Heidegger, fenomenologia, hermenêutica, existência

Dasein descerra sua estrutura fundamental, ser-em-o-mundo, como uma clareira do AÍ, EM QUE coisas e outros comparecem, COM QUE são compreendidos, DE QUE são constituidos.

Página inicial > Léxico Alemão > acontecimento apropriador

acontecimento apropriador

quarta-feira 13 de dezembro de 2023

Ereignis  

As “contribuições” perguntam em uma via que é inicialmente aberta pela transição ao outro início, para o interior do qual o pensamento ocidental agora se volta. Essa via lança a transição no espaço aberto da história e a fundamenta como uma estada talvez muito longa, em cuja realização o outro início do pensamento permanece sempre apenas o pressentido, mas já de qualquer modo decidido. Com isto, apesar de já falarem e mesmo de só falarem da essência do seer, isto é, do “ACONTECIMENTO APROPRIADOR”, as “Contribuições” ainda não conseguem juntar a junção livre e fugidia da verdade do seer a partir dele mesmo. Se isso algum dia tiver lugar, então essa essência do seer determinará em seu estremecimento o conjunto articulado da obra pensante ela mesma. Esse estremecimento se fortalece, então, em nome do poder da ternura liberada característica de uma intimidade daquela deização do deus dos deuses, a partir da qual acontece apropriadoramente a destinação do ser-aí para o seer, como para a fundação da verdade que é concernente ao seer. [tr. Casanova  ; GA65  : 1]

Por vezes, aqueles fundadores do abismo precisam ser consumidos no fogo do que se guarda, para que o ser-aí venha a ser possível para o homem e, assim, seja salva a constância em meio ao ente, para que o ente mesmo experimente a restauração no aberto da contenda entre terra e mundo. Consequentemente, o ente é voltado para o interior de sua constância por meio do ocaso dos fundadores da verdade do seer. Tal movimento é exigido pelo próprio seer mesmo. Ele precisa dos que experimentam o ocaso; e, onde quer que um ente apareça, o seer já sempre se a-propriou desses fundadores que perecem em meio ao acontecimento, já sempre os atribuiu a si mesmo. Essa é a essenciação do seer mesmo: nós a denominamos o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A riqueza da ligação volteante do seer com o ser-aí que lhe é entregue apropriadoramente é imensurável. A plenitude do acontecimento da apropriação é incalculável. E somente algo muito diminuto pode ser dito aqui “sobre o ACONTECIMENTO APROPRIADOR” nesse pensar inicial. O que é dito é questionado e pensado em uma “conexão de jogo” do primeiro e do outro início a partir da “ressonância” do seer; ele é questionado e pensado em meio à indigência do abandono do ser para o “salto” em direção ao interior do seer. Esse “salto” tem por fim promover a “fundação” da verdade do seer como a preparação dos “que estão por vir” e “do último deus”. Esse dizer pensante é uma diretiva. Essa diretiva indica o livre abrigo da verdade do seer em meio ao ente como algo necessário, sem ser, contudo, uma ordem. Tal pensamento jamais pode ser transformado em uma doutrina: ele se subtrai completamente ao acaso da opinião  . Além do mais, ele só dá uma diretiva aos poucos e ao seu saber, quando o que importa é o resgate dos homens da barafunda do não-ente, lançando-os para o interior da maleabilidade à junção característica de uma criação reservada dos sítios que são determinados para o passar ao largo do último deus. Mas se o ACONTECIMENTO APROPRIADOR perfaz a essenciação do seer, o quão perto está, então, o perigo de que ele recuse e precise recusar o acontecimento da apropriação porque o homem perdeu a força para o ser-aí, uma vez que a violência desencadeada do desvario em meio ao gigantesco o dominou sob a aparência da “magnitude”. No entanto, se o ACONTECIMENTO APROPRIADOR se tornar recusa e denegação, isso significa apenas a retração do seer e o abandono do ente ao não-ente? Ou será que a denegação (o caráter de não do seer) pode se tornar no mais extremo o mais distante acontecimento da apropriação, posto que o homem conceba esse ACONTECIMENTO APROPRIADOR e o horror do pudor o recoloque na tonalidade afetiva fundamental da retenção e, com isto, já o exponha para o ser-aí? [tr. Casanova; GA65: 2]

Saber a essência do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR não significa apenas conhecer o perigo da recusa, mas estar pronto para a superação. Muito antes de todo o resto, a primeira coisa quanto a isso precisa permanecer: colocar o seer em questão. [tr. Casanova; GA65: 2]

Para os poucos que de tempos em tempos perguntam uma vez mais, isto é, que colocam em decisão de maneira renovada a essência da verdade. Para os raros, que trazem consigo a mais elevada coragem para a solidão, a fim de pensar a nobreza do seer e falar de sua unicidade. O pensar no outro início é originariamente histórico de uma maneira única: o dispor autoconjuntivo sobre a essenciação do seer. Um projeto da essenciação do seer como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR precisa ser ousado porque não conhecemos a missão de nossa história. Que possamos experimentar de um modo fundamental a essenciação desse desconhecido em seu ocultar-se. Precisamos querer, porém, desdobrar esse saber, segundo o qual o desconhecido que nos é dado como tarefa deixa a vontade na solidão e, assim, obriga a existência do ser-aí à mais elevada retenção em relação ao que se oculta. [tr. Casanova; GA65: 5]

A verdade do seer só se torna necessidade por meio daqueles que perguntam. Eles são os crentes propriamente ditos, porque eles se mantêm – abrindo a essência da verdade – sobre o solo. Os que perguntam – solitários e sem os artifícios de um encantamento – estabelecem a nova e suprema posição hierárquica da insistência no meio do seer, na essenciação do ser (ACONTECIMENTO APROPRIADOR) como o meio. Os que questionam rejeitaram toda curiosidade, toda avidez pelo novo; sua busca ama o abismo, no qual eles sabem o mais antigo fundamento. [tr. Casanova; GA65: 5]

Se algum dia uma história nos for ainda uma vez comunicada, a exposição criadora ao ente a partir do pertencimento ao ser, então é indispensável a determinação: preparar o tempo-espaço da última decisão – se e como nós experimentamos e fundamos esse pertencimento. Nisso reside: de maneira pensante fundar o saber do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, por meio da fundação da essência da verdade enquanto ser-aí. Como quer que a decisão sobre a historicidade e a falta de historicidade possa vir a ser tomada, os questionadores, que preparam de maneira pensante a decisão, precisam ser, cada um porta a solidão para o interior de sua maior hora. Que dizer realiza o mais elevado silenciamento pensante? Que procedimento efetua mais prontamente a meditação sobre o seer? O dizer da verdade; pois ele é o entre para a essenciação do seer e a entidade do ente. Esse entre funda a entidade do ente no seer. O seer, porém, não é algo “anterior” – subsistindo por si, em si –, mas o ACONTECIMENTO APROPRIADOR é a coetaneidade tempo-espacial para o seer e o ente. [tr. Casanova; GA65: 5]

O pudor, porém, segundo o que foi dito, não pode ser confundido com a timidez ou ser mesmo apenas compreendido na direção da timidez. Isto nos é tão pouco permitido que o pudor aqui visado excede até mesmo a “vontade” de retenção, e isto a partir da profundidade do fundamento da tonalidade afetiva fundamental una. Para ele, para o pudor em particular, emerge a necessidade do silenciamento, e essa necessidade é o deixar essenciar-se que afina completamente toda postura em meio ao ente e todo comportamento em relação ao ente, o deixar essenciar-se do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 5]

Ser o que busca, o que vela, o que guarda – isto significa o cuidado enquanto traço fundamental do ser-aí. Em seu nome reúne-se a determinação do homem, na medida em que ele é concebido a partir de seu fundamento, isto é, a partir do ser-aí, o qual se encontra apropriado em meio ao acontecimento e imerso na viragem para o ACONTECIMENTO APROPRIADOR enquanto para a essência do seer e só pode se tornar insistente por força de sua origem como fundação do tempo-espaço (“temporialidade”), a fim de transformar a indigência do abandono do ser na necessidade da criação como a restituição do ente. E nos juntando à junção do seer, nós nos encontramos à disposição dos deuses. A própria busca é a meta. E isto significa: “metas” estão ainda por demais ligadas ao primeiro plano e sempre continuam se colocando diante do seer – e soterram o necessário. À disposição dos deuses – o que isto significa? E se os deuses forem o indecidido, porque ainda resta em um primeiro momento recusada a abertura da deização? Aquela palavra significa: à disposição para o ser usado no descerramento desse aberto. E aqueles que determinam previamente pela primeira vez a abertura desse aberto e que precisam realizar a afinação sobre eles, na medida em que repensam a essência da verdade e a elevam ao nível de questão, esses são os que são mais duramente usados. À “disposição dos deuses” – isto significa: se encontrar – muito para além e para fora – para fora do caráter corrente do “ente” e de suas interpretações; pertencer aos que se acham mais ao longe, para os quais a fuga dos deuses permanece o mais próximo em sua mais ampla subtração. [tr. Casanova; GA65: 5]

A questão pensante acerca da verdade do seer é o instante, que sustenta a transição. Esse instante não é nunca efetivamente fixável, nem tampouco tem como ser contabilizado. Ele estabelece pela primeira vez o tempo do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A simplicidade única dessa transição nunca é concebível historiologicamente, porque a “história” historiológica pública passou há muito tempo ao largo dessa transição, mesmo que ela possa ser mostrada mediatamente para essa “história”. Assim, fica reservado para esse instante um longo caráter de futuro, contanto que deva ser quebrado ainda uma vez o esquecimento do ser do ente. [tr. Casanova; GA65: 5]

A questão é que a tonalidade afetiva fundamental afina o ser-aí e, com isto, o pensar como projeto da verdade do seer na palavra e no conceito. A tonalidade afetiva é a pulverização do estremecimento do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR no ser-aí. Pulverização: não como um mero desaparecimento e extinção, mas, ao contrário: como guarda da chama no sentido da clareira do aí de acordo com a plena abertura do fosso abismal do seer. A tonalidade afetiva fundamental do outro início quase não tem como ser jamais nomeada por meio de um nome; e isto se mantém até mesmo na transição para ele. A pluralidade de nomes, porém, não nega a simplicidade dessa tonalidade afetiva fundamental e só mostra em meio ao inconcebível todo o seu caráter simples. A tonalidade afetiva fundamental se chama para nós: o espanto, a retenção, o pudor, o pressentimento, o abrir-se para o pressentimento. [tr. Casanova; GA65: 6]

Toda e qualquer denominação da tonalidade afetiva fundamental por meio de uma única palavra fixa-se sobre uma opiniáo equivocada. Toda e qualquer palavra é sempre retirada do que é legado pela tradição. O fato de a tonalidade afetiva fundamental do outro início precisar ser dotada de muitos nomes não contesta sua simplicidade, mas confirma sua riqueza e sua estranheza. Toda e qualquer meditação sobre essa tonalidade afetiva fundamental é constantemente apenas uma lenta equipagem com vistas ao insight afinador da tonalidade afetiva fundamental, que precisa permanecer fundamentalmente um a-caso. A equipagem com vistas a tal a-caso só consiste naturalmente, de acordo com a essência da tonalidade afetiva, na ação pensante transitória; e essa ação precisa crescer a partir do saber propriamente dito (do resguardo da verdade do seer). Mas se o seer se essencia como a recusa e se essa recusa mesma deve vigorar em sua clareira e ser conservada como recusa, então a prontidão para a recusa só pode subsistir como abdicação. A abdicação não é aqui, contudo, o mero não querer ter e o deixar de lado, mas ela acontece como a forma mais elevada da posse, cuja elevação encontra a decisão na franqueza do entusiasmo pela doação do insondável pelo pensar, isto é, pela doação da recusa. Nessa decisão, o aberto da transição é retido e fundado – o em-meio-a abissal do entre em relação ao não-mais do primeiro início e de sua história e ao ainda-não do preenchimento do outro início. Nessa decisão, toda guarda do ser-aí precisa fincar pé, na medida em que o homem como fundador do ser-aí precisa se tornar o guardião do silêncio do passar ao largo do último deus. Essa decisão, porém, enquanto pressentindo, é apenas a sobriedade da força de sofrimento do criador, aqui daquele que projeta a verdade do seer, que abre o silêncio para a violência essencial do ente, a partir da qual o seer (como ACONTECIMENTO APROPRIADOR) torna-se apreensível. [tr. Casanova; GA65: 6]

Até que ponto o deus se encontra afastado de nós, aquele que nos nomeia fundadores e criadores, porque sua essência precisa de tais homens? Ele está tão afastado que nós não conseguimos decidir, se ele se movimenta em nossa direção ou se ele está se distanciando de nós. E repensar plenamente essa distância mesma em sua essenciação como o tempo-espaço da suprema decisão significa questionar acerca da verdade do seer, acerca do próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR, do qual toda história futura provém, se é que ainda haverá história. Essa distância da indecidibilidade do mais externo e do primeiro é o iluminado para o encobrir-se, é a essenciação da própria verdade como a verdade do seer. Pois o que se encobre dessa clareira, a distância da indecidibilidade, não é nenhum mero vazio presente à vista e indiferente, mas a essenciação mesma do ACONTECIMENTO APROPRIADOR como essência do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, como essência da renúncia hesitante, que se apropria do ser-aí em meio ao acontecimento como já copertinente, o deter-se do instante e dos sítios da primeira decisão. [tr. Casanova; GA65: 7]

Na essência da verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR decide-se e funda-se ao mesmo tempo todo verdadeiro, o ente se faz ente, o não ente desliza para o interior da aparência do seer. Essa distância é, sobretudo: a mais ampla e para nós primeira proximidade com deus, mas também a indigência do abandono do ser, encoberto pela ausência de indigência, que se atesta por meio do desvio em relação à meditação. Na essenciação da verdade do seer, no ACONTECIMENTO APROPRIADOR e como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, encobre-se o último deus. [tr. Casanova; GA65: 7]

O despertar dessa indigência é o primeiro tresloucamento do homem para o interior daquele entre, no qual a confusão acossa de maneira uniforme e o deus permanece em fuga. Esse “entre”, contudo, não é nenhuma “transcendência” com relação ao homem, mas é, ao contrário, aquele aberto, ao qual pertence o homem como fundador e guardião, na medida em que ele é apropriado em meio ao acontecimento como ser-aí pelo seer mesmo, que não se essencia como nada diverso senão como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 7]

Se o homem, por meio desse tresloucamento, chegar a se aprumar no ACONTECIMENTO APROPRIADOR e se ele continuar insistentemente na verdade do seer, então ele continuará se encontrando sempre a princípio no salto para a experiência decidida quanto a se, no ACONTECIMENTO APROPRIADOR, se decide em nome dele ou contra ele o ficar de fora ou a entrada em cena do deus. [tr. Casanova; GA65: 7]

Somente se mensuramos o quão unicamente necessário o ser é e como ele não se essencia como o próprio deus; somente se tivermos determinado nossa essência com vistas a esses abismos entre o homem e o seer e entre o seer e os deuses, somente então os “pressupostos” começarão uma vez mais a serem efetivamente realizados para uma “história”. Por isto, em termos de pensamento, a única coisa que se mostra como válida é a meditação com vistas ao “ACONTECIMENTO APROPRIADOR”. Por fim e em primeiro lugar, o “ACONTECIMENTO APROPRIADOR” só pode ser re-pensado (compelido para diante do pensar inicial), se o seer mesmo for concebido como o “entre” para o passar ao largo do último deus e para o ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 7]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR se sobrepõe apropriadoramente ao deus no homem, na medida em que ele se apropria do homem para o deus. Essa apropriação sobre-apropriada em meio ao acontecimento é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, no qual a verdade do seer é fundada como ser-aí (o homem transformado, voltado para a decisão do ser-aí e ser-se-ausentando) e a história toma o seu outro início a partir do seer. A verdade do seer, porém, como abertura do encobrir-se é ao mesmo tempo voltada para a decisão quanto à distância e à proximidade dos deuses e, assim, a prontidão para o passar ao largo do último deus. [tr. Casanova; GA65: 7]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR é o entre no que concerne ao passar ao largo do deus e à história do homem. Mas não o campo intermediário indiferente. Ao contrário, a referência ao passar ao largo é a abertura usada por deus do dilaceramento em meio a um fosso abissal; por outro lado, a referência ao homem é o deixar emergir que se apropria em meio ao acontecimento da fundação do ser-aí e, com isto, da necessidade do abrigo da verdade do seer no ente como de uma restituição do ente. [tr. Casanova; GA65: 7]

Passar ao largo não é história e história não é ACONTECIMENTO APROPRIADOR, assim como ACONTECIMENTO APROPRIADOR não é passar ao largo, e, contudo, todos os três (se é que temos o direito de rebaixá-los em geral ao nível do numerável) só são experimentados e re-pensados em suas referências, isto é, só a partir do próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 7]

