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O Contra-método
MarionDado
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Distinção fundamental entre demonstração e manifestação fenomenológica
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Demonstração nas ciências e na metafísica: fundamentar a aparência para conhecê-la com certeza, reconduzindo-a ao fundamento
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Fenomenologia como tentativa de pensar em modo não metafísico: mostrar implica deixar a aparência aparecer de modo que realize sua plena aparição, para recebê-la exatamente como ela se dá
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Contestação do pretenso privilégio da visão na fenomenologia
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Primado da visão frequentemente cede ao tato ou à escuta; pressuposição ruinosa: primado de um sentido só importa se a percepção determina finalmente a aparência, isto é, se a aparência remete em última instância à percepção
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Finalidade da fenomenologia: aceder à aparição na aparência, transgredir toda impressão percebida pela intencionalidade da coisa mesma; na visão fenomenológica não se trata do que a subjetividade percebe por seus instrumentos perceptivos, mas do que a aparição dá de si mesma como coisa mesma
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Distinção entre ver, escutar e sentir torna-se determinante apenas quando a percepção assume papel subjetivo de filtrar, interpretar e deformar a aparência da aparição
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Quando a aparição domina o aparecer, especificações subjetivas da aparência deixam de importar essencialmente: a coisa advém em pessoa a cada vez, seja vista, tocada, sentida ou ouvida
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Imperfeição da doação (parcial, por esboços) não impede que a coisa chegue na carne mesma de sua aparição; imperfeição pressupõe já a aparição em pessoa da coisa que ela limita
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Pretenso privilégio da visão só se torna determinante quando se fracassa o privilégio decisivo: aparição da coisa mesma no seio de sua aparência sensível, perceptível, subjetiva
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Estudo deste privilégio da aparição constitui o assunto próprio da fenomenologia, que não admite outro
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Manifestação como privilégio de aparecer na aparência: manifestação da coisa a partir dela mesma e como ela mesma, privilégio de se tornar manifesta, de se fazer ver, de se mostrar
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Correção necessária do ponto de partida: em regime fenomenológico não se trata apenas de mostrar, pois a aparição poderia ainda permanecer objeto de uma tomada de vista, simples aparência
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Trata-se de deixar a aparição se mostrar em sua aparência segundo seu aparecer; simples passagem de demonstração a monstration não modifica o estatuto profundo da fenomenalidade nem lhe assegura sua liberdade
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Ensaios de fenomenologia que não perceberam isto claramente repetiram e corroboraram o privilégio da percepção e da subjetividade metafísicas sobre a manifestação
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Primeira passagem deve se completar com segunda: passar de mostrar a deixar se mostrar, da manifestação à manifestação de si a partir de si daquilo que então se mostra
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Dificuldade fundamental: deixar a aparição se mostrar não é evidente, pois o conhecimento vem sempre de mim; não é evidente que a manifestação possa vir de si, dela mesma, por ela mesma, a partir dela mesma, que ela se manifeste
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Paradoxo inicial e final da fenomenologia: tomar a iniciativa de perdê-la; como toda ciência rigorosa, decide seu projeto, terreno e método, tomando a iniciativa tão originalmente quanto possível
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Ao contrário de toda metafísica, ambiciona apenas perder esta iniciativa o mais cedo e completamente possível: pretende alcançar as aparições de coisas em sua mais inicial originariedade, estado nativo de sua manifestação incondicionada em si e a partir de si
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Começo metodológico estabelece apenas as condições de seu próprio desaparecimento na original manifestação do que se mostra
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Reversão deve respeitar operações precisas (visadas, preenchimentos, reduções, constituições, Appräsentationen) segundo racionalidade das mais estritas; isto não infirma o paradoxo, mas confirma sua exigência formal
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Dificuldade do paradoxo e retomada incessante do tema do método: sem este paradoxo a fenomenologia permaneceria apenas um novo nome vazio para uma metafísica então perenizada
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Dificuldade provocou desde o início husserliano retomada ela mesma sem cessar a retomar do tema do método
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Para deixar a aparição se manifestar convém proceder metodicamente; diferentes acepções da redução ilustram por excelência este trabalho, assumindo perfeitamente a requisição racional de aceder a um solo indubitável do conhecimento
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Método não deve assegurar a indubitabilidade no modo de posse de objetos certos produzidos segundo condições a priori do conhecimento; deve provocar a indubitabilidade das aparições de coisas, sem produzir a certeza dos objetos
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Contrariamente ao método cartesiano ou kantiano, método fenomenológico mesmo quando constitui os fenômenos limita-se a deixá-los se manifestar
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Constituir não equivale a construir nem a sintetizar, mas a dar-um-sentido, ou mais exatamente reconhecer o sentido que o fenômeno se dá de si mesmo e a si mesmo
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Método não avança diante do fenômeno pré-vendo-o, pré-dizendo-o e pro-duzindo-o para esperá-lo já ao fim do caminho que ele mal inicia (μετὰ ὁδός); marcha justo ao passo do fenômeno, como protegendo-o e abrindo-lhe o caminho por eliminação de impedimentos
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Dissolvendo as aporias, restabelece a porosidade da aparência, senão sempre a transparência nela da aparição
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Redução como operação por excelência de desobstrução: suspende teorias absurdas, falsas realidades da atitude natural, mundo objetivo, para deixar os vividos fazer aparecer tanto quanto possível o que se manifesta como e por eles
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Função da redução culmina em desobstrução dos obstáculos à manifestação
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Analogia com estado de direito: força pública deixa as manifestações passar, opiniões se publicar, consultas se organizar; deixa fazer e passar o que tem direito a isso, exercendo-se apenas contra violências de fato
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Redução deixa se manifestar o que tem direito a isso, usando sua força de suspensão apenas contra violências teóricas ilegítimas
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Fenomenologia negativa (fórmula ambígua a empregar com reserva): deve-se entendê-la da própria redução
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Método não provoca tanto a aparição do que se manifesta quanto desobstrui ao redor dela os obstáculos que a ofuscariam; redução não faz nada, deixa a manifestação se manifestar
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Redução toma a iniciativa de considerar seriamente o que é vivido pela consciência apenas para devolvê-la ao que se manifesta
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Dificuldade própria da redução e seu movimento de inversão: motivo pelo qual permanece sempre a fazer e refazer, sem fim nem sucesso suficiente, reside na viragem que deve tomar e onde se inverte em zigzag
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É preciso fazê-la para desfazê-la e deixar se fazer a aparição do que se mostra nela, mas finalmente sem ela
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Redução abre o espetáculo do fenômeno primeiro como diretor de cena onipresente, para continuá-lo como simples cena, necessária certamente, mas esquecida e indiferente
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Ao fim, o fenômeno ocupa a tal ponto a cena que a reabsorve nele e não mais se distingue dela: auto-mise en scène
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Redução se cumpre exatamente com esta viragem
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Método fenomenológico como contra-método: pretende desdobrar viragem que vai não apenas de demonstrar a mostrar, mas de mostrar como ego põe em evidência objeto, a deixar se mostrar aparição em aparência; método de viragem que vira contra si mesmo e consiste neste reviramento ele mesmo
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