Heidegger, fenomenologia, hermenêutica, existência

Dasein descerra sua estrutura fundamental, ser-em-o-mundo, como uma clareira do AÍ, EM QUE coisas e outros comparecem, COM QUE são compreendidos, DE QUE são constituidos.

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Stambaugh (1991:68-70) – Heidegger renova o problema do tempo

domingo 11 de fevereiro de 2024

destaque

[…] Em Ser e Tempo  , Heidegger realizou pelo menos três coisas no que diz respeito ao problema do tempo, que me parecem novas. Em primeiro lugar, ao relacionar o tempo com o indivíduo finito e existente (Dasein  ), ele sublinha a irreversibilidade e a direcionalidade do tempo no ser-para-a-morte do Dasein, compreendendo assim a verdadeira natureza da finitude do tempo, que não reside na quantidade limitada de tempo atribuída ao indivíduo, mas nessa mesma irreversibilidade e direcionalidade. Assim, a finitude perde o seu antigo significado puramente quantitativo de "tempo insuficiente", uma espécie de significado pré-filosófico que "acompanhava" a ideia filosófica de que as coisas estão "no tempo" sem nunca se integrarem verdadeiramente nele. O fato de algo estar no tempo é incapaz de explicar por que razão deve ser finito, por que razão deve alguma vez deixar de ser/estar no tempo. A finitude adquire o significado mais profundo da constatação da relação intrinsecamente indissolúvel da vida e da morte. A vida e a morte são inseparáveis uma da outra. Para o homem, a vida inclui o sofrimento principalmente porque a consciência da morte está presente nela, e o homem tem consciência da morte porque ela está presente na vida. A morte não é um acontecimento clinicamente definível que põe termo à existência física. É, antes, uma consciência que permeia e transforma a vida, não no sentido de uma preocupação mórbida com a morte, mas no sentido de nos individualizar e autenticar radicalmente. Em termos budistas, torna-nos conscientes do problema, da tarefa implícita na solução da vida e da morte. O conceito de "vida sem fim" é um conceito irrefletido e superficial, que impede qualquer compreensão verdadeira da natureza da vida e da morte.

A rigor, Heidegger não fala nem do universal nem do individual, mas sempre do que é "em cada caso meu" (Jemeinigkeit  ). O Dasein de Heidegger, o ser humano, não é nem um indivíduo nem um sujeito no sentido tradicional destas palavras. Escapa à dicotomia indivíduo-universal, em parte através da ênfase na relação radical do homem com o tempo. O homem é o ser que produz o tempo, o ser que temporaliza. Finalmente, Heidegger não só dispensa o entendimento tradicional do tempo como "no tempo", como até tenta explicar o que significa este "no", o que significa qualquer possível "ser/estar no". Para Heidegger, "ser/estar em" significa o modo como o ser humano existe como o seu "aí" e o constitui através da compreensão de si próprio no mundo, juntamente com uma certa sintonia de si próprio no mundo. A gíria contemporânea exprime muito bem esta ideia de sintonia com o mundo ao falar dos "comprimentos de onda" em que as pessoas se encontram e das "vibrações" que emitem.

original

It was Martin Heidegger who first and most decisively related time to the individual “self,” thus bringing it into a radical relation to finitude, which now brings me to the substance of this chapter. In Being and Time, Heidegger accomplished at least three things with regard to the problem of time, which seem to me to be new. First of all, in relating time to the finite, existing individual (Dasein), he stresses the irreversibility and [69] directedness of time in Dasein’s being-toward-death, thus grasping the true nature of the finitude of time, which lies not   in the limited amount of time allotted to the individual, but in this very irreversibility and directedness itself. Thus, finitude loses its former sheerly quantitative meaning of “not enough time,” a kind of pre-philosophical meaning which “went along” with the philosophical idea   of things being “in time” without ever really being integrated with it. The fact that something is in time is incapable of explaining why it should be finite, why it should ever cease to be in time. Finitude acquires the more profound meaning of the realization of the inherently indissoluble relation of life and death. Life and death are inseparable from each other. For man, life includes suffering primarily because an awareness of death is present in it, and man is aware of death because it is present in life. Death is not a medically definable event terminating physical existence. It is, rather, an awareness permeating and transforming life, not in the sense of some morbid preoccupation with dying, but in the sense of radically individualizing and authenticating us. In Buddhist terms, it makes us aware of the problem, the task implicit in the solution of life and death. The concept of “endless life” is a thoughtless, shallow one, which precludes any true understanding of the nature of life and death.

Secondly, Heidegger removes time from its transcendental   context of the knowing subject in general, and relates it to the individual. Strictly speaking, Heidegger talks neither of the universal nor the individual, but always of what is “in each case mine” (Jemeinigkeit). Heidegger’s Dasein, human being, is neither an individual nor a subject in the traditional sense of these words. It eludes the dichotomy of individual-universal, partly through emphasizing the radical relation of man to time. Man is the time-producing, the temporalizing being. Finally, Heidegger not only dispenses with the traditional understanding of time as “in time,” he even tries to explain what this “in,” what any possible “being in,” means. “Being in” means for Heidegger the way in which the human being exists as his “there” and constitutes it through understanding of himself-in-the-world together with a certain attunement of himself-in-the-world. Contemporary slang expresses this idea of being attuned to or in tune with the world [70] quite well by speaking of “wavelengths” which people are on and the “vibrations” which they give off.

Heidegger is perhaps the first major Western philosopher to place human finitude at the core of his philosophy, human finitude unmitigated by a doctrine of the soul’s immortality (Plato  ) or of some form of afterlife. He is also the first to say, roughly speaking, that man is time. Time is not something in which man finds himself. His very manner of being is being in, so to speak, temporalizing and timing, not in the sense of clocking, but of engendering time, spinning out the temporal   stuff of consciousness.

[STAMBAUGH  , Joan. Thoughts on Heidegger. Washington, D.C: Center for Advanced Research in Phenomenology ; University Press of America, 1991]


Ver online : Joan Stambaugh