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O “Dasein” como confirmação do “ego”

MarionRD

  • O projeto de uma “destruição” da ontologia tradicional em relação ao ego só tem sentido se o próprio ego já constituir uma figura (embora obscura) da história da ontologia.
    • O ego deve possuir uma pertinência ontológica, mesmo que inautêntica e ofuscada, para poder ser um alvo hermenêutico válido e para conservar uma reserva de ser no “novo começo”.
  • Apesar do antagonismo ôntico-ontológico fundamental, o Dasein reconhece no ego cogito, como em uma esboço desviado, traços de sua própria constituição, numa rivalidade perturbadora.
    • A destruição seria menos urgente se o Dasein não se reencontrasse ali de modo distorcido.
  • Quatro convergências essenciais podem ser identificadas entre o ego e o Dasein.
    • (a) Finitude: O Dasein existe de modo finito (existiert endlich), sendo a finitude constitutiva de seu ser-para-a-morte e de sua temporalidade extática.
      • O ego cartesiano também se caracteriza por uma finitude (“cum sim finitus”) que não é apenas antropológica, mas possui implicações ontológicas: é a finitude que provoca o duvido e institui a cogitatio, determinando assim o sentido de ser dos entes do mundo.
      • Embora Heidegger tenda a reduzir a finitude cartesiana a um horizonte antropológico-cristão, a essencialidade da finitude para a posição do ego como cogito é inegável.
    • (b) Minhidade (Jemeinigkeit) e insubstituibilidade: O Dasein tem de ser seu ser como seu, o que implica sempre o pronome pessoal: “eu sou”, “tu és”.
      • Descartes não apenas ligou cogitatio e existentia, mas o fez na performance insubstituível do ego: “hoc pronuntiatum, Ego”.
      • Esta exigência de performatividade em primeira pessoa aproxima-se da insubstituibilidade que caracteriza o Dasein.
    • © Possibilidade da impossibilidade: Para o Dasein, a morte é “a possibilidade da pura e simples impossibilidade”.
      • No ego cartesiano, um paradoxo análogo surge com o livre-arbítrio frente à onisciência e onipotência divinas: ele encontra a impossibilidade da possibilidade (livre) e, na ação prática, a possibilidade da impossibilidade (agir como se livre, apesar da incompreensibilidade).
      • A estrutura da “possibilidade da impossibilidade” é comum a ambos.
    • (d) Indeterminação (Unbestimmtheit): A crítica central a Descartes é a “indeterminação ontológica completa” do ego e do sum.
      • Contudo, o próprio Dasein parte de uma inevitável indeterminação ontológica, que só é superada pela analítica existencial.
      • Mais decisivamente, a indeterminação assume uma função fenomenologicamente positiva em momentos-chave do Dasein:
        • (i) Na angústia, o “totalmente indeterminado” (völlig unbestimmt) é constitutivo: a indeterminação ôntica do que ameaça permite ao Dasein confrontar-se com o nada e assim determinar-se ontologicamente.
        • (ii) No ser-para-a-morte, a certeza da morte vai de par com a “indeterminação de seu quando”. Esta “indeterminação certa” é o que a torna a possibilidade mais própria do Dasein.
        • (iii) No chamado da consciência (voz do cuidado), a “indeterminação e a indeterminabilidade de quem chama” é um “caráter positivo”. A própria resolução possui uma “indeterminação existencial” que constitui sua “determinação existencial”.
      • A oposição, portanto, não é entre determinação e indeterminação, mas entre uma indeterminação ontológica (do ego, que o impede de se determinar em seu ser) e uma indeterminação ôntica (do Dasein, que lhe permite e exige que se determine em seu ser através da resolução).
      • Neste sentido, o ego, mesmo em sua indeterminação, mima o Dasein, assim como o “Man” (o impessoal) mima, inautenticamente, o Dasein autêntico ao qual pertence.
  • Estas convergências (finitude, minhidade, possibilidade da impossibilidade, indeterminação) mostram que ego e Dasein não são estranhos absolutos.
    • Suas semelhanças, ainda que separadas pela oposição entre autenticidade e inautenticidade, não os alienam completamente, pois esta própria oposição é interna à existência do Dasein.
  • A questão final que se impõe é: que mímese (ou que relação de representação distorcida) reúne, afinal, o ego e o Dasein?
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