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O Contra-método

MarionDado

  • Distinção fundamental entre demonstração e manifestação fenomenológica
    • Demonstração nas ciências e na metafísica: fundamentar a aparência para conhecê-la com certeza, reconduzindo-a ao fundamento
    • Fenomenologia como tentativa de pensar em modo não metafísico: mostrar implica deixar a aparência aparecer de modo que realize sua plena aparição, para recebê-la exatamente como ela se dá
  • Contestação do pretenso privilégio da visão na fenomenologia
    • Primado da visão frequentemente cede ao tato ou à escuta; pressuposição ruinosa: primado de um sentido só importa se a percepção determina finalmente a aparência, isto é, se a aparência remete em última instância à percepção
    • Finalidade da fenomenologia: aceder à aparição na aparência, transgredir toda impressão percebida pela intencionalidade da coisa mesma; na visão fenomenológica não se trata do que a subjetividade percebe por seus instrumentos perceptivos, mas do que a aparição dá de si mesma como coisa mesma
    • Distinção entre ver, escutar e sentir torna-se determinante apenas quando a percepção assume papel subjetivo de filtrar, interpretar e deformar a aparência da aparição
    • Quando a aparição domina o aparecer, especificações subjetivas da aparência deixam de importar essencialmente: a coisa advém em pessoa a cada vez, seja vista, tocada, sentida ou ouvida
    • Imperfeição da doação (parcial, por esboços) não impede que a coisa chegue na carne mesma de sua aparição; imperfeição pressupõe já a aparição em pessoa da coisa que ela limita
    • Pretenso privilégio da visão só se torna determinante quando se fracassa o privilégio decisivo: aparição da coisa mesma no seio de sua aparência sensível, perceptível, subjetiva
    • Estudo deste privilégio da aparição constitui o assunto próprio da fenomenologia, que não admite outro
  • Manifestação como privilégio de aparecer na aparência: manifestação da coisa a partir dela mesma e como ela mesma, privilégio de se tornar manifesta, de se fazer ver, de se mostrar
    • Correção necessária do ponto de partida: em regime fenomenológico não se trata apenas de mostrar, pois a aparição poderia ainda permanecer objeto de uma tomada de vista, simples aparência
    • Trata-se de deixar a aparição se mostrar em sua aparência segundo seu aparecer; simples passagem de demonstração a monstration não modifica o estatuto profundo da fenomenalidade nem lhe assegura sua liberdade
    • Ensaios de fenomenologia que não perceberam isto claramente repetiram e corroboraram o privilégio da percepção e da subjetividade metafísicas sobre a manifestação
    • Primeira passagem deve se completar com segunda: passar de mostrar a deixar se mostrar, da manifestação à manifestação de si a partir de si daquilo que então se mostra
  • Dificuldade fundamental: deixar a aparição se mostrar não é evidente, pois o conhecimento vem sempre de mim; não é evidente que a manifestação possa vir de si, dela mesma, por ela mesma, a partir dela mesma, que ela se manifeste
    • Paradoxo inicial e final da fenomenologia: tomar a iniciativa de perdê-la; como toda ciência rigorosa, decide seu projeto, terreno e método, tomando a iniciativa tão originalmente quanto possível
    • Ao contrário de toda metafísica, ambiciona apenas perder esta iniciativa o mais cedo e completamente possível: pretende alcançar as aparições de coisas em sua mais inicial originariedade, estado nativo de sua manifestação incondicionada em si e a partir de si
    • Começo metodológico estabelece apenas as condições de seu próprio desaparecimento na original manifestação do que se mostra
    • Reversão deve respeitar operações precisas (visadas, preenchimentos, reduções, constituições, Appräsentationen) segundo racionalidade das mais estritas; isto não infirma o paradoxo, mas confirma sua exigência formal
  • Dificuldade do paradoxo e retomada incessante do tema do método: sem este paradoxo a fenomenologia permaneceria apenas um novo nome vazio para uma metafísica então perenizada
    • Dificuldade provocou desde o início husserliano retomada ela mesma sem cessar a retomar do tema do método
    • Para deixar a aparição se manifestar convém proceder metodicamente; diferentes acepções da redução ilustram por excelência este trabalho, assumindo perfeitamente a requisição racional de aceder a um solo indubitável do conhecimento
    • Método não deve assegurar a indubitabilidade no modo de posse de objetos certos produzidos segundo condições a priori do conhecimento; deve provocar a indubitabilidade das aparições de coisas, sem produzir a certeza dos objetos
    • Contrariamente ao método cartesiano ou kantiano, método fenomenológico mesmo quando constitui os fenômenos limita-se a deixá-los se manifestar
    • Constituir não equivale a construir nem a sintetizar, mas a dar-um-sentido, ou mais exatamente reconhecer o sentido que o fenômeno se dá de si mesmo e a si mesmo
    • Método não avança diante do fenômeno pré-vendo-o, pré-dizendo-o e pro-duzindo-o para esperá-lo já ao fim do caminho que ele mal inicia (μετὰ ὁδός); marcha justo ao passo do fenômeno, como protegendo-o e abrindo-lhe o caminho por eliminação de impedimentos
    • Dissolvendo as aporias, restabelece a porosidade da aparência, senão sempre a transparência nela da aparição
  • Redução como operação por excelência de desobstrução: suspende teorias absurdas, falsas realidades da atitude natural, mundo objetivo, para deixar os vividos fazer aparecer tanto quanto possível o que se manifesta como e por eles
    • Função da redução culmina em desobstrução dos obstáculos à manifestação
    • Analogia com estado de direito: força pública deixa as manifestações passar, opiniões se publicar, consultas se organizar; deixa fazer e passar o que tem direito a isso, exercendo-se apenas contra violências de fato
    • Redução deixa se manifestar o que tem direito a isso, usando sua força de suspensão apenas contra violências teóricas ilegítimas
    • Fenomenologia negativa (fórmula ambígua a empregar com reserva): deve-se entendê-la da própria redução
    • Método não provoca tanto a aparição do que se manifesta quanto desobstrui ao redor dela os obstáculos que a ofuscariam; redução não faz nada, deixa a manifestação se manifestar
    • Redução toma a iniciativa de considerar seriamente o que é vivido pela consciência apenas para devolvê-la ao que se manifesta
  • Dificuldade própria da redução e seu movimento de inversão: motivo pelo qual permanece sempre a fazer e refazer, sem fim nem sucesso suficiente, reside na viragem que deve tomar e onde se inverte em zigzag
    • É preciso fazê-la para desfazê-la e deixar se fazer a aparição do que se mostra nela, mas finalmente sem ela
    • Redução abre o espetáculo do fenômeno primeiro como diretor de cena onipresente, para continuá-lo como simples cena, necessária certamente, mas esquecida e indiferente
    • Ao fim, o fenômeno ocupa a tal ponto a cena que a reabsorve nele e não mais se distingue dela: auto-mise en scène
    • Redução se cumpre exatamente com esta viragem
  • Método fenomenológico como contra-método: pretende desdobrar viragem que vai não apenas de demonstrar a mostrar, mas de mostrar como ego põe em evidência objeto, a deixar se mostrar aparição em aparência; método de viragem que vira contra si mesmo e consiste neste reviramento ele mesmo
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