A distância da indecidibilidade não é naturalmente algo “para além de”, mas o mais próximo do aí infundado do ser-aí, que se tornou insistente na prontidão para a recusa enquanto a essenciação do seer. Esse mais próximo é tão próximo que todo exercício inevitável da maquinação e do vivenciado precisa ter já necessariamente passado ao largo dele e, por isto, também nunca pode ser resgatado imediatamente para ele. O ACONTECIMENTO APROPRIADOR permanece o que há de mais estranho. [tr. Casanova; GA65: 7]

A fuga dos deuses precisa ser experimentada e suportada. Essa constância funda a proximidade mais distante possível do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Esse ACONTECIMENTO APROPRIADOR é a verdade do seer. Nessa verdade abre-se pela primeira vez a indigência do abandono do ser. A partir dessa indigência, a fundação da verdade do ser e a fundação do ser-aí se tornam necessárias. Essa necessidade realiza-se na decisão constante, que atravessa de maneira dominante todo ser humano histórico: quer o homem seja futuramente alguém pertencente à verdade do ser e, assim, alguém que abriga a partir dessa copertinência e para ela a verdade como verdadeiro no ente, ou quer o começo do último homem expulse o homem para o interior da animalidade dissimulada e permaneça recusado para o homem histórico o último deus. O que acontecerá se a luta pelos critérios de medida tiver se extinguido, se o mesmo querer não quiser mais nenhuma grandeza, isto é, não apresentar mais nenhuma vontade da maior diversidade dos caminhos? [tr. Casanova; GA65: 8]

No outro início pensa-se de antemão aquele totalmente outro, que foi denominado o âmbito da decisão, no qual se conquista ou se perde o seer histórico propriamente dito dos povos. Esse ser – a historicidade – não é nunca o mesmo em toda e qualquer era. Ele se encontra agora diante de uma mudança essencial, na medida em que ele tem como tarefa fundar aquele âmbito da decisão, aquele nexo do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, graças ao qual um ente histórico humano traz a si mesmo pela primeira vez para si mesmo. A fundação desse âmbito exige uma renúncia que é o contrário da tarefa de si. Ela só pode ser levada a termo a partir da coragem do a-bismo. Esse âmbito, se é que tal caracterização é em geral suficiente, é o ser-aí, aquele espaço intermediário, que, fundando pela primeira vez a si mesmo, confronta e defronta o homem e o deus um em relação ao outro, tornando-os próprios um ao outro. O que se abre na fundação do ser-aí é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Com isto, não se tem em vista um “em face de”, algo intuível e uma “ideia”, mas o acenar de lá pra cá e o manter-se na mobilidade para cá no aberto do aí, que é justamente o ponto de virada clareador e encobridor nesta viragem. Essa viragem só conquista sua verdade, na medida em que ela é contestada enquanto contenda entre mundo e terra e, assim, em que o verdadeiro é coberto no ente. Só a história, que se funda no ser-aí, tem a garantia de uma copertinência à verdade do ser. [tr. Casanova; GA65: 8]

O seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR – renúncia hesitante como (recusa). Maturidade: fruto e doação. O elemento nulo no seer e o impulso contrário; querelante (seer ou não-ser). O seer se essencia na verdade; clareira para o encobrir-se. A verdade como essência do fundamento: fundamento – o em que fundado (não o de onde enquanto causa). O fundamento funda como a-bismo: a indigência como o aberto do encobrir-se (não o “vazio”, mas inesgotabilidade a-bissal). O a-bismo como o tempo-espaço. O tempo-espaço é o sítio instantâneo da contenda (seer ou não-ser). A contenda como a contenda de terra e mundo, porque a verdade do seer só é no abrigo e essa como o “entre” fundante no ente. Um contra o outro de terra e mundo. As vias e os modos do abrigo – o ente. [tr. Casanova; GA65: 9]

O seer se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A essenciação tem o meio e a amplitude na viragem. A exportação resolutora de contenda e réplica. A essenciação é garantida e abrigada na verdade. A verdade acontece como o encobrimento clareador. A estrutura fundamental desse acontecimento é o tempo-espaço que emerge dele. O tempo-espaço é o que desponta para as mensurações da abertura do fosso abissal do seer. O tempo-espaço é, enquanto junção da verdade, originariamente o sítio instantâneo do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O sítio instantâneo essencia-se a partir desse acontecimento como a contenda de terra e mundo. A contestação da contenda é o ser-aí. O ser-aí acontece nos modos do abrigo da verdade a partir da garantia do ACONTECIMENTO APROPRIADOR clareado e velado. O abrigo da verdade deixa que o verdadeiro se abra e se dissimule como o ente. O ente se encontra pela primeira vez assim no seer. O ente é. O seer se essencia. O seer (como ACONTECIMENTO APROPRIADOR) precisa do ente, para que ele, o seer, se essencie. O ente pode “ser” ainda no abandono do ser, sob cujo domínio a tangibilidade e a utilidade imediata, assim como a funcionalidade de todo e qualquer tipo (tudo precisa servir ao povo, por exemplo) constituem obviamente o que é sendo e o que não é. A autonomia aparente do ente em face do seer, como se este fosse apenas um suplemento do pensamento “abstrato” representacional, porém, não é nenhum primado, mas apenas o sinal do privilégio em relação à decadência que cega. Esse ente “real e efetivo” é concebido a partir da verdade do seer como o não-ente sob o domínio da inessência da aparência, cuja origem permanece aí encoberta. O ser-aí como a fundação da contestação da contenda em meio ao que é aberto por ela é cristalizado humanamente e sustentado na insistência que suporta o aí e que pertence ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O pensar do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR é o pensar inicial, que prepara como confrontação com o primeiro início o outro início. O primeiro início pensa o seer como presentidade a partir da presentação, que apresenta o primeiro reluzir de uma essenciação do seer. [tr. Casanova; GA65: 10]

1) ACONTECIMENTO APROPRIADOR: a luz segura da essenciação do seer no campo de visão extremo da mais íntima indigência do homem histórico. 2) O ser-aí: o entre aberto no meio e, assim, velador, entre a chegada e a fuga dos deuses e o homem nele enraizado. 3) O ser-aí tem a origem no ACONTECIMENTO APROPRIADOR e em sua viragem. 4) Por isto, ele só pode ser fundado como a verdade e na verdade do seer. 5) A fundação – não recriação – é um deixar-ser-fundamento por parte do homem, que chega, com isto, pela primeira vez, uma vez mais a si e reconquista o ser-si-mesmo. 6) O fundamento fundado é ao mesmo tempo abismo para a abertura do fosso abissal do seer e não fundamento para o abandono do ser do ente. 7) A tonalidade afetiva fundamental da fundação é a retenção. 8) A retenção é a referência insigne, instantânea ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR no ser chamado por meio de seu conclamar. 9) O ser-aí é o acontecimento fundamental da história por vir. Esse acontecimento emerge do ACONTECIMENTO APROPRIADOR e se torna um sítio instantâneo possível para a decisão sobre o homem – sua história ou não história como sua transição para o ocaso. 10) O ACONTECIMENTO APROPRIADOR e o ser-aí estão em sua essência, isto é, em sua pertinência enquanto fundamento da história, ainda completamente velados e permanecerão por um longo tempo causando estranhamento. Faltam as pontes; os saltos ainda não foram levados a termo. Ainda permanece de fora a profundidade da experiência da verdade que lhes satisfazem e a meditação sobre o seu sentido: a força da decisão elevada. Em contrapartida, numerosas no caminho são apenas as ocasiões e os meios da má interpretação, porque falta mesmo o saber daquilo que aconteceu no primeiro início. [tr. Casanova; GA65: 11]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR é a própria história originária, com o que poderia estar insinuado que aqui em geral a essência do seer é concebida “historicamente”. A questão é: historicamente com certeza, mas não se valendo de um conceito de história, senão historicamente porque agora a essência do seer não significa apenas a presentidade, mas a plena essenciação do a-bismo tempo-espacial e, com isto, da verdade. Juntamente com isto, vem à tona o saber em torno da unicidade do seer. Por meio daí, contudo, não é preterida, por exemplo, a natureza, mas essa é do mesmo modo originariamente transformada. Neste conceito originário de história, conquista-se pela primeira vez o âmbito, no qual se mostra por que e como a história é “mais” do que ação e vontade. Também o “destino” pertence à história e não esgota sua essência. [tr. Casanova; GA65: 12]

Tonalidade afetiva é aqui visada no sentido insistente: a unidade da exportação resolutora de todo fascínio, assim como do projeto e do registro de todo êxtase e de toda insistência e realização da verdade do ser. Toda e qualquer representação diversa e “psicológica” da “tonalidade afetiva” precisa ser posta de lado aqui. Por isto, a tonalidade afetiva nunca pode ser simplesmente o como, que acompanha, ilumina e sombreia todo fazer e deixar de fazer do homem, fazer e deixar de fazer esses que já estariam fixados. Ao contrário, é só por meio da tonalidade afetiva que a extensão do êxtase do ser-aí é mensurada e a simplicidade do fascínio atribuída, na medida em que se trata da retenção como tonalidade afetiva fundamental. Ela é a tonalidade afetiva fundamental, porque ela afina a sondagem do fundamento do ser-aí, do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, e, com isto, a fundação do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 13]

A retenção é a prontidão mais intensa e ao mesmo tempo mais terna do ser-aí para a apropriação em meio ao acontecimento, o ser jogado no encontrar-se-em propriamente dito na verdade da viragem para o cerne do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O domínio do último deus só toca na retenção; a retenção cria para ele, para esse domínio, assim como para ele, para o último deus, a grande tranquilidade. [tr. Casanova; GA65: 13]

Retenção: o salto adiante que se mantém em si, o salto para o interior da viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR (por isto, nenhuma fuga romântica ou uma aquietação burguesa). [tr. Casanova; GA65: 13]

Cortam de nós a palavra; não como uma ocorrência ocasional, junto à qual não teria lugar um discurso e um enunciado realizável e onde apenas o enunciar e o redizer o que já foi dito e o que é dizível não são levados a termo, mas originariamente. A palavra não ganha ainda de modo algum a palavra, por mais que ela chegue ao primeiro salto por meio de tal corte. O que corta a palavra é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR enquanto aceno e acometimento do seer. O fato de se cortar a palavra é a condição inicial para a possibilidade que se desdobra de uma denominação originária – poética – do seer. Linguagem e a grande tranquilidade, a proximidade simples da essência e a distância clara do ente, quando a palavra atua uma vez mais pela primeira vez. Quando chegará esse tempo? A retenção: o suportar criador no a-bismo. [tr. Casanova; GA65: 13]

A filosofia é o saber imediatamente inútil, mas, não obstante, um saber dominante a partir da meditação. Meditação é questionamento acerca do sentido, isto é, acerca da verdade do seer. O questionamento acerca da verdade é o salto para o interior de sua essência e, com isto, para o interior do seer mesmo. A questão é: se, quando e como somos pertencentes ao ser (como ACONTECIMENTO APROPRIADOR). Essa questão precisa ser questionada por causa da essência do ser, que precisa de nós, e, em verdade, não como aqueles que se encontram precisamente ainda presentes, mas de nós, na medida em que nós ratificamos insistentemente suportando o ser-aí e o fundamos como a verdade do seer. Por isto, a meditação – salto para o interior da verdade do ser – é necessariamente auto-meditação. Isto não significa consideração voltada para trás de nós como “dados”, mas fundação da verdade do ser si mesmo a partir da propriedade do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 16]

A indigência, aquele elemento que impele de um lado para o outro, essenciante – o que aconteceria se a verdade do seer mesmo fosse, o que aconteceria se, com a fundação originária da verdade, se tornasse ao mesmo tempo mais essenciante o seer – como ACONTECIMENTO APROPRIADOR? E se as coisas se derem assim e a indigência for mais compelidora, se ela impelir mais de um lado para o outro, mas o impulso for nessa violência apenas aquela contenda, que teria na desmedida da intimidade do ente e do seer seu fundamento que se recusa? [tr. Casanova; GA65: 17]

Só quem concebe o fato de que o homem precisa fundar historicamente a sua essência por meio da fundação do ser-aí, o fato de que a insistência da pendência do ser-aí não é outra coisa senão a moradia no tempo-espaço daquele acontecimento, que acontece apropriadoramente como a fuga dos deuses; só quem recolhe de maneira criadora a consternação e a animação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR na retenção como tonalidade afetiva fundamental, consegue pressentir a essência do ser e preparar em tal meditação a verdade para o futuro verdadeiro. [tr. Casanova; GA65: 19]

Na meditação e por meio dela acontece necessariamente o sempre-ainda-outro, que é importante propriamente preparar, mas que não encontraria os sítios do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, se não fosse uma clareira para o velado. A filosofia como automeditação da maneira indicada só é executável como pensar inicial do outro início. Essa automeditação deixou todo “subjetivismo” para trás, mesmo aquele que se esconde da maneira mais perigosa possível no culto à “personalidade”. Onde esse culto é estabelecido e, de maneira correspondente, onde é estabelecido na arte o “gênio”, tudo se movimenta, apesar dos asseguramentos em contrário, na via do pensamento do “eu” e da consciência moderna. Quer se compreenda a pessoalidade como a unidade “espírito-alma-corpo”, quer se inverta essa mistureba e só se estabeleça em primeiro lugar à guisa de afirmação o corpo, tudo isto não altera nada na confusão aqui dominante do pensar, que se desvia de toda e qualquer pergunta. O “espírito” é considerado sempre neste caso como “razão”, como a faculdade do poder-dizer-eu. Aqui, até mesmo Kant   já se encontrava para além desse liberalismo biológico. Kant viu: a pessoa é mais do que o “eu”; ela está fundada na autolegislação. Naturalmente, isto também permaneceu platonismo. E as pessoas querem fundamentar, por exemplo, o dizer-eu biologicamente? Se não, então essa inversão é de qualquer modo apenas uma brincadeira, o que ela também continua sendo mesmo sem isto, porque aqui permanece inquestionadamente pressuposta a metafísica velada de “corpo” e “sensibilidade”, “alma” e “espírito”. [tr. Casanova; GA65: 19]

Repousar significa dizer que o questionamento se acha em meio ao mais extremo âmbito de oscilação, em meio ao pertencimento ao acontecimento mais extremo, que é a viragem no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O encontrar-se acontece no salto, que se desdobra como fundação do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 22]

Porque só o maior acontecimento, o mais íntimo ACONTECIMENTO APROPRIADOR, ainda pode nos salvar da perdição no funcionamento das meras ocorrências e maquinações. Algo desse gênero precisa se apropriar em meio ao acontecimento daquilo que o ser abre para nós e que nos recoloca nesse ser, e, assim, nos traz para nós mesmos e para diante da obra e do sacrifício. Agora, porém, o maior ACONTECIMENTO APROPRIADOR é sempre o início, ainda que esse início seja o início do último deus. Pois o início é o velado, a origem ainda não abusada e funcionalizada, que, sempre se subtraindo, mais amplamente antecipa e, assim, conserva em si o mais elevado domínio. Esse poder não desgastado do fechamento radical das mais puras possibilidades da coragem (da vontade afinada e sapiente do ACONTECIMENTO APROPRIADOR) é a única salvação e comprovação. [tr. Casanova; GA65: 23]

O início é o seer mesmo como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o domínio velado da origem da verdade do ente enquanto tal. E, enquanto o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o seer é o início. [tr. Casanova; GA65: 23]

O outro início precisa ser provocado completamente a partir do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR e a partir da essenciação de sua verdade e de sua história. O pensar inicial desloca seu questionamento acerca da verdade do seer para um ponto muito lá atrás no primeiro início como a origem da filosofia. Com isto, ele cria para si a garantia para chegar em seu outro início vindo de muito longe e para encontrar na herança dominada a sua mais elevada constância futura e, com isto, para retornar a si mesmo em uma necessidade modificada (em face do primeiro início). [tr. Casanova; GA65: 23]

O que é concebido é aqui originariamente a “quintessência” e essa em primeiro lugar e sempre referida à conexão que acompanha a viragem em direção ao cerne do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. De início, o caráter paradigmático pode ser indicado por meio da ligação, que todo e qualquer conceito de ser enquanto conceito, isto é, em sua verdade, tem com o ser-aí e, com isto, com a insistência do homem histórico. Na medida, contudo, em que o ser-aí só se funda como pertencimento à conclamação na viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o mais íntimo da quintessência reside no conceito da própria viragem, naquele saber que, suportando a indigência do abandono do ser, se mantém na prontidão para a conclamação; naquele saber que fala, na medida em que antes silencia a partir da insistência suportadora no ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 27]

