empiricidade conduz então a reverter as duas faces da subjetividade metafísica em proveito da figura nova, cujo dativo sucede ao “sujeito” (nominativo)
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Quarta aporia formal: aporia terminal sustentaria-se então no próprio desdobramento do “sujeito” entre um Eu puro transcendental e um “mim” empírico
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Este desdobramento significa, no primeiro grau, que o que se dá de fato (o “mim”) não tem nenhuma dignidade de origem (não transcendental) e que reciprocamente o que exerce a função transcendental não pode, nem deve jamais se dar
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Em suma, denega diretamente à doação seu título de último princípio — de princípio primeiro enquanto a posteriori
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Por conseguinte, este desdobramento reconhece, sobre o modo da denegação, que o “sujeito” definido pelo “eu penso” primeiramente se subtrai ao estatuto de dado, pois fixando as condições da experiência subtrai-se imediatamente ao número dos objetos da experiência, ao risco de contradizer assim o “princípio supremo dos juízos sintéticos” que pretendia assegurar
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E em segundo lugar torna secundária a própria doação, portanto a recusa como tal
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Fato de que se fixa e se congela assim sem dado, nem doação poderia entreter uma relação muito estreita com suas aporias precedentemente estigmatizadas: as impossibilidades respectivamente de se individualizar, de se abrir à alteridade e de exercer a receptividade originária relevam todas de um déficit de doação
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Com efeito, individualizar-se equivale a se dar si mesmo segundo a facticidade de um fenômeno dado
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Abrir-se à alteridade equivale a se expor à chegada e ao incidente do fenômeno dado
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Enquanto a anamorfose atribui já ao atributário sua função de receptividade em relação ao evento do mesmo e único fenômeno dado
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Individualizar-se significa se colocar em jogo no seio do dado (empirie) a título de atributário da doação originária (transcendentalidade), portanto romper o solipsismo em virtude de um “si” ele mesmo dado e compreendido segundo a doação
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Inversamente, as aporias do “sujeito” decorrem todas da denegação de seu estatuto particular de dado, a saber de sua função precisa de atributário
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Denegação ela mesma tornada inevitável pela ignorância da doação como caráter fenomenológico universal do que se mostra enquanto tal
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Aporias formais que desqualificam o “sujeito” recobrem assim exatamente suas faltas fenomenológicas à doação e ao ente dado
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