Onde, em contrapartida, o seer é concebido como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, determina-se a essencialidade a partir da originariedade e unicidade do próprio seer. A essência não é o universal, mas a essenciação precisamente da respectiva unicidade e do nível hierárquico do ente. [tr. Casanova; GA65: 29]

O estilo da retenção, porque essa afina integralmente de modo fundamental a insistência, a espera rememorante do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Essa retenção também afina inteiramente toda contestação da contenda entre mundo e terra. Ela se submete – silenciando – à medida suave, suportando em si a pérfida grima, as duas – pertencendo-se mutuamente – encontram-se diversamente a partir da terra tanto quanto a partir do mundo. [tr. Casanova; GA65: 31]

Aquela essência da verdade, contudo, a clareira e o encobrimento extasiantes e fascinantes como origem do aí, se essencia em seu fundamento, que nós experimentamos como acontecimento da apropriação. A aproximação e a fuga, a chegada e a evasão, ou a simples elisão dos deuses; para nós, no ser senhor, isto é, no início e no ser dominante sobre esse acontecimento, cujo domínio final inicial se mostrará como o último deus. Em seu aceno, o ser mesmo, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR enquanto tal, se torna pela primeira vez visível, e esse brilhar carece tanto da fundação da essência da verdade como clareira e como encobrimento quanto de seu abrigo derradeiro nas figuras transformadas do ente. De resto, o que se pensou até aqui sobre espaço e tempo, que pertencem retroativamente a essa origem da verdade, já é, como Aristóteles   já tinha exposto pela primeira vez na Física, uma consequência da essência já fixada do ente como ousia   e da verdade como correção e de tudo aquilo que se obtém a partir daí em termos de “categorias”. Quando Kant caracteriza espaço e tempo como “intuições”, isto não é outra coisa senão, no interior dessa tradição, uma fraca tentativa de salvar em geral a essência própria de espaço e tempo. Mas Kant não tem nenhum caminho para a essência de espaço e tempo. A orientação pelo “eu”, pela “consciência” e pelo re-presentar obstrui pura e simplesmente todo e qualquer caminho e vereda. [tr. Casanova; GA65: 32]

O abrigo mesmo realiza-se no e como ser-aí. E isto acontece, conquista e perde a história na o-cupação insistente, que pertence de antemão ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR, mas que só sabe muito pouco algo sobre esse pertencimento. Essa ocupação pensada não a partir da cotidianidade, mas concebida a partir da ipseidade do ser-aí, se mantém em modos múltiplos que se requisitam entre si: fabricação de utensílios, instituição da maquinação (técnica), criação de obras, ato formador de Estado, sacrifício pensante. Em tudo isso a cada vez de maneira diversa, a pré e a co-configuração de conhecimento e de saber essencial como fundação da verdade. “Ciência” apenas uma estaca distanciada de uma penetração determinada da fabricação de utensílios etc.; nada autônomo e nunca podendo ser colocada em conexão com o saber essencial do repensar do ser (filosofia). [tr. Casanova; GA65: 32]

O abrigo, porém, não se mantém apenas sob os modos da produção, mas de maneira igualmente originária também sob o modo da assunção do encontro do inanimado e do vivente: pedra, planta, animal, homem. Aqui acontece a retomada na terra que se fecha. A questão é que esse acontecimento do ser-aí nunca é por si, mas pertence ao atiçamento da contenda entre terra e mundo, à insistência no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 32]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR é o meio que comunica a si mesmo e se intermedeia, o meio de volta ao qual toda essenciação da verdade do seer precisa ser de antemão pensada. Esse pensar de volta para lá é o re-pensar do seer. E todos os conceitos do seer precisam ser falados a partir daí. [tr. Casanova; GA65: 34]

O pressentimento inexpresso do ACONTECIMENTO APROPRIADOR apresenta-se em primeiro plano e, ao mesmo tempo, em meio a uma rememoração histórica (ousia = parousia) como “temporialidade”: o acontecimento do êxtase que guarda o que tinha sido e que antecipa abrindo o porvir, isto é, a abertura e a fundação do aí, e, com isso, da essência da verdade. [tr. Casanova; GA65: 34]

“O seer” não visa apenas à realidade efetiva do efetivamente real, nem tampouco apenas à possibilidade do possível, em geral não somente ao ser a partir do respectivo ente, mas ao seer a partir de sua essenciação originária na plena abertura do fosso abissal, à essenciação não restrita à “presentidade”. Naturalmente, a essenciação do seer mesmo e, com isto, o seer em sua unicidade mais única não se deixam experimentar de maneira arbitrária e direta como um ente, mas só se abrem na instantaneidade do salto prévio do ser-aí para o interior do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Um caminho também nunca conduz imediatamente do ser do ente para o seer, porque a visão para o ser do ente já acontece fora da instantaneidade do ser-aí. A partir daqui, é possível trazer para o interior da questão do ser uma distinção e uma clarificação essenciais. Ela não é nunca a resposta da questão do ser, mas apenas a conformação do questionar, o despertar e a clarificação da força questionadora para essa questão, que só emerge sempre e a cada vez da indigência e do desenvolvimento do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 34]

Para a questão fundamental, em contrapartida, o ser não é a resposta e o âmbito da resposta, mas o que há de mais digno de questão. Para ele, vale a dignificação única e saliente, isto é, ele mesmo é aberto como domínio e, assim, elevado ao nível do aberto como o que nunca pode ser controlado. O seer como o fundamento, no qual todo ente primeiramente enquanto tal chega à sua verdade (abrigo, instituição e objetividade); o fundamento, no qual o ente mergulha (abismo), o fundamento, no qual ele também se atreve a se lançar em sua indiferença e obviedade (não fundamento). O fato de o seer se essenciar de maneira fundante em sua essenciação desse modo indica a sua unicidade e domínio. E esse domínio, por sua vez, é apenas o aceno para o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, no qual temos de buscar a essenciação do seer em seu mais extremo velamento. O seer enquanto o que há de mais digno de questão não conhece mesmo em si nenhuma questão. [tr. Casanova; GA65: 34]

A meditação sobre o caminho: 1) O que é um pensar inicial. 2) Como é que o outro início se realiza como silenciamento. O “ACONTECIMENTO APROPRIADOR” seria o título correto para a “obra”, que aqui não pode ser senão preparada; e, por isto, é preciso colocar como título, ao invés disso: Contribuições à filosofia. A “obra”: a construção que se desenvolve no voltar-se para o fundamento preponderante. [tr. Casanova; GA65: 35]

[O repensar do seer e a linguagem] Com a linguagem habitual, que hoje é cada vez mais amplamente abusada e desgastada, a verdade do seer não tem como ser dita. Será que essa verdade pode ser em geral dita de maneira imediata, uma vez que toda linguagem é de qualquer modo linguagem do ente? Ou será que pode ser inventada uma nova linguagem para o seer? Não. E mesmo se tal tentativa tivesse êxito e mesmo sem uma formação vernácula artificial, essa linguagem não seria nenhuma linguagem que diz. Todo dizer precisa emergir concomitantemente do poder ouvir. Os dois precisam ter a mesma origem. Assim, só uma coisa importa: dizer a linguagem mais nobremente amadurecida em sua simplicidade e força essencial, a linguagem do ente enquanto linguagem do seer. Essa transformação da linguagem penetra em âmbitos que ainda se encontram cerrados para nós, porque não sabemos a verdade do seer. Assim, fala-se da “recusa do perseguimento”, da “clareira do encobrimento”, do “ACONTECIMENTO APROPRIADOR”, do “ser-aí”, não um escolher verdades e retirar essas verdades das palavras, mas a abertura da verdade do seer em tal dizer transformado. [tr. Casanova; GA65: 36]

O silenciamento é a legalidade sensata do silenciar (sigan). O silenciamento é a “lógica” da filosofia, na medida em que ela questiona a partir do outro início a questão fundamental. Ela busca a verdade da essenciação do seer e essa verdade é o velamento que ressoa e nos fornece um aceno (o mistério) para o ACONTECIMENTO APROPRIADOR (a renúncia hesitante). [tr. Casanova; GA65: 37]

O discurso marcado pelo termo estrangeiro “sigética” na correspondência com a “lógica” (onto-logia) só é visado transitória e retrospectivamente e não aponta de maneira alguma para a busca por substituir a “lógica”. Pois uma vez que a questão acerca do seer e acerca da essenciação do seer se encontra presente, o questionamento mesmo ainda é mais originário e, por isso, não pode senão menos ainda ser enclausurado e sufocado em uma disciplina escolar. Nunca podemos dizer imediatamente o seer (ACONTECIMENTO APROPRIADOR), e, desse modo, também não podemos dizê-lo mediatamente no sentido da “lógica” intensificada da dialética. Todo e qualquer dizer já fala a partir da verdade do seer e nunca pode saltar por cima de si mesmo imediatamente e aceder ao seer ele mesmo. O silenciamento tem leis mais elevadas do que toda e qualquer lógica. [tr. Casanova; GA65: 38]

Se essa retenção ganha voz, o dito é sempre o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Compreender esse dizer significa, contudo, levar a termo o projeto e o salto para o interior do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O dizer funda enquanto silenciar. Sua palavra não é, por exemplo, apenas um sinal de algo completamente diverso. O que ele denomina é visado. Mas o “visar” só é próprio enquanto ser-aí, o que significa dizer que ele só é próprio de maneira pensante no questionar. [tr. Casanova; GA65: 38]

Este [ACONTECIMENTO APROPRIADOR] é o título essencial para a tentativa do pensar inicial. O título público, porém, só pode ser: contribuições à filosofia. [tr. Casanova; GA65: 39]

As seis junções da junta livre e fugidia se encontram cada uma por si, mas apenas para tornar mais penetrante a unidade essencial. Em cada uma das seis junções livres e fugidias, sempre se tenta dizer sempre e a cada vez o mesmo sobre o mesmo, mas a cada vez a partir de um âmbito essencial daquilo que o ACONTECIMENTO APROPRIADOR denomina. Visto de maneira extrínseca e fragmentária, encontram-se, então, facilmente por toda parte “retomadas”. Todavia, realizar de modo puro em termos da fuga livre e fugidia a persistência no mesmo, esse testemunho da autêntica insistência do pensar inicial, é o que há de mais difícil. Em contrapartida, o prosseguimento avançado na serialização de uma “matéria prima” que se oferece constantemente de maneira diversa é fácil, porque ele se dá por si mesmo. [tr. Casanova; GA65: 39]

O salto abre de antemão as amplitudes e os encobrimentos não revisados daquilo para onde a fundação do ser-aí, pertencente ao clamor do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, precisa avançar. [tr. Casanova; GA65: 39]

Eles assumem e conservam o pertencimento ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR e à sua viragem, pertencimento esse despertado pela conclamação. Assim, desponta o aceno do último deus. [tr. Casanova; GA65: 39]

Será que algo assim é configurável no dizer, de tal modo que a simplicidade dessa tarefa venha à luz? Corresponde a isso a junção livre e fugidia “do ACONTECIMENTO APROPRIADOR”? Quem quer saber isso? Mas é só por isto que ele precisa ser ousado. [tr. Casanova; GA65: 40]

A decisão já há muito tempo irrompida no velado e no dissimulado é a decisão pela história ou pela perda da história. História, porém, concebida como a contestação da contenda de terra e mundo, assumida e realizada a partir do pertencimento ao clamor do ACONTECIMENTO APROPRIADOR como a essenciação da verdade do seer na figura do último deus. [tr. Casanova; GA65: 45]

A missão, porém, à luz e na via da decisão: o abrigo da verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR a partir da retenção do ser-aí na grande tranquilidade do seer. [tr. Casanova; GA65: 45]

Por meio do que é tomada a decisão? Por meio do presente ou da permanência de fora daqueles insignemente delineados, que nós denominamos “os que estão por vir”, em diferença em relação aos muitos que arbitrariamente virão depois e aos imparáveis, que não têm mais nada diante de si e mais nada atrás de si. Desses elementos delineados faz parte: 1) Aqueles poucos particulares, que fundam de antemão os sítios e os instantes para os âmbitos do ente naquelas vias essenciais do ser-aí fundante (poesia – pensamento – ação – sacrifício). Eles criam, assim, a possibilidade essenciante para os diversos abrigos da verdade, abrigos esses nos quais o ser-aí se torna histórico. 2) Aqueles inúmeros elos de ligação, para os quais está dado pressentir a partir da concepção do querer sapiente e das fundações do particular as leis da recriação do ente, da preservação da terra e do projeto do mundo em sua contenda e torná-las visíveis em meio à execução. 3) Aquelas muitas referências de um para o outro, de acordo com a sua proveniência histórica (terrena e mundana), por meio da qual e para a qual a recriação do ente e, com isso, a fundação da verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR conquista consistência. 4) Os particulares, os poucos, os muitos (não considerados como número, mas com vistas ao seu caráter assinalado) se encontram ainda em parte nas antigas ordens correntes e planejadas. Essas ordens só se mostram ainda como uma proteção de sua consistência ameaçada ao modo de um invólucro ou ainda como forças diretrizes de seu querer. A consonância desses particulares, desses poucos e muitos é velada, não produzida, crescendo repentinamente e por si. Impera sobre ela o reinado a cada vez diverso do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, no qual se prepara uma reunião originária, na qual e como a qual se toma histórico aquilo que pode ser denominado um povo. 5) Esse povo é em sua origem e em sua determinação unicamente de acordo com a unicidade do próprio seer, cuja verdade ele tem de fundar uma única vez junto a um único sítio em um único instante. Como é que essa decisão pode ser preparada? Será que o saber e a vontade têm aqui um espaço para dispor ou só se trata aqui de uma intervenção cega em necessidades veladas? Mas necessidades só reluzem em uma indigência. E a preparação de uma prontidão para a decisão encontra-se naturalmente sob o domínio da necessidade de apenas ainda acelerar por fim a falta de história turbilhonante e calcificar suas condições, onde ela quer de qualquer modo o diverso. [tr. Casanova; GA65: 45]

A essência da decisão só pode ser determinada a partir de sua essenciação essencial. Decisão é decisão entre ou-ou. Com isso, porém, o decisivo já é antecipado. De onde o ou-ou? De onde esse: somente esse ou apenas esse? De onde a incontornabilidade do de tal ou tal modo? Não resta o terceiro elemento, a indiferença? Mas aqui, porém, no extremo, ela não é possível. O que é aqui o extremo: ser ou não-ser e, em verdade, não o ser de um ente qualquer, por exemplo, do homem, mas essenciação do ser, ou? Por que se chega aqui ao ou-ou? A indiferença seria apenas o ser do não-ente, apenas o nada mais elevado. Pois “ser” não tem em vista aqui ao ser em si presente à vista, assim como o não-ser também não visa aqui: ao completo desaparecimento, mas não-ser como uma espécie do ser: sendo e, de qualquer modo, não como uma espécie de ser; e o mesmo vale para o ser: nulo e, de qualquer modo, precisamente sendo. Esse sendo retomado na essenciação do ser exige a intelecção do pertencimento do nada ao ser, e só assim alcança o ou-ou a sua agudeza e a sua origem. Como o seer é nulo, ele precisa para a consistência de sua verdade da subsistência do não e, com isso, ao mesmo tempo do contra tudo o que é nulo, o não-ente. A partir da nulidade essencial do ser (viragem) vem à tona o fato de que ele exige e necessita daquilo que se mostra a partir do ser-aí como ou-ou, o um ou o outro, e apenas deles. A essenciação essencial da decisão é um salto em direção à decisão ou a indiferença; ou seja, não a retração e não a destruição. A indiferença como o não-decidir. A decisão passa originariamente por saber se decisão ou não decisão. A decisão, porém, é um colocar-se diante do ou-ou, e, com isso, já é um ter sido decidido, porque aqui já se dá um pertencimento ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A decisão sobre a decisão (viragem). Nenhuma reflexão, mas o contrário disso: sobre a decisão, isto é, já saber o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Decisão e questão; questão como mais originária: colocar a essência da verdade em decisão. A verdade mesma, contudo, já é o que precisa ser decidido enquanto tal. [tr. Casanova; GA65: 47]

A ressonância do seer como recusa no abandono do ser do ente – isso já diz que aqui não deve ser descrito, explicado ou colocado em ordem algo presente à vista. O peso do pensamento é diverso no outro início da filosofia: o re-pensar daquilo que acontece apropriadoramente como o próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR, trazendo o seer para a verdade de sua essenciação. Como, porém, no outro início, o seer se torna ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a ressonância do seer também precisa ser história, atravessar a história em um abalo essencial e poder dizer e saber ao mesmo tempo o instante dessa história. (Não são uma caracterização e uma descrição histórico-filosófica que se tem em vista aqui, mas um saber sobre a história a partir do instante e como o instante da primeira ressonância da verdade do próprio seer). E, de qualquer modo, o discurso soa como se só vigorasse a denominação do atual. O que é dito seria sobre a era da completa inquestionabilidade, que estende seu espaço de tempo subtemporalmente para além do atual de volta e muito para a frente. Nessa era, nada essencial – caso essa determinação em geral ainda tenha um sentido – é mais impossível ou inacessível. Tudo “é feito” e “se deixa fazer”, contanto que se tenha a “vontade” para tanto. O fato, porém, de ser precisamente essa “vontade”, que já estabeleceu e degradou de antemão aquilo que pode ser possível e, antes de tudo, necessário, já é de antemão desconhecido e deixado fora de toda e qualquer questão. Pois essa vontade, que faz tudo, se prescreveu de antemão a maquinação, aquela interpretação do ente como o re-presentável e re-presentado. Re-presentável significa por um lado: acessível no visar e no calcular; e significa, então: passível de ser trazido à tona na pro-dução e na execução. Tudo isso, porém, pensado a partir do fundamento: o ente enquanto tal é o re-presentado, e apenas o representado é ente. O que estabelece aparentemente uma resistência e um limite para a maquinação é, para ela, apenas a matéria prima para o trabalho ulterior e o impulso para o progresso, a ocasião para a extensão e a ampliação. No interior da maquinação, não há nada digno de questão, algo tal que pudesse ser honrado enquanto tal e honrado sozinho, e, com isso, iluminado e elevado ao nível da verdade. [tr. Casanova; GA65: 51]

A ressonância da verdade do seer e de sua essenciação mesma a partir da indigência do esquecimento do ser. O alçar essa indigência a partir de sua profundidade enquanto ausência de indigência. O esquecimento do ser não sabe nada sobre ela, ele pensa estar junto ao “ente”, junto ao “efetivamente real”, próximo da “vida” e seguro do “vivenciar”. Pois ele conhece apenas o ente. Todavia, desse modo, em tal presentação do ente, esse ente é abandonado pelo seer. O abandono do ser, porém, é o fundamento do esquecimento do ser. No entanto, o abandono do ser do ente traz para o ente a aparência de que esse ente mesmo seria, então, sem qualquer necessidade de um outro, apto para ser pego e utilizado. O abandono do seer, contudo, é o ser exposto e a proibição do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. É a partir do abandono do ser que a ressonância precisa soar e ter início com o desdobramento do esquecimento do ser, no qual o outro início ressoa e, assim, o seer. [tr. Casanova; GA65: 55]

A ressonância do seer quer resgatar o seer em sua plena essenciação como ACONTECIMENTO APROPRIADOR por meio do desentranhamento do abandono do ser, o que só acontece de tal modo que o ente é recolocado por meio da fundação do ser-aí no seer que se abre no salto. [tr. Casanova; GA65: 55]

No que o abandono do ser se anuncia: 1) A completa insensibilidade em relação ao múltiplo naquilo que é considerado essencial; plurissignificância provoca a perda de força e a má vontade em relação à decisão real e efetiva. Por exemplo, tudo o que significa a palavra “povo”: o elemento comunitário, o elemento racial, o baixo e o inferior, o nacional, o permanente; por exemplo, tudo aquilo que é chamado de “divino”. 2) O não saber mais o que é condição e o que é condicionado e incondicionado. Idolatria em relação às condições do seer histórico, do elemento populista, por exemplo, com toda a sua plurissignificância, transformando-o em algo incondicionado. 3) O permanecer preso no pensar e no estabelecimento de “valores” e “ideias”; sem qualquer questão séria, vê-se aí, como que em algo inalterável, a forma estrutural do ser-aí histórico; e a isso corresponde o pensar em termos de “visões de mundo”. 4) De acordo com isso, tudo é inserido em uma engrenagem “cultural”, as grandes decisões, o Cristianismo, não são expostos a partir da raiz, mas contornados. 5) A arte é submetida a uma utilidade cultural e desconhecida em sua essência; a cegueira em relação ao seu cerne essencial, o modo da fundação da verdade. 6) Em geral característico é o erro de avaliação em relação ao que é repulsivo e negador; ele é simplesmente alijado como o “mal”, equivocadamente interpretado e, com isso, apequenado e tanto mais propriamente ampliado em seu perigo. 7) Nisso se mostra – completamente à distância – o não saber em torno do pertencimento do não, da nulidade ao seer mesmo, a falta de qualquer ideia em face da finitude e da unicidade do seer. 8) Isso é acompanhado pelo não saber da essência da verdade; o fato de antes de tudo o que é verdadeiro a verdade e a sua fundação precisarem ser decididas; a busca cega pelo “verdadeiro” na aparência do querer maximamente sério. 9) Por isto, a recusa do saber autêntico e o medo diante da questão; o esquivar-se da meditação; a fuga em direção ao ceme dos dados e das maquinações. 10) Toda tranquilidade e toda retenção aparecem como inatividade, como um deixar passar e como renúncia e talvez sejam a mais ampla reconexão com o deixar ser do ser como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. 11) A segurança de si do que não se deixa mais conclamar; a calcificação contra todos os acenos; a impotência da expectativa; só ainda calcular. 12) Tudo isso são apenas irradiações de um encobrimento confuso e calcificado da essência do seer, sobretudo da abertura de seu fosso abissal: o fato de unicidade, raridade, instantaneidade, acaso e acometimento, retenção e liberdade, resguardo e necessidade pertencerem ao seer; o fato de esse seer não se mostrar como o que há de mais vazio e mais comum, mas como o que há de mais rico e mais elevado e só se essenciar no acontecimento da apropriação, acontecimento esse graças ao qual o ser-aí chega à fundação da verdade do ser no abrigo por meio do ente. 13) A elucidação particular do abandono do ser como decadência do Ocidente; a fuga dos deuses; a morte do Deus moral   cristão; sua reinterpretação. O velamento desse desenraizamento por meio do encontrar a si mesmo que se inicia de maneira supostamente nova do homem (Modernidade); esse encobrimento banhado no brilho do e intensificado pelo progresso: descobertas, invenções, indústria, máquina; ao mesmo tempo a massificação, a negligência, a desertificação, tudo como desatrelamento do fundamento e das ordens; o desenraizamento, porém, como o mais profundo velamento da indigência, a falta de força para a meditação, a impotência da verdade; o pro-gresso em direção ao não ente como abandono crescente do seer. 14) O abandono do ser é o fundamento mais íntimo para a indigência da falta de indigência. Como é que essa indigência pode ser efetuada como indigência? Alguém não precisa deixar a verdade do seer brilhar – mas para quê? Quem dos desprovidos de indigência consegue ver? Haverá algum dia uma saída para tal indigência, que se nega constantemente como indigência? Falta o querer sair. Será que a lembrança das possibilidades do passado essencial (o sido) do ser-aí pode conduzir à meditação? Ou será que algo in-habitual, não ideável se choca com essa indigência? 15) O abandono do ser, aproximado por meio de uma meditação sobre a desertificação do mundo e sobre a destruição da terra no sentido da rapidez, do cálculo, da pretensão do massificado. 16) O “domínio” coetâneo da impotência da mera mentalidade e da violência da instituição. [tr. Casanova; GA65: 56]

O modo como a maquinação e a vivência (de início veladas por um longo tempo, sim, veladas até agora enquanto tais) se impelem mutuamente até o extremo e, com isso, desdobram os deslocamentos da entidade e do homem em sua referência ao ente, desenvolvendo a si mesmas segundo o seu mais extremo abandono, compelindo-se agora reciprocamente nesses deslocamentos e criando uma unidade, que com maior razão encobre aquilo que acontece apropriadoramente nela: o abandono do ente por toda verdade do seer e completamente até mesmo pelo seer mesmo. Mas esse ACONTECIMENTO APROPRIADOR do abandono do ser seria mal interpretado, caso se quisesse ver aí um processo de decadência, ao invés de refletir que ele atravessa os modos próprios e únicos da descoberta do ente e de sua “pura” objetivação em um determinado fenômeno, aparentemente desprovido de pano de fundo e em geral sem fundamento. A emergência do “natural”, a aparição das coisas mesmas, à qual pertence efetivamente aquela aparência do sem fundamento. Esse elemento “natural” claramente não possui mais nenhuma referência imediata à physis  , mas está colocado completamente sobre o maquinal, sendo contra tal referência com certeza preparado pelo predomínio outrora vigente do sobrenatural. Essa descoberta do “natural” (por fim, do factível, do dominável e do vivenciável) precisa se esgotar um dia em suas próprias riquezas e se solidificar em uma mistura cada vez mais desértica das possibilidades até aqui, de tal modo, em verdade, que esse apenas-continuar-fazendo-como-se-fazia-até-então não sabe e não pode saber senão cada vez menos sobre si no que ele é, e aparece tanto mais criativamente para si mesmo, quanto mais ele empreende o seu fim. [tr. Casanova; GA65: 68]

O encontrar o caminho que leva de uma à outra entre maquinação e vivência encerra em si um ACONTECIMENTO APROPRIADOR único no interior da história velada do seer. Mas ainda não há em parte alguma um sinal para o fato de que algo sobre isso ganharia de algum modo o espaço do saber nessa era. Ou será que isso precisa permanecer vedado a ela e só se revelar àqueles que se encontram já na transição para a verdade, para a ressonância da verdade do seer? [tr. Casanova; GA65: 68]

O seer abandonou tão fundamentalmente o ente e esse é a tal ponto entregue à maquinação e ao “vivenciar”, que necessariamente aquelas tentativas aparentes de salvação da cultura ocidental, assim como toda “política cultural”, precisam se tornar a figura mais insidiosa, e, com isso, a figura mais elevada do niilismo. E esse é um processo que não está articulado com homens particulares e suas ações e doutrinas, mas que apenas expulsa a essência interna do niilismo para o interior da mais pura figura que lhe é atribuída. A meditação sobre isso carece naturalmente já de um ponto de vista, a partir do qual nem uma ilusão por parte das coisas muito “boas”, “progressistas” e “gigantescas”, que são realizadas, nem mesmo um mero desespero vem à tona, desespero esse que só não fechou os olhos ainda diante da completa ausência de sentido. Esse ponto de vista, que funda ele mesmo para si de maneira nova pela primeira vez tempo e espaço, se mostra como o ser-aí que ganha de modo primordial o saber sobre o seer ele mesmo como a recusa e, com isso, como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Na experiência fundamental de que o homem como fundador do ser-aí é usado pela divindade do outro deus abre-se a preparação da superação do niilismo. Mas o elemento mais incontomável e mais pesado nessa superação é o saber sobre o niilismo. Esse saber não pode permanecer preso nem à palavra, nem à primeira elucidação do que se tem em vista por meio de Nietzsche  , mas é preciso reconhecer como a sua essência o abandono do ser. [tr. Casanova; GA65: 72]

24) A questão é que o grande deslocamento abismado só surge do saber essencial, que se encontra no outro início, nunca a partir da impotência e da mera perplexidade. O saber, porém, é a insistência na questionabilidade do seer, que guarda, assim, a sua dignidade única no fato de que ele só se doa de maneira bastante rara na recusa como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR velado do passar ao largo da decisão sobre a chegada e a fuga dos deuses no ente. Que homem por vir funda esse instante do passar ao largo para o início de uma outra “era”, quer dizer: uma outra história do seer? A dissolução e a junção das faculdades científicas de sustentação. As ciências dos espírito historiológicas transformam-se em ciências da imprensa. As ciências naturais transformam-se em ciência de máquinas. “Jornal” e “máquina” são visados no sentido essencial como modos em constante avanço da objetivação definitiva (que impele, no que concerne aos tempos modernos, para a consumação), que suga para si toda a materialidade do ente, só deixando esse ente mesmo se mostrar como o que dá ensejo à vivência. Por meio desse primado do procedimento na instituição e na preparação, os dois grupos de ciência se encontram em acordo com vistas ao essencial, isto é, o seu caráter de funcionamento. Esse “desenvolvimento” da ciência moderna em sua essência só é visível hoje para poucos e será recusado pela maioria como não estando presente. Ele também não se deixa comprovar por fatos, mas só tem como ser concebido a partir de um saber sobre a história do ser. Muitos “pesquisadores” ainda imaginarão a si mesmos como pertencendo às tradições comprovadas do século 19. Um número igualmente grande de outros pesquisadores, em ligação com seus objetos, ainda encontrarão novos enriquecimentos e novas satisfações em termos de conteúdos e talvez os façam valer ainda em termos doutrinários, mas tudo isso não demonstra nada contra o primado, no qual a instituição conjunta chamada “ciência” está inserida de maneira irrevogável. A ciência não apenas jamais terá condições de se libertar daí, mas ela nunca irá querer antes de tudo também a libertação, e, quanto mais ela progride, menos pode querer. Antes de tudo, porém, esse primado também não é, por exemplo, um fenômeno da universidade atual alemã, mas ele diz respeito a tudo aquilo que, em um lugar e em um momento quaisquer, futuramente, irá querer ainda ter concomitantemente voz. Se formas de instituição até aqui e anteriores ainda se mantiverem aí por um longo tempo, então elas ainda se tornarão algum dia apenas de maneira mais decidida aquilo que ocorreu por detrás de sua proteção aparente. [tr. Casanova; GA65: 76]

1) a entidade é presentidade. 2) o seer é um encobrir-se. 3) o ente tem o primado. 4) a entidade é o suplemento e, por isso, o “a priori  ”. Não conseguimos conceber o que se encontra aí resolvido, enquanto a verdade do seer não se transformar para nós na questão necessária, enquanto não fundarmos o campo de jogo temporal  , em cujas extensões se pode mensurar pela primeira vez o que aconteceu apropriadoramente na história da metafísica: a preliminar do ACONTECIMENTO APROPRIADOR ele mesmo como a essenciação do seer. Somente se tivermos sucesso em projetar a história da metafísica naquelas extensões (1-4), é que nós a conceberemos em seu fundamento não elevado. Todavia, enquanto continuarmos haurindo as perspectivas a partir daquilo que podia e precisava se tornar expressamente um saber da metafísica (doutrina das ideias e sua modulação), nós seremos impelidos para o elemento historiológico, a não ser que concebamos idea   já a partir do 1-4. [tr. Casanova; GA65: 86]

Nietzsche, concebido como o fim da metafísica ocidental, não aponta para nenhuma constatação historiológica daquilo que se encontra atrás de nós, mas se mostra como o ponto de partida histórico do futuro do pensar ocidental. A questão acerca do ente precisa ser trazida para o seu fundamento próprio, para a questão acerca da verdade do seer. E o que constituiu até aqui o fio condutor e a formação do horizonte de toda interpretação do ente, o pensar (re-presentar), é retomado na fundação da verdade do seer, no ser-aí. A “lógica” enquanto doutrina do pensar correto transforma-se em meditação sobre a essência da linguagem como a denominação instituidora da verdade do seer. O seer, contudo, até aqui, sob a figura da entidade, o que havia de mais universal e corrente, se torna enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR o que há de mais único e estranho. [tr. Casanova; GA65: 89]

A fixação significa: perguntar sobre o ser do ente. A superação, porém: perguntar antes de tudo sobre a verdade do seer, sobre aquilo que nunca se tornou questão e nunca pode se tornar questão na metafísica. Esse duplo caráter transitório, que toma a “metafísica” ao mesmo tempo de maneira mais originária e, com isso, a supera, é inteiramente a caracterização da “ontologia fundamental”, isto é, de Ser e tempo  . Esse título é estabelecido a partir de um claro saber em torno da tarefa: não mais ente e entidade, mas ser; não mais “pensar”, mas “tempo”; não mais pensar antes de tudo, mas o seer. “Tempo” como a denominação da “verdade” do ser e tudo isso como tarefa, como “a caminho”; não como doutrina e dogmática. Agora, a posição fundamental diretriz da metafísica ocidental, entidade e pensamento, o “pensar” – ratio – razão como fio condutor e como antecipação da interpretação da entidade, é colocada em questão; mas de modo algum apenas de tal modo que o pensar seria substituído pelo “tempo” e tudo não seria visado senão “de maneira mais temporal” e existencial, e, com isso, permaneceria tudo como era. Ao contrário, o que se tornou questão foi aquilo que não podia se tornar questão no primeiro início, a verdade ela mesma. Agora, tudo é e tudo se torna diferente. A metafísica se tornou impossível. Pois a verdade do seer e a essenciação do seer são o primeiro, não aquilo em direção ao que a ultrapassagem deve acontecer. Agora, contudo, o que importa também não é apenas a inversão da metafísica até aqui, mas, com a essenciação mais originária da verdade do seer enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a ligação com o ente se tornou uma ligação diversa (não mais a ligação da hypothesis   e da “condição de possibilidade” – do koinon   e hypokeimenon  ) O seer se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR da fundação do aí e determina ele mesmo a verdade da essência a partir da essenciação da verdade. [tr. Casanova; GA65: 91]

No outro início, a verdade é reconhecida e fundada como verdade do seer e o seer mesmo enquanto seer da verdade, isto é, enquanto o ACONTECIMENTO APROPRIADOR que retorna a si, ao qual pertence o fato de a abertura do fosso abissal ser alijada e, com isso, o a-bismo. [tr. Casanova; GA65: 91]

A confusão se intensifica radicalmente, quando se busca chegar, com o auxílio da diferença “ontológica” que emergiu de modo ontológico-fundamental, a uma solução da questão. Pois essa “diferença” é, com efeito, apenas ponto de partida não na direção da questão diretriz, mas na direção do salto ao cerne da questão fundamental; não para jogar de maneira obscura com marcas desde então fixas (ente e ser), mas para retornar à questão acerca da verdade da essenciação do seer e, com isso, para apreender de maneira diversa a ligação entre seer e ente, sobretudo porque o ente enquanto tal experimenta uma interpretação transformada (guarda da verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR) e porque não subsiste mais nenhuma possibilidade de inopinadamente contrabandear para aí “o ente” enquanto “objeto representado” ou enquanto “algo presente à vista em si” e coisas do gênero. [tr. Casanova; GA65: 107]

[O “a priori” e a physis] Isto é, to proteron te physei. physis normativa e o “anterior” como proveniência, origem. O que há de mais primevo, o que primeiro se pre-senta, a presentação é a própria physis, mas logo encoberta juntamente com a aletheia   por meio da idea. Como se chega a tal questão acerca do proteron? Com base na idea como ontos ón  . O que há de mais primevo na essenciação é essa essenciação mesma como essenciação do seer. A priori – a partir do ante-cedente; a priori aí, onde a questão diretriz se faz presente, a metafísica. Na transição, porém, apenas aparentemente o “a priori” é ainda um “problema”: a relação entre seer e ente é concebida de maneira completamente diversa a partir do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 111]

O salto, o que há de mais ousado no procedimento do pensar inicial, deixa e lança tudo o que é corrente para trás de si e não espera nada imediatamente do ente, mas ressalta antes de tudo o pertencimento ao seer em sua plena essenciação como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O salto aparece assim sob a aparência do que não leva nada em consideração e, contudo, ele é precisamente afinado por aquele pudor, no qual a vontade da retenção ultrapassa a si mesma e se transforma na insistência do suportar da mais distante proximidade da renúncia hesitante. O salto é a ousadia de uma primeira penetração no âmbito da história do ser. [tr. Casanova; GA65: 115]

O seer como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR é a vitória do incontornável no testemunho do deus. Será que o ente, porém, consegue se inserir na junção fugidia do seer? Será que é conferido ao homem, ao invés da desertificação em uma perduração progressiva, a unicidade do declínio? O declínio é a reunião de toda grandeza no instante da prontidão para a verdade da unicidade e singularidade do seer. O declínio é a mais íntima proximidade com a recusa, na qual o ACONTECIMENTO APROPRIADOR se doa ao homem. [tr. Casanova; GA65: 116]

No outro início, porém, o ente é de tal modo, para que ele suporte ao mesmo tempo a clareira na qual se encontra imerso, clareira essa que se essencia como clareira do encobrir-se, isto é, do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. No outro início, todo ente é sacrificado pelo seer, e, a partir daí, o ente enquanto tal obtém pela primeira vez a sua verdade. O seer, contudo, se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, como os sítios instantâneos da decisão quanto à proximidade e à distância do último deus. Aqui, na habitualidade incontornável do ente, o seer é o que há de mais inabitual; e esse estranhamento do seer não é um modo de sua aparição, mas ele mesmo. A inabitualidade do seer corresponde no âmbito da fundação de sua verdade, isto é, no ser-aí, à unicidade da morte. O mais terrível júbilo precisa ser a morte de um deus. Só o homem “tem” a distinção de se encontrar diante da morte, porque o homem é insistentemente no seer: a morte, a mais elevada testemunha do seer. [tr. Casanova; GA65: 117]

O salto é o mais extremo projeto da essência do ser, de tal modo que nós nos colocamos a nós (mesmos) no assim aberto, nos tornamos insistentes e só por meio do acontecimento da apropriação chegamos a nós mesmos. Ora, mas um ente não precisa permanecer de qualquer modo diretriz para a determinação da essência do seer? Mas o que significa aqui “diretriz”? Que nós destacamos junto a um ente previamente dado o ser como o seu elemento mais universal, isso seria apenas um adendo na apreensão. A questão continuaria sendo por que e em que sentido o ente é “essente” para nós. Há sempre antes um projeto, e a questão continua sendo apenas se o que projeta salta ou não, como o próprio lançador, para o interior da via do que joga, avia que abre; se o projeto mesmo é experimentado e ratificado como acontecimento a partir do ACONTECIMENTO APROPRIADOR ou se o que brilha no projeto só é recolocado em si como o que emerge (physis – idea) na presentificação que se desprende. De onde, porém, o fundamento da decisão sobre a direção e a amplitude do projeto? Será que a determinação da essência do seer está submetida ao arbítrio ou a uma necessidade suprema e, com isso, a uma indigência? A indigência, porém, é sempre a cada vez diversa segundo a idade do ser e de sua história; o velamento da história do ser. [tr. Casanova; GA65: 118]

No outro início, é importante preparar o salto para o meio que abre o fosso da viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a fim de, assim, sabendo – perguntando –, preparar em meio a uma prontidão silenciosa o aí com vistas à sua fundação. [tr. Casanova; GA65: 118]

A transposição para a essência do seer e, com isso, o questionamento da questão prévia (essência da verdade) são diversas de todas as objetivações do ente e de todo acesso imediato a esse ente; nesse caso, ou bem o homem é em geral esquecido, ou bem o ente é atribuído como certo ao “eu” e à consciência. Em contrapartida: a verdade do seer e, com isso, a essência da verdade se es-senciam somente na insistência no ser-aí, na experiência do caráter de jogado no aí a partir do pertencimento ao clamor do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 119]

O salto é o re-saltar da prontidão para o pertencimento ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Acometimento e permanência de fora da chegada e da fuga dos deuses, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, não tem como ser imposto de maneira pensante, mas, muito ao contrário, é preciso prontificar por meio do pensamento o aberto que, como tempo-espaço (sítios instantâneos), torna acessível e constante a abertura do fosso abissal do seer no ser-aí. Só aparentemente é que o ACONTECIMENTO APROPRIADOR é levado a termo pelos homens, em verdade o ser do homem acontece como histórico por meio da apropriação em meio ao acontecimento que exige de um modo ou de outro o ser-aí. O acometimento do seer, que é conferido ao homem histórico, nunca se anuncia para esse homem de maneira imediata, mas sim de maneira velada nos modos do abrigo da verdade. Mas o acometimento do seer, raro e esparso em si, emerge sempre da permanência de fora do seer, cujo ímpeto e tenacidade não é menor do que os do acometimento. [tr. Casanova; GA65: 120]

O seer como a essenciação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR não é, por isso, um mar vazio, o mar indeterminado do determinável, para o interior do qual nós já saltamos de um lugar qualquer “sendo”, mas o salto faz com que o aí experimente pela primeira vez a emergência, como pertinente ao que acontece apropriadoramente no clamor, como os sítios instantâneos do em algum lugar e quando. [tr. Casanova; GA65: 120]

Toda a abertura de um fosso abissal do seer já está, com isso, codecidida na direção de sua manifestabilidade e de seu encobrimento iniciais. E pode ser que o outro início também não consiga senão reter o ACONTECIMENTO APROPRIADOR uma vez mais em uma reluzência única, abrigando-a como clareira, de maneira correspondente ao modo como no primeiro início apenas a physis – e essa só muito diafanamente e por um instante – chegou à reunião (logos  ). [tr. Casanova; GA65: 120]

Clareira e encobrimento, constituindo a essenciação da verdade, nunca podem, por isso, ser considerados como um transcurso vazio e como objeto do “conhecimento”, de uma representação. Clareira e encobrimento são arrebatadores de maneira extasiante e voltam para o interior do próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR. E onde quer que e até o ponto em que a aparência persiste de que haveria uma abertura vazia, em si realizável de uma acessibilidade imediata ao ente, aí o homem se encontra, então, apenas no campo prévio não mais e ainda nunca concebido do abandono, campo esse que restou e, assim, ainda se encontra deixado e mantido como resto de uma fuga dos deuses. [tr. Casanova; GA65: 120]

O salto mais próprio e mais amplo é o salto do pensar. Não como se a partir do pensar (enunciado) a essência do seer fosse determinável, mas porque aqui, no saber em torno do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a abertura do fosso abissal do ser é escalada e atravessada mais amplamente, de tal modo que as possibilidades do abrigo da verdade no ente podem ser mensuradas mais extensamente. [tr. Casanova; GA65: 120]

As sendas e as veredas mais silenciosas e mais íngremes precisam ser encontradas, a fim de conduzir para fora do hábito há muito tempo duradouro assim como da exploração do seer, fundando para o seer os sítios de sua es-senciação naquilo de que ele mesmo se apropria em meio ao acontecimento como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, no ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 121]

Na medida em que aquele que joga projeta, fala de maneira pensante “sobre o ACONTECIMENTO APROPRIADOR”, desentranha-se o fato de que ele mesmo, quanto mais projetante ele se torna, tanto mais jogado aquele que é jogado já é. [tr. Casanova; GA65: 122]

Ousemos a palavra imediata: O seer é o estremecimento da deização (do som prévio da decisão dos deuses sobre o seu deus). Esse estremecimento amplia o campo de jogo temporal, no qual ele mesmo ganha o aberto como recusa. Assim, o seer “é” o ACONTECIMENTO APROPRIADOR do acontecimento da apropriação do aí, daquele aberto no qual ele mesmo estremece. [tr. Casanova; GA65: 123]

O “tempo” deveria se tornar experimentável como o campo de jogo “ekstático” da verdade do seer. O arrebatamento extasiante em meio ao clareado deveria fundar a própria clareira como o aberto, no qual o seer se reúne em sua essência. Tal essência não pode ser comprovada como algo presente à vista, sua essenciação precisa ser esperada como um choque. O primeiro e longo permanece: poder esperar nessa clareira até que os acenos venham. Pois o pensar não tem mais o favor do “sistema”, ele é histórico no sentido único de que o seer mesmo suporta pela primeira vez como ACONTECIMENTO APROPRIADOR toda história e, por isso, nunca pode ser alcançado pelo cálculo. [tr. Casanova; GA65: 125]

O seer só alcança sua grandeza, se ele é reconhecido como aquilo de que o deus dos deuses e de que toda deização precisam. O “usado” se contrapõe a toda utilização. Pois ele é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR do acontecimento da apropriação do ser-aí, no qual o sítio silencioso é fundado como a essenciação da verdade, o campo de jogo temporal do passar ao largo, o em meio a desprotegido, que desencadeia a tempestade do acontecimento da apropriação. [tr. Casanova; GA65: 126]

Se essa essência deve ser denominada em poucas palavras, então isso talvez possa ser feito com sucesso na locução: O seer se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR da fundação do aí, na forma reduzida: como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Todavia, tudo permanece aqui envolto em incompreensões; e, mesmo se essas incompreensões forem alijadas, é preciso sempre levar em consideração o fato de que nenhuma fórmula diz o essencial, porque toda fórmula só costuma ser pensada e dita em um plano e em um aspecto. No entanto, uma primeira elucidação pode oferecer algum auxílio, para que superemos o caráter da fórmula. [tr. Casanova; GA65: 130]

ACONTECIMENTO APROPRIADOR da fundação do aí deve querer dizer como genitivo objetivo que o aí, a essenciação da verdade em sua fundação (o mais originário do ser-aí), é apropriado em meio ao acontecimento, e a fundação mesma clareia o encobrir-se, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A viragem e o pertencimento da verdade (clareira do encobrir-se) à essência do seer. [tr. Casanova; GA65: 130]

A partir da essência originária da verdade determina-se pela primeira vez o verdadeiro e, com isso, o ente; e, com efeito, de tal modo que agora não é mais o ente que é, mas o seer que emerge como que por um salto para o “ente”. Por isso, no outro início do pensar, o seer é experimentado como ACONTECIMENTO APROPRIADOR; e isso de tal modo, com efeito, que essa experiência muda como um novo salto todas as referências ao “ente”. Desde então, o homem, isto é, o homem essencial e os poucos de seu tipo, precisa construir a partir do ser-aí a sua história, o que significa que, antes de tudo, é a partir do seer para o ente que ele precisa provocar efeitos no ente. Não apenas como até aqui, de tal modo que o seer se mostre como algo esquecido, mas incontornavelmente apenas pré-visado, mas de tal modo que o seer, sua verdade, suporte expressamente toda e qualquer ligação com o ente. Isso exige a retenção como tonalidade afetiva fundamental, que afina inteiramente aquela guarda no tempo-espaço para o passar ao largo do último deus. [tr. Casanova; GA65: 130]

O seer torna-se o estranho e, com efeito, de tal modo que a fundação de sua verdade eleve a estranheza e, com isso, todo ente conserve esse seer em sua estrangeiridade. Somente então se cumpre a plena unicidade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR e de toda instantaneidade atribuída a ele do ser-aí. Somente então o mais profundo desejo é liberto de seu fundamento como o elemento criador, que é preservado na retenção maximamente silenciosa de se degradar em um mero impelir insuficiente de impulsos cegos. [tr. Casanova; GA65: 130]

[seer e ente] Essa diferenciação foi concebida desde Ser e tempo como “diferença ontológica”, e isso com o intuito de assegurar a questão acerca da verdade do seer contra toda mistura. Ao mesmo tempo, porém, essa diferenciação é impelida para a via, da qual ela provém. Pois aqui se faz valer a entidade como ousia, idea, e, subsequentemente, a objetualidade como condição de possibilidade do objeto. Por isso, na tentativa de superação do primeiro ponto de partida da questão do ser em Ser e tempo e em suas irradiações (“Da essência do fundamento” e o livro sobre Kant), foi preciso levar a termo a tentativa alternante de se assenhorear da “diferença ontológica”, concebendo sua própria origem, isto é, sua unidade autêntica. Por isso, careceu-se do empenho por se libertar da “condição de possibilidade” como um caminho de volta apenas “matemático” e por conceber a verdade do seer a partir de sua própria essência (ACONTECIMENTO APROPRIADOR). Por isso, o elemento aflitivo e ambíguo dessa diferenciação. Pois assim como ela é necessária, pensada a partir do campo tradicional, para criar em geral um primeiro círculo de visão para a questão do seer, essa diferenciação permanece de qualquer modo fatídica. Pois essa diferenciação emerge, sim, precisamente de uma questão acerca do ente enquanto tal (acerca da entidade). Por essa via, porém, nunca se chega imediatamente à questão do seer. Em outras palavras, essa diferenciação transforma-se precisamente em uma barreira propriamente dita, que impede um questionamento da questão do seer, na medida em que o que se tenta é continuar questionando a sua unidade sob o pressuposto da diferença em relação ao seer. Essa unidade, contudo, nunca pode permanecer senão a imagem refletida da diferença e jamais tem como conduzir à origem, a partir da qual essa diferenciação pode ser vislumbrada como não sendo mais a diferenciação originária. Por isto, o importante é não ultrapassar o ente (transcendência), mas saltar por sobre essa diferença e, com isso, sobre a transcendência, questionando inicialmente a partir do seer e da verdade. [tr. Casanova; GA65: 132]

No pensamento transitório, no entanto, nós precisamos suportar esse elemento ambíguo: por um lado, tomar essa diferenciação como ponto de partida para a primeira clarificação e, então, porém, saltar precisamente por sobre essa diferenciação. Esse saltar por sobre, entretanto, acontece concomitantemente por meio do salto como a sondagem do fundamento da verdade do seer, por meio do salto para o interior do ACONTECIMENTO APROPRIADOR do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 132]

O seer precisa do homem, para que ele se essencie, e o homem pertence ao seer, algo com vistas ao que ele consuma a sua mais extrema determinação enquanto ser-aí. O seer, porém, não se torna com isso dependente de um outro, ainda que esse precisar constitua sua essência e não seja apenas uma consequência da essência? Como é que temos o direito de falar de de-pendência onde esse precisar recria precisamente o que é precisado em seu fundamento, dominando-o para o seu si mesmo. E como é que o homem, inversamente, pode colocar o seer sob a conformidade de sua mensagem, se ele precisa passar de qualquer modo a se dar por perdido junto ao ente, a fim de se tornar o apropriado em meio ao acontecimento e aquele que pertence ao seer. Esse impulso mútuo do precisar e do pertencer constitui o seer enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR, e alçar o impulso desse impulso mútuo para o interior da simplicidade do saber e fundá-lo em sua verdade é o primeiro que se oferece a nós de maneira pensante. [tr. Casanova; GA65: 133]

A unicidade do seer (como ACONTECIMENTO APROPRIADOR), a irrepresentabilidade (nenhum objeto), a mais elevada estranheza e o essencial encobrir-se: essas são indicações, de acordo com as quais nós precisamos primeiro nos preparar, a fim de, contra a obviedade do seer, pressentirmos o que há de mais raro, em cuja abertura nos encontramos, mesmo se nosso ser humano sempre empreender na maioria das vezes o estar fora. [tr. Casanova; GA65: 133]

A essenciação do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR encerra em si o acontecimento da apropriação do ser-aí. De acordo com isso, considerado rigorosamente, o discurso acerca da ligação entre ser-aí e seer induz em erro, na medida em que sugere a opinião, segundo a qual o seer se essenciaria “por si” e o ser-aí acolheria a ligação com o seer. [tr. Casanova; GA65: 135]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR é tão estranho, que ele parece ser complementado pela ligação ao outro, lá onde ele fundamentalmente não se essencia de outro modo. [tr. Casanova; GA65: 135]

Se falarmos sobre a ligação do homem com o seer e, inversamente, do seer com o homem, então isso soa facilmente como se o seer se essenciasse para o homem como um em-face-de e como um objeto. Mas o homem é apropriado em meio ao acontecimento como ser-aí pelo seer como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR e, assim, ele pertence ao próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 136]

O seer não “está” nem em volta do homem, nem oscila apenas também através dele como um ente. Ao contrário, o ser se apropria em meio ao acontecimento do ser-aí e se essência assim pela primeira vez como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 136]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR, no entanto, não tem como ser de maneira alguma re-presentado como uma “ocorrência dada” e como uma “novidade”. Sua verdade, isto é, a própria verdade, só se essencia no abrigo enquanto arte, pensamento, poetação, ato, exigindo, por isso, a insistência do ser-aí, que rejeita toda aparência de imediatidade do mero re-presentar. [tr. Casanova; GA65: 136]

O seer se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Esse é o fundamento e o abismo da disposição do deus sobre o homem e, em meio a uma viragem, do homem para o deus. Essa disposição, porém, só é suportada no ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 136]

A disposição em meio à viragem é afinada em consonância com o ser-aí na tonalidade afetiva da retenção, e o elemento afinador é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Se, contudo, nós interpretarmos a tonalidade afetiva segundo a nossa representação de “sentimento”, então poder-se-ia dizer aqui facilmente: ao invés de estar referido ao “pensar”, o seer está referido agora ao “sentir”. Mas o quão sentimental e extrinsecamente não pensamos aí sobre os “sentimentos” como “faculdades” e “fenômenos” de uma “alma”; o quão distantes nos encontramos da essência da tonalidade afetiva, quer dizer, do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 136]

A verdade do seer, na qual e como a qual sua essenciação se encobre, se abrindo, é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. E isso é ao mesmo tempo a essenciação da verdade enquanto tal. Na viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a essenciação da verdade é sobretudo a verdade da essenciação. E essa contravolta mesma pertence ao seer enquanto tal. A questão: porque a verdade é em geral como encobrimento clareador? pressupõe a verdade do por quê. Os dois, contudo, a verdade e o porquê (clamor da fundação), são o mesmo. Essenciação é a verdade pertinente ao seer, que emerge dele. Somente lá onde, como no primeiro início, a essenciação vem à tona como presentação, chega-se logo à cisão entre o ente e sua “essência”, o que é justamente a essenciação do seer como presentidade. Aqui permanece necessariamente sem poder ser experimentada e colocada a questão acerca do seer enquanto tal e, isso significa, a questão acerca de sua verdade. [tr. Casanova; GA65: 137]

O seer se essencia; o ente é; O seer se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A esse acontecimento pertence a unicidade e o estranhamento na instantaneidade dos sítios que acometem inesperadamente e assim pela primeira vez se difundem. [tr. Casanova; GA65: 139]

O seer se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Essa não é nenhuma proposição, mais o silenciamento inconcebível da essência, que só se abre para a completa realização histórica do pensar inicial. Somente a partir da verdade do seer emerge historicamente o ente, e a verdade do seer é abrigada na insistência do ser-aí. Por isto, “o ser”, por mais genérico que o nome possa soar, nunca pode se tornar o comum. E, contudo, ele se essencia, lá onde e quando ele se essencia, de maneira mais próxima e mais íntima do que qualquer ente. Aqui, a partir do ser-aí, é pensada a completa alteridade da ligação com o seer: ela é levada a termo; e isso acontece no tempo-espaço que emerge do arrebatamento extasiante e fascinante da própria verdade. O próprio tempo-espaço é uma região contenciosa querelante. No primeiro início, a partir da tomada de assalto imediata sobre o ente enquanto tal (physis, idea, ousia), o que se tornou concebível disso, se tornando normativo para toda a interpretação do ente, foi apenas a presentação. O tempo, nesse caso, foi concebido como presente e o espaço, isto é, o lugar, como aqui e lá, no interior da presentidade e pertencente a ela. Em verdade, porém, o espaço não possui nenhuma presença, assim como nenhuma ausência. Espacialização temporalizante – temporalização espacializante como a região mais próxima da junção fugidia para a verdade do seer, mas nenhuma queda nos conceitos comuns formais de espaço e tempo (!), senão retomada da contenda, mundo e terra – ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 139]

Caso não busquemos salvação em uma explicação do ser (da entidade) por meio do estabelecimento da primeira causa de todo ente, causa essa que causa a si mesma; caso não se dissolva o ente enquanto tal na objetualidade e não se explique uma vez mais a entidade agora a partir da re-presentação do objeto e de seu a priori; caso o seer mesmo deva chegar à essenciação e, contudo, todo tipo de ente deva ser mantido distante dele, então isso só se dará a partir de uma meditação necessária (o abandono do ser como consistindo em indigência), para a qual isso se torna inequívoco: A verdade do ser e, assim, esse ser mesmo só se essenciam onde e quando se dá o ser-aí. Ser-aí “é” apenas onde e quando o ser da verdade se dá. Uma, sim, a viragem, que indica justamente a essência do ser mesmo como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR contra-agitando-se em si. O ACONTECIMENTO APROPRIADOR funda em si o ser-aí (I.). O ser-aí funda o ACONTECIMENTO APROPRIADOR (II.). Fundar é aqui marcado pela viragem: I. sustentador e inteiramente imperante, II. instituidor projetante. [tr. Casanova; GA65: 140]

O acontecimento da apropriação do ser-aí por parte do seer e a fundação da verdade do ser no ser-aí – a viragem no ACONTECIMENTO APROPRIADOR não é nem na conclamação (permanência de fora), nem no pertencimento (abandono do ser) algum dia resolvida sozinha, também não pelos dois juntos. Pois essa junção e os dois mesmos só se tornam acessíveis pela primeira vez no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. No ACONTECIMENTO APROPRIADOR, esse acontecimento mesmo vibra na contravibração. [tr. Casanova; GA65: 141]

O estremecimento dessa vibração na viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR é a essência velada do seer. Esse encobrimento se clareia como encobrimento apenas na mais profunda clareira dos sítios do instante. O seer “precisa”, para se essenciar com aquela raridade e unicidade, do ser-aí, e esse ser-aí funda o ser humano, é para ele o fundamento, na medida em que o homem o funda, suportando-o, insistentemente. [tr. Casanova; GA65: 141]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR e seu rejuntamento fugidio na abissalidade do tempo-espaço é a rede  , na qual o último deus articula a si mesmo, a fim de dilacerá-la e de deixá-la findar-se em sua unicidade; e isto de maneira divina e rara e o que há de mais estranho em todo ente. [tr. Casanova; GA65: 142]

O seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O acontecimento da apropriação determina o homem para a propriedade do seer. Portanto, o seer ainda é de qualquer modo o outro em face do ACONTECIMENTO APROPRIADOR? Não, pois propriedade é aqui pertencimento ao acontecimento da apropriação e esse acontecimento mesmo é o seer. [tr. Casanova; GA65: 143]

Naturalmente, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR nunca pode ser representado imediatamente de maneira objetual. O acontecimento da apropriação é a contravibração entre o homem e os deuses, mas justamente esse entre e sua essenciação, que é fundada pelo ser-aí nesse ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 143]

A origem da contenda a partir da intimidade do não no seer! ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A intimidade do não no seer: pertencente em primeiro lugar à sua essenciação. Por quê? Ainda se pode perguntar assim? Se não, por que razão não? A intimidade do não e o contencioso no ser: isso não é a negatividade de Hegel  ? Não, e, porém, Hegel, como já tinha acontecido com O sofista de Platão   e, antes dele, com Heráclito  , experimentou algo essencial de um modo mais essencial e, contudo, uma vez mais, de forma diversa, algo essencial, mas suspenso no saber absoluto; a negatividade está aí apenas para desaparecer e colocar em curso o movimento da suspensão. Precisamente não a essenciação. Por que não? Porque o ser é determinado como entidade (realidade efetiva) a partir do pensar (saber absoluto). Não isto e isto em primeiro lugar e sozinho é que é válido, o fato de que mesmo a contra-parte “é” e os dois se compertencem, mas se já temos o contrário como contravibração, então isso se dá como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Antes disso, nunca há senão suspensão e reunião (logos). Agora, contudo, temos libertação e abismo e a completa essenciação no tempo-espaço da verdade originária. Agora não o noein  , mas a insistência que abriga. A contenda como essenciação do “entre”, não como o também deixar vigorar do adverso. Com efeito, reside na sentença de Heráclito sobre o polemos   uma das maiores intelecções da filosofia ocidental, e, contudo, ela não podia ser desdobrada em nome da questão acerca da verdade, assim como também não em nome da questão acerca do ser. De onde, contudo, a intimidade do não no seer? De onde tal essenciação do seer? Sempre uma vez mais, o questionamento se choca com esse ponto; trata-se da questão acerca do fundamento da verdade do seer. Mas a verdade mesma é o fundamento. E ela? Ela emerge no se-manter-na-verdade! Todavia, como é essa origem? Manter-se na verdade, nossa irrupção e vontade a partir de nossa indigência, porque nós nos entregamos à responsabilidade e nos identificamos – a nós? Quem somos nós mesmos? Portanto, porém, não o nosso, mas o fato de que nós suportamos o si mesmo por meio da abertura, e de que, no si mesmo, se abre veladamente o para si e, com isso, o seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. E, por conseguinte, não “nós” como o ponto de partida, mas “nós”: como expostos e transpostos, mas no esquecimento dessa transposição. Se, assim, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR brilha em meio à determinação da ipseidade, então reside aí a indicação para a intimidade. Quanto mais originariamente nós somos nós mesmos, tanto mais amplamente somos voltados para fora já em meio à essenciação do seer; e, inversamente. Somente se o ponto base da questão for tomado aqui é que o “fundamento” da intimidade será aberto. Esse ponto de base é o decisivo. O seer não é nada “humano” como o seu produto, e, no entanto, a essenciação do seer necessita do ser-aí e, assim, da insistência do homem. [tr. Casanova; GA65: 144]

Como o não pertence à essência do seer (a maturidade como viragem no ACONTECIMENTO APROPRIADOR; cf O último deus), o seer pertence ao não; isto é, o propriamente niilizante é o que é dotado de caráter de não e de modo algum o mero “nada”, tal como ele é representado por meio da negação representadora de algo; representação essa, com base na qual se pode, então, dizer: o nada não “é”. Mas o não-seer se essencia e o seer se essencia, o não-ser se essencia na inessência, o seer se essencia como dotado do caráter de não. Somente porque o seer se essencia com o caráter do não, ele tem como o seu outro o não-ser. Pois esse outro é o outro de si mesmo. Como se essenciando com o caráter do não, ele possibilita e impõe ao mesmo tempo a alteridade. De onde, porém, provém aqui a restrição mais extrema ao um e ao outro e, assim, o ou-ou? A partir da unicidade do seer obtém-se a unicidade do não que lhe pertence e, com isto, do outro. O um e o outro se impõem eles mesmo o ou-ou como algo primeiro. Em meio a esta diferenciação que parece ser maximamente universal e vazia, porém, é preciso saber que ela só é tal diferenciação para a interpretação da entidade como idea (ser e pensar!): algo (qualquer e em geral) e o não-algo (o nada); o não também é igualmente, em termos representacionais, sem fundamento e vazio. Mas essa diferenciação, que parece ser maximamente universal e vazia, é a decisão mais única e mais plena, e, por isto, nunca pode ser pressuposta uma representação indeterminada de “seer”, de tal modo que haveria seer, sem autoilusão; ao contrário, o seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O ACONTECIMENTO APROPRIADOR como a renúncia hesitante e, aí, a maturidade do “tempo”, a potência do fruto e a grandeza da doação, mas na verdade enquanto clareira para o encobrir-se. A maturidade é prenhe do “não” originário, amadurecimento como não sendo ainda doação, não mais as duas coisas na contravibração, ela mesma na hesitação fracassada e, assim, a fascinação no arrebatamento extasiante. Aqui pela primeira vez o niilizante que se essencia do seer enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 146]

O que significa: o ser “é” in-finito? A questão não pode ser de maneira alguma respondida, se a essência do seer não se encontrar concomitantemente em questão. E o mesmo vale para a sentença: o ser é finito, se in-finitude e finitude foram consideradas como conceitos de grandeza presentes à vista. Ou se tem em vista com isso uma qualidade e qual? A questão acerca da essenciação do seer se encontra por fim fora da contenda daquelas sentenças; e a sentença “o seer é finito” só é visada como rejeição transitória em relação ao “idealismo” de todo e qualquer tipo. Caso nós nos movimentemos, porém, na contenda daquelas sentenças, então seria preciso dizer: se o seer é estabelecido como infinito, então ele é precisamente determinado. Se ele for estabelecido como finito, então sua a-bissalidade é afirmada. Pois o in-finito não pode ser visado como o que flui sem fim, apenas se espalhando, mas precisa ser pensado como o círculo fechado! Em contrapartida, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR se encontra em sua “viragem”! (contenciosa). [tr. Casanova; GA65: 147]

Ou será que aqui, enquanto “o ente” permanecer assim, sendo tomado na representação em geral, não pode ser dito nada sobre ele, uma vez que ele, “sendo”, a partir de um abrigo, à sua maneira, é respectivamente pertencente ao seer? Sobretudo porque esse seer mesmo é histórico e expressamente o próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR? [tr. Casanova; GA65: 148]

Esta diferenciação foi realizada em primeiro lugar a partir da questão diretriz acerca da entidade e ficou presa aí. Mas mesmo no outro início essa diferenciação tem sua verdade, sim, agora pela primeira vez ela conquista essa verdade. Pois agora, quando não se tem mais a pergunta a partir do “pensar” acerca da entidade (não entidade e pensamento, mas “ser e tempo”, transitoriamente compreendido), agora a “diferenciação” denomina aquele âmbito do ACONTECIMENTO APROPRIADOR da re-essenciação do ser na verdade, isto é, em seu abrigo, algo por meio do que o ente enquanto tal é voltado para o interior do aí. [tr. Casanova; GA65: 151]

Há em geral, questionado a partir da verdade do ser enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR, níveis desse tipo ou até mesmo níveis de seer? Se pensássemos a diferenciação entre seer e ente como acontecimento da apropriação do ser-aí e como abrigo do ente e atentássemos para o fato de que aqui tudo é inteiramente histórico, de tal modo que uma sistemática platônico-idealista se tornou impossível, porque insuficiente, então restaria ainda a questão de saber como o vivente, a “natureza” e seu elemento inanimado, tal como utensílio, maquinação, obra, ato, sacrifício e a força de sua verdade (originariedade do abrigo da verdade e, com isso, reessenciação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR) precisam ser ordenados. Toda ordem representacional e calculadora é aqui extrínseca, essencial é apenas a necessidade histórica na história da verdade do seer, cuja era principia. Como as coisas se encontram em relação à “maquinação” (técnica) e como é que se reúne nela todo abrigo ou, antes de tudo, como se fixa nela o extrato do abandono do ser? [tr. Casanova; GA65: 152]

Essencial é a força histórica, fundadora do ser-aí, do abrigo e da decisão em relação a ela e à sua amplitude para a constância do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 152]

O mundo é “terreno” (terroso), a terra é mundana. A terra é em um aspecto mais originária do que a natureza porque ligada à história. O mundo é mais elevado do que o apenas “criado”, porque formador de história e, assim, o mais imediatamente próximo do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. De acordo com isso, o seer tem níveis? Propriamente não; mas também não o ente. De onde, porém, e que sentido tem a multiplicidade do abrigo? Isso não tem como ser explicado e deduzido no cálculo posterior de um plano da providência. Mas também não é válido o mero acolhimento representacional, mas sim a decisão nas necessidades históricas a partir da era da história do ser. [tr. Casanova; GA65: 152]

Para saber dessa abertura em sua estrutura, precisamos experimentar o abismo (cf verdade) como pertencente ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A essenciação do seer permaneceu sempre cerrada para a filosofia, enquanto ela tinha em vista que se poderia, por exemplo, saber o ser por meio da invenção imaginativa dos diversos conceitos de modalidade, construindo-o por assim dizer de maneira composta. Abstraindo-se da origem questionável das modalidades, uma coisa é aqui decisiva: o salto para o interior do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR; e pela pnmeira vez a partir daí se abre o fosso abissal. Mas justamente esse salto carece da mais longa preparação, e essa encerra em si a completa separação do ser como a entidade e a determinação “mais geral”. [tr. Casanova; GA65: 156]

As “modalidades” são tais modalidades do ente (da entidade) e ainda não dizem nada sobre a abertura do fosso abissal do seer mesmo. Essa abertura só pode se transformar em questão, se a verdade do seer reluzir como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a saber, como aquilo de que o deus necessita, na medida em que o homem lhe pertence. As modalidades ficam, com isso, aquém da abertura do fosso abissal tanto quanto a entidade fica aquém da verdade do seer; e a questão acerca das modalidades permanece presa necessariamente aos quadros da questão diretriz, em comparação com a qual só cabe à questão fundamental o requestionamento da abertura do fosso abissal. [tr. Casanova; GA65: 157]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR se apropria do deus para o homem, na medida em que atribui apropriadoramente o homem ao deus. No ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o ser-aí e, com isso, o homem são fundados abissalmente, se o ser-aí tem sucesso no salto para o interior da fundação criadora. Aqui acontece apropriadoramente a recusa e a permanência de fora, o acometimento e o acaso, a retenção e a transfiguração, a liberdade e a imposição radical. Isso acontece apropriadoramente, isto é, isso pertence à essenciação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR mesmo. Todo e qualquer tipo de disposição ordenada das “categorias”, de transposição e de mistura fracassa aqui, porque as categorias são ditas a partir do ente e em uma direção de volta a ele, porque elas nunca denominam e conhecem o seer mesmo. [tr. Casanova; GA65: 157]

Passar ao largo, ACONTECIMENTO APROPRIADOR e história também não podem ser pensados jamais como tipos de “movimentos”, porque movimento (mesmo pensado como metabole) permanece sempre ligado ao ón enquanto ousia, a cuja ligação também pertencem dynamis   e energeia, assim como os seus descendentes posteriores. Antes de tudo, porém, aquilo que constitui o alijamento interno do ACONTECIMENTO APROPRIADOR e que permanece encoberto segundo o acontecimento da apropriação ou que vem à tona a partir dele nunca pode ser enumerado e apresentado em uma “tábua”, nem tampouco na diversificação de um sistema, mas todo dizer da abertura do fosso abissal é uma palavra pensante em relação a Deus e aos homens, e, com isso, no ser-aí, e, assim, na contenda de mundo e terra. Aqui não há nenhuma decomposição investigativa de “estruturas”, nem muito menos um mero balbucio em “sinais” de um agir como se algo fosse interpelado discursivamente. A escapatória nas “cifras” é apenas a última consequência da “ontologia” e da “lógica”, as quais não foram superadas, mas justamente pressupostas. O dizer do pensar inicial se encontra fora da diferença entre conceito e cifra. [tr. Casanova; GA65: 157]

O ser para a morte precisa ser sempre concebido como determinação do ser-aí, o que significa dizer: o ser-aí mesmo não imerge aí, mas, inversamente, encerra em si o ser para a morte, e, com essa inclusão, ele se mostra pela primeira vez como um ser-aí pleno  , a-bissal, isto é, como aquele “entre” que oferece ao “ACONTECIMENTO APROPRIADOR” o seu instante e o seu sítio e, assim, pode se tornar pertinente ao ser. [tr. Casanova; GA65: 163]

Aqui, porém, nesse elemento extremo, a palavra precisa da violência, e essenciação não deve denominar algo que ainda se acha muito para além do seer, mas algo que dá voz ao seu interior, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, aquele contramovimento de seer e ser-aí, no qual os dois não se mostram como polos presentes à vida, mas como a pura oscilação mesma. [tr. Casanova; GA65: 164]

Se perguntarmos sobre a “essência” na direção habitual do questionamento, então vem à tona a questão acerca daquilo que “transforma” um ente naquilo que ele é, e, com isso, acerca daquilo que constitui o seu quid  , a questão acerca da entidade do ente. Essência é aqui apenas a outra palavra para ser (compreendido como entidade). E, de acordo com isso, essenciação tem em vista o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, na medida em que ele acontece apropriadoramente naquilo que lhe é pertinente, a verdade. Acontecimento da verdade do seer, isso é essenciação; não e nunca, com isso, um modo de ser que advêm ainda uma vez mais ao seer ou mesmo que subsiste em si acima dele. [tr. Casanova; GA65: 166]

Ser-aí significa acontecimento da apropriação no ACONTECIMENTO APROPRIADOR como a essência do seer. Mas é só com base no ser-aí que o seer chega à sua verdade. [tr. Casanova; GA65: 168]

[ser-aí] Não aquilo que simplesmente poderia ser de antemão encontrado junto ao homem presente à vista, mas o fundamento necessitado a partir da experiência fundamental do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o fundamento da verdade do seer, por meio do qual (tanto quanto por meio de sua fundação) o homem é transformado fundamentalmente. Agora pela primeira vez a queda do animal rationale  , no qual nós estamos na iminência de recair uma vez mais de cabeça para baixo; e isso por toda parte onde nem o primeiro início e o seu fim, nem a necessidade do outro início são sabidos. A queda do “homem” até aqui só é possível a partir de uma verdade originária do seer. [tr. Casanova; GA65: 170]

[ser-aí] O fundamento que se essencia na fundação do ser humano por vir. O ser-aí – o cuidado. O homem nesse fundamento do ser-aí: 1) O que busca o seer (ACONTECIMENTO APROPRIADOR); 2) O que guarda a verdade do ser; 3) O guardião do silêncio do passar ao largo do último deus. Silêncio e origem da palavra. De início, porém, a fundação do ser-aí está transitoriamente à busca, cuidado, temporalidade; temporalidade com vistas à temporialidade: como verdade do seer. O ser-aí está referido à verdade enquanto abertura do encobrir-se, ele é estabelecido pela compreensão de ser. Projetivamente, o aberto para o ser. Ser-aí como projeção da verdade do seer (“aí”). [tr. Casanova; GA65: 171]

O ser-aí como a essenciação da clareira do que se encobre pertence a esse encobrir-se mesmo, que se essência como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 173]

A insistência como o âmbito do homem fundado no ser-aí. Pertencem à insistência: 1) A força: (de modo algum uma mera soma de força, mas) consonante com o ser-aí: a maestria da outorga livre dos mais amplos campos de jogo do ultrapassar-se criador. 2) A decisão: (de maneira nenhuma o enrijecimento de uma teimosia, mas) a segurança do pertencimento ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a entrada no desprotegido. 3) A suavidade: (de modo nenhum a fraqueza da indulgência, mas) o despertar dadivoso do entranhado e resguardado, aquilo que, sempre estranho, vincula todo criar ao seu essencial. 4) A simplicidade: (de maneira nenhuma o “fácil” no sentido do corrente e não o “primitivo” no sentido do não dominado e desprovido de futuro, mas) a paixão pela necessidade do uno, pela necessidade de abrigar a inesgotabilidade do seer na guarda do ente e não largar a estranheza do seer. [tr. Casanova; GA65: 174]

A questão é que já a meditação sobre o aí como a clareira para o encobrir-se (o seer) precisa tornar possível pressentir o quão decisiva é a ligação do ser-aí com o ente na totalidade, porque o aí suporta a verdade do seer. Pensado nessa direção, o ser-aí, ele mesmo em nenhum lugar acomodável, é voltado para fora da ligação com o homem e se desentranha como o “entre”, que é desdobrado pelo próprio seer como o âmbito aberto do sobressair-se para o ente, âmbito esse no qual esse ente é recolocado sobre si mesmo. O aí é apropriado em meio ao acontecimento pelo próprio seer, e o homem acontece apropriadoramente como o guardião da verdade do seer na sequência, de tal modo que, assim, ele se revela pertencente ao ser-aí de uma maneira única e insigne. Logo que, porém, uma primeira indicação para o ser-aí tem sucesso, é preciso dar sequência ao essencial, o que se anuncia na seguinte indicação: no fato de que o ser-aí é apropriado em meio ao acontecimento pelo seer e de que o seer como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR mesmo forma o meio de todo pensar. [tr. Casanova; GA65: 175]

Somente assim o seer entra em jogo plenamente como ACONTECIMENTO APROPRIADOR e ainda não se mostra aí, tal como na metafísica, como o “mais elevado”, ao qual só se retorna imediatamente. De acordo com isso, então, também a partir do ente, contanto que ele já comece a se tornar mais essente, o aí precisa ser desdobrado em seu poder de clareira reunido. O ser-aí mesmo se torna, enquanto apropriado em meio ao acontecimento, um fundamento próprio para si que se abre do si mesmo; e por meio desse si mesmo é que a guarda do homem recebe pela primeira vez a sua agudeza, a sua decisão e sua intimidade. [tr. Casanova; GA65: 175]

Na medida em que o jogador projeta, reabrindo a abertura, desentranha-se por meio da reabertura o fato de que ele mesmo é o jogado e não realiza nada senão capturar a contraoscilação no seer, isto é, senão voltar para o interior dessa oscilação e, com isso, para o interior do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, de tal modo que, assim, ele se torna pela primeira vez ele mesmo, a saber, o guardião do projeto jogado. [tr. Casanova; GA65: 182]

Sondar o solo do fundamento da verdade do seer e, assim, esse ser mesmo: deixar esse fundamento (ACONTECIMENTO APROPRIADOR) ser o fundamento, por meio da constância do ser-aí. De acordo com isso, a sondagem do solo fundamental se transforma na fundação do ser-aí como a sondagem do solo do fundamento: da verdade do seer. [tr. Casanova; GA65: 188]

Somente na sondagem do solo do ACONTECIMENTO APROPRIADOR é que tem sucesso a jurisdicionalidade do ser-aí nos modos e nos caminhos do abrigo da verdade no ente. [tr. Casanova; GA65: 188]

Se o ser-aí só se essencia como pertencente ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR, então já precisa ser levada a termo como a primeira denominação aquela indicação, graças à qual o ser-aí se mostra como essencialmente diverso da determinação apenas formal   do fundamento do ser humano, que em nada nos concerne. [tr. Casanova; GA65: 189]

Irrupção e abandono, aceno e virada para o interior são as ocorrências que se copertencem da apropriação em meio ao acontecimento, ocorrências essas nas quais, visto aparentemente apenas a partir do homem, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR se abre (cf propriedade): [figura] [tr. Casanova; GA65: 190]

Ser-aí é o acontecimento da abertura do fosso abissal do centro de giro da viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Abertura do fosso abissal é acontecimento da apropriação, sobretudo e antes de tudo a abertura do fosso abissal e a partir dela a cada vez o homem histórico e a essenciação do ser, aproximação e distanciamento dos deuses. [tr. Casanova; GA65: 190]

A essência mais profunda da história se baseia concomitantemente no fato de que o acontecimento da apropriação, acontecimento esse que abre o fosso abissal (que funda a verdade), deixa emergir pela primeira vez aqueles que, precisando uns dos outros, só se voltam uns para os outros e se desviam uns dos outros no ACONTECIMENTO APROPRIADOR da viragem. Essa abertura do fosso abissal que se decide sempre a cada vez entre abandono e re-aceno ou que se encobre na indecisão da aproximação e do distanciamento é a origem do tempo-espaço e o reino da contenda. [tr. Casanova; GA65: 190]

O ser-aí é o ponto de virada na viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o centro que se abre da contrapartida entre conclamação e pertencimento, a propriedade, compreendida como princi-pado, o centro senhorial do acontecimento da apropriação do que pertence ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR, e, ao mesmo tempo a ele: autogênese. Assim, o ser-aí é o entre que se dá entre os homens (como fundadores de história) e os deuses (em sua história). [tr. Casanova; GA65: 191]

O entre, que não se dá apenas a partir da ligação dos deuses com os homens, mas que se mostra como aquele entre, que funda pela primeira vez o tempo-espaço para a ligação, na medida em que ele mesmo emerge na essenciação do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR e torna decidível, como o centro que se abre, os deuses e os homens uns para os outros. [tr. Casanova; GA65: 191]

Como fundação da abertura do encobrir-se, ele aparece para o olhar habitual voltado para o “ente” como não sendo e como imaginado. De fato: o ser-aí é, enquanto a fundação projetiva e jogada, a realidade efetiva mais elevada no âmbito da imaginação; contanto que compreendamos por imaginação não apenas uma faculdade da alma e um transcendental   (cf o meu livro sobre Kant), mas o próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR, no qual vibra toda transfiguração. [tr. Casanova; GA65: 192]

A ipseidade, como via e como reino da apropriação para e da origem do “para” e do “si”, é o fundamento do pertencimento ao seer, que encerra em si a sobre-apropriação (insistente). Sobre-apropriação apenas onde de antemão e constantemente se dá apropriação para; as duas, porém, a partir do acontecimento da apropriação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 194]

Quem é o homem? Aquele que é usado pelo seer para a suportação da essenciação da verdade do seer. Usado assim, contudo, o homem só “é” homem, na medida em que ele está fundado no ser-aí, isto é, na medida em que ele mesmo se torna de maneira criativa o fundador do ser-aí. O seer, porém, é concebido aqui ao mesmo tempo como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. As duas coisas se com-pertencem: a refundação no ser-aí e a verdade do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Nós não concebemos nada da direção aqui aberta do questionamento, se colocarmos inopinadamente à base de nossa concepção representações quaisquer do homem e do “ente enquanto tal”, ao invés de colocarmos ao mesmo tempo o “homem” e o seer (não o ser do homem simplesmente) em questão e de nos mantermos nessa questão. [tr. Casanova; GA65: 195]

Ipseidade emerge como essenciação do ser-aí a partir da origem do ser-aí. E a origem do si mesmo é a proprie-dade. Essa palavra é aqui tomada como a palavra princi-pado. O domínio da apropriação no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A apropriação é, sobretudo, atribuição apropriadora e sobreapropriação. Na medida em que o ser-aí é atribuído de maneira apropriadora a si como pertencente ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR, ele chega a si mesmo; mas nunca de modo tal como se o si mesmo fosse já uma consistência presente à vista, só que ainda não alcançada até aqui. Ao contrário, o ser-aí só chega a si mesmo, na medida em que a atribuição apropriadora ao pertencimento se torna ao mesmo tempo sobreapropriação no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Ser-aí – persistência constante do aí. A proprie-dade como domínio da apropriação é acontecimento da atribuição a si próprio e como sobreapropriação em si conjugada. [tr. Casanova; GA65: 197]

A insistência nesse acontecimento da propriedade possibilita pela primeira vez ao homem chegar a “si” historicamente e ser junto a si. E somente esse junto a si é o fundamento suficiente, para assumir verdadeiramente o para o outro. Mas o chegar-a-si nunca é justamente uma representação do eu anteriormente desatada, mas a assunção do pertencimento à verdade do ser, salto para o interior do aí. A propriedade como fundamento da ipseidade funda o ser-aí. Propriedade, porém, é ela mesma uma vez mais a persistência constante da viragem no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Propriedade é, assim, ao mesmo tempo o fundamento consonante com o ser-aí da retenção. A ligação reflexiva, que é denominada no “si”, para “si”, junto a “si”, por “si”, tem sua essência na apropriação. Na medida em que agora o homem se encontra mesmo no abandono do ser ainda no aberto da inessência do ente, está incessantemente dada a possibilidade de ele ser por “si”, de ele retornar a “si”. Mas o “si” e o si mesmo determinado a partir daí como o apenas si mesmo permanece vazio e só se preenche a partir do ente presente à vista e previamente dado e do que é empreendido precisamente pelo homem. O para-si não tem nenhum caráter de decisão e é sem saber em torno do aprisionamento no acontecimento do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 197]

Ser si mesmo – com isso temos em vista de saída sempre o seguinte: fazer e deixar de fazer por si, dispor de si. Mas o “a partir de si” é um primeiro plano ilusório. A partir de si pode não ser mais do que uma mera “teimosia”, da qual diverge toda atribuição apropriadora e toda sobreapropriação a partir do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A amplitude de vibração do si mesmo se dirige para a originariedade da propriedade e, com isso, para a verdade do seer. [tr. Casanova; GA65: 197]

Ser-aí se encontra inicialmente na fundação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, sonda o solo da verdade do ser e não parte do ente para o seu ser. Ao contrário, a sondagem do solo do ACONTECIMENTO APROPRIADOR acontece muito mais como abrigo da verdade no ente e como ente e, assim, a relação é, se é que uma comparação ainda seria em geral possível, o que não procede, uma relação inversa. [tr. Casanova; GA65: 199]

O tempo-espaço precisa ser desdobrado em sua essência como o sítio instantâneo do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Não obstante, o “instante” não é nunca apenas o resíduo iníquo do “tempo” que quase não tem como ser capturado. [tr. Casanova; GA65: 200]

A partir da correção indicado apenas como condição, mas assim não ressaltado em si mesmo. O aberto: como o livre da ousadia do criar, como o desprotegido da exportação resolutora do caráter de jogado; os dois copertinentes em si como a clareira do encobrir-se. O aí como acontecendo de maneira apropriadora no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Esse elemento livre em contraposição ao ente. O desprotegido por meio do ente. O campo de jogo temporal da confusão e dos acenos. O pertencente ao ente. [tr. Casanova; GA65: 205]

1) O retorno crítico da correção para a abertura. 2) A abertura em primeiro lugar como a mensuração essencial da aletheia, que ainda se mostra nesse aspecto indeterminada. 3) Essa mensuração essencial determina ela mesma o “lugar” (tempo-espaço) da abertura: o em-meio-a clareado do ente. 4) Para que a verdade se destaque definitivamente de todo ente em todo e qualquer tipo de interpretação, seja como physis, seja como idea ou perceptum e objeto, algo sabido, pensado. 5) Agora, porém, com maior razão, temos a questão acerca de sua própria essenciação; essa só é de-terminável a partir da essência e essa essência a partir do seer. 6) A essência originária, contudo, é clareira do encobrir-se, isto é, a verdade é a verdade originária do seer (ACONTECIMENTO APROPRIADOR). 7) Essa clareira se essencia e é na suportabilidade criativa afinada: isto é, a verdade “é” como fundação do aí e como ser-aí. 8) O ser-aí é o fundamento do homem. 9) Com isso, entretanto, novamente formulado: quem é o homem. [tr. Casanova; GA65: 206]

Por meio daí, a aletheia é destacada de todo e qualquer ente, de modo tão decidido que, agora, a questão acerca de seu próprio seer, questão essa que se determina por meio dela mesma e a partir de sua essenciação, se torna incontornável. Mas a essenciação da verdade originária só pode ser experimentada, se esse em-meio-a clareado que funda a si mesmo e determina o tempo-espaço for ressaltado naquilo de que e para o que ele é clareira, a saber, para o encobrir-se. O encobrir-se, porém, aponta para a doutrina fundamental do primeiro início e de sua história (da metafísica enquanto tal). O encobrir-se é um caráter essencial do seer, e, com efeito, precisamente na medida em que o seer precisa da verdade e se apropria, assim, do ser-aí em meio ao acontecimento, se mostrando em si originariamente, com isso, como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Agora, a essência da verdade se transformou originariamente no ser-aí, e agora a pergunta não tem qualquer sentido, se e como, por exemplo, o “pensar” (o “pensar” que pertence inicialmente e de modo derivado apenas à aletheia, homoiosis  ) poderia levar a cabo e assumir o “desvelamento”. Pois o pensar mesmo está agora entregue em sua possibilidade inteiramente à responsabilidade do em-meio-a clareado. Pois a essenciação do aí (da clareira para o encobrir-se) só pode ser determinada a partir dele mesmo, do mesmo modo que o ser-aí só chega até a fundação a partir da ligação clareadora do aí com o encobrir-se enquanto seer. Todavia, a partir do fundamento posteriormente visível, não é suficiente nenhuma “faculdade” do homem até aqui (animal racional). O ser-aí funda-se e essencia-se na suportabilidade afinada e criadora e, assim, se torna ele mesmo o fundamento e o fundador do homem, que agora é novamente colocado diante da questão sobre quem ele é, uma questão que interroga o homem de maneira mais originária como o guardião da tranquilidade do passar ao largo do último deus. [tr. Casanova; GA65: 207]

[A verdade] Como é que ela poderia ser para nós aquele derradeiro resíduo da decadência mais extrema da aletheia (idea) platônica, como é que a validade de correções poderia se mostrar em si como ideal  , isto é, como a maior de todas as indiferenças e impotências? A verdade é, enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR do verdadeiro, a abertura do fosso abissal, abertura essa na qual o ente se divide e precisa se encontrar em meio à contenda. Verdade também não é para nós o fixado, aquele descendente suspeito de indiferenças em si. Ela também não é, contudo, o mero oposto, o tosco fluir e o permanecer fluido de todas as opiniões. Ela é o meio abissal, que estremece no passar ao largo do deus e, assim, o fundamento suportado para a fundação do ser-aí criador. A verdade é a maior de todas as desprezadoras de tudo o que é “verdadeiro”, pois todo “verdadeiro” se esquece imediatamente da verdade, do atiçar seguro da simplicidade do único como o a cada vez essencial. [tr. Casanova; GA65: 208]

1) Não de uma mera alteração do conceito. 2) Não de uma intelecção mais originária da essência. 3) Mas do salto para o interior da essenciação da verdade. 4) E, consequentemente, de uma transformação do ser humano no sentido do tres-loucamento de sua posição no ente. 5) E, por isso, em primeiro lugar, de uma dignificação mais originária e do apoderamento do seer mesmo como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. 6) E, por isso, antes de tudo, trata-se da fundação do ser humano no ser-aí como o fundamento exigido pelo seer mesmo de sua verdade. [tr. Casanova; GA65: 213]

A abertura: isso não é o que há de mais vazio do vazio? (cf verdade e a-bismo). É assim que ela aparece, quando tentamos tomá-la por assim dizer por si como uma coisa. Mas o aberto, no qual, ao mesmo tempo se encobrindo, o ente a cada vez se encontra, e, com efeito, não apenas as coisas imediatamente à mão, é, de fato, algo assim como um meio oco, por exemplo, o meio do cântaro. Aqui reconhecemos, contudo, que não se trata de um vazio arbitrário qualquer cercado por paredes e deixado sem preenchimento pelas coisas, mas, ao contrário, o meio oco é o elemento que cunha e suporta de maneira determinante a constituição das paredes e de suas margens. Essas paredes e margens não são senão a irradiação daquele aberto originário, que deixa se essenciar sua abertura, na medida em que exige tais paredes (a forma do vaso) à sua volta e em relação consigo. Assim, no que cerca se reflete a essenciação do aberto. De maneira correspondente, só que mais essencial e mais rica, é que nós precisamos compreender a essenciação da abertura do aí. Suas paredes circundantes não são, naturalmente, nada que se ache presente à vista como uma coisa, sim, em geral não é um ente e nem mesmo o ente, mas as paredes do próprio ser, o estremecimento do ACONTECIMENTO APROPRIADOR no aceno do encobrir-se. [tr. Casanova; GA65: 214]

Uma questão decisiva: a essenciação da verdade é fundada no ser-aí como clareira para o encobrir-se ou é a essenciação da verdade mesma o fundamento para o ser-aí ou as duas coisas são válidas? E o que significa aí a cada vez “fundamento”? Essas questões só podem ser decididas, se a verdade for concebida na essência indicada como verdade do seer e, com isso, a partir do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O que significa isso: estar constantemente colocado em seu aberto diante do encobrir-se, da re-núncia, da hesitação? Retenção e, por isso, tonalidade afetiva fundamental: horror, retenção, pudor. Tal experiência “doada” apenas ao homem e quando e como. [tr. Casanova; GA65: 215]

A concepção, segundo a qual a verdade seria em primeiro lugar encobrimento clareador (cf o a-bismo) tem em vista o fato de uma clareira se fundar para o que se encobre. O encobrir-se do seer na clareira do aí. No encobrir-se se essencia o seer. O ACONTECIMENTO APROPRIADOR nunca vem à luz abertamente como um ente, como algo presente (cf o salto, o seer). [tr. Casanova; GA65: 217]

O acontecimento da apropriação em sua viragem não está encerrado nem no clamor nem no pertencimento apenas. Ele não está em nenhum dos dois e, contudo, é acessível nos dois; e o estremecimento dessa acessibilidade na viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR é a essência mais velada do seer. Esse encobrimento carece da mais profunda clareira. O seer “precisa” do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 217]

Mais essente do que todo e qualquer ente é o próprio seer. O que há de mais essente não “é” mais, mas se essência como a essenciação (ACONTECIMENTO APROPRIADOR). [tr. Casanova; GA65: 219]

O seer se essencia como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 219]

A essência da verdade é o encobrimento clareador do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 219]

O verdadeiro: o que se encontra na verdade e que, assim, se torna o que é ou o que não é. Verdade: a clareira para o encobrimento (verdade como a não verdade), em si querelante e nula, que se mostra como a intimidade originária, e isso porque. Verdade: verdade do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O verdadeiro e ser o verdadeiro são ao mesmo tempo em si o não verdadeiro, o dissimulado e suas modulações. A essenciação da verdade. [tr. Casanova; GA65: 220]

A verdade: a clareira para o encobrir-se (isto é, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR; renúncia hesitante como a maturidade, o fruto e a doação). A verdade, porém, não é simplesmente clareira, mas justamente clareira para o encobrir-se. [tr. Casanova; GA65: 221]

O seer: o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, na vibração oposta marcado pelo caráter do não e, assim, querelante. A origem da contenda – seer ou não ser. [tr. Casanova; GA65: 221]

Só se nos encontramos na clareira, experimentaremos o encobrir-se. A verdade jamais se mostra como o “sistema” que é composto por sentenças, às quais se poderia recorrer. Ela é o fundamento como o fundamento que recolhe e que atravessa de maneira soberana, que prepondera sobre o velado, sem suspendê-lo, a tonalidade afetiva que afina como esse fundamento. Pois esse fundamento é o próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR como essenciação do seer. O ACONTECIMENTO APROPRIADOR suporta a verdade = a verdade é atravessada de maneira soberana pelo ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 222]

O que deve nos dizer, então, sobre o ACONTECIMENTO APROPRIADOR a experiência da essência da própria verdade? Ora, mas como conseguimos silenciar propriamente esse dizer? [tr. Casanova; GA65: 224]

A questão prévia acerca da verdade é ao mesmo tempo a questão fundamental acerca do seer, esse, como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, se essencia como verdade. [tr. Casanova; GA65: 224]

A essência da verdade é a clareira para o encobrir-se. Essa essência íntima e querelante da verdade mostra que a verdade é originária e essencialmente a verdade do seer (ACONTECIMENTO APROPRIADOR). Todavia, resta a questão de saber se experimentamos de maneira suficientemente essencial essa essência da verdade, se assumimos esse encobrir-se em toda e qualquer ligação com o ente, e, com isso, a renúncia hesitante, a cada vez à sua própria maneira como o acontecimento da apropriação, nos sobre-apropriando dela. Sobreapropriar-se apenas de tal modo que alcancemos, produzamos, criemos, protejamos e deixemos atuar o próprio ente respectivo segundo a ordem pertencente a ele, a fim de fundar, assim, a clareira, para que ela não se transforme no vazio, no qual tudo ocorre de maneira igualmente “compreensível” e controlável. [tr. Casanova; GA65: 225]

A verdade, portanto, nunca é apenas clareira, mas ela se essencia como encobrimento de maneira tão originária e íntima quanto a clareira. Os dois, clareira e encobrimento, não são dois, mas a essenciação do uno, da própria verdade. Na medida em que a verdade se essencia, a verdade vem a ser, vem a ser o ACONTECIMENTO APROPRIADOR da verdade. Dizer que o ACONTECIMENTO APROPRIADOR acontece apropriadoramente não significa outra coisa senão: que ele e apenas ele se torna verdade; isso que pertence ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR vem a ser, de tal modo que justamente a verdade se mostra essencialmente como verdade do seer. [tr. Casanova; GA65: 225]

Toda questão acerca da verdade, que não pensa de maneira tão amplamente antecipativa, pensa curto demais. Mesmo aquela interpretação medieval completamente diversa do verum como determinação do ens (do ente), interpretação essa que se movimenta no âmbito da questão diretriz (no âmbito da metafísica) e que, além disso, se encontra desenraizada em relação ao seu solo grego mais imediato ainda se constitui como uma aparência dessa intimidade de verdade e seer. Não obstante, não se deve misturar esse questionamento acerca do ACONTECIMENTO APROPRIADOR com aquela relação completamente diversa, construída inteiramente sobre a verdade como correção do representar (intellectus), a relação do ente (ens) com o ser re-presentado no intellectus divinus, uma relação que só permanece correta sob a pressuposição de que omne ens (excluindo daí Deus creator) é ens creatum  ; sendo que, visto “ontologicamente”, mesmo Deus é concebido a partir da creatio, com o que se demonstra o elemento normativo do relato da criação no A. T. nesse tipo de “filosofia”. A visão desse contexto é, então, porém, tanto mais essencial, uma vez que ele é mantido ainda por toda parte na Metafísica da Modernidade, mesmo lá onde o erigir medieval a partir do “bem de fé” da igreja já tinha sido abandonado há muito tempo e de maneira mesmo fundamental. Precisamente o domínio multiplamente modulado do pensar “cristão” no tempo pós e contra-cristão dificulta toda e qualquer tentativa de se afastar desse solo e de se pensar de modo inicial a partir da experiência mais originária a ligação fundamental entre seer e verdade. [tr. Casanova; GA65: 225]

A clareira para o encobrimento como essência originária-unificadora é o abismo do fundamento, como o qual o aí se essencia. A concepção fatídica: “a verdade é a não verdade” permanece por demais mal interpretável, para que ela pudesse mostrar com segurança a via correta. Todavia, ela deve indicar o elemento estranho que reside no novo projeto da essência – a clareira para o encobrimento e isso como essenciação no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Que retenção jurisdicional do ser-aí é requisitada com isso hierarquicamente, se essa essência da verdade deve chegar a ser sabida como o originariamente verdadeiro? Agora também fica mais clara pela primeira vez a origem da errância e o poder e a possibilidade do abandono do ser, o encobrimento e a di-ssimulação; o domínio do não fundamento. O mero aceno para a aletheia com vistas à explicação da essência da verdade, essência essa colocada aqui como fundamento, não nos ajuda a seguir adiante porque, na aletheia, precisamente o acontecimento do desencobrimento e do encobrimento não são experimentados e concebidos como fundamento, uma vez que, sim, o questionar continua sendo determinado a partir da physis, o ente enquanto ente. [tr. Casanova; GA65: 226]

As coisas são diversas, porém, no que concerne à clareira para o encobrimento. Aqui nos encontramos na essenciação da verdade, e essa é verdade do seer. A clareira para o encobrimento é já a oscilação da contraoscilação da viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Mas as tentativas até aqui em Ser e tempo e nos escritos seguintes de impor essa essência da verdade contra a correção do re-presentar e do enunciar como fundamento do próprio ser-aí precisavam permanecer insuficientes, porque elas foram sempre realizadas a partir da repulsae, com isso, porém, tinham sempre o re-pelido como ponto de mira, tornando impossível saber a essência da verdade desde o seu fundamento, desde o fundamento como o qual ela mesma se essencia. Para que se tenha sucesso nesse empreendimento é necessário não reter mais o dizer sobre a essência do seer, seguindo uma vez mais a partir da opinião de que se poderia, apesar da intelecção da necessidade do projeto que salta para frente, abrir por fim de qualquer modo, a partir do que se deu até aqui, gradualmente um caminho para a verdade do seer. Isso, porém, precisa sempre fracassar. E o novo perigo se torna tão forte, que o ACONTECIMENTO APROPRIADOR se transforma agora ao mesmo tempo apenas em um nome e em um conceito manuseável, a partir do qual algo diverso poderia ser “deduzido”, mas que precisa, porém, ser dito dele; uma vez mais, contudo, não destacado em uma discussão “especulativa”, mas na meditação exigida, mantida pela indigência do abandono do ser. [tr. Casanova; GA65: 226]

1) A verdade se essencia e por quê? Porque só assim se tem a essenciação do seer. Por que seer? 2) A essência da verdade funda a necessidade do porquê e, com isso, da questão. A questão acerca da verdade acontece por causa do seer, que precisa do nosso pertencimento como o que funda o ser-aí. 3) A primeira questão (1) é em si a determinação essencial da verdade. 4) Como precisa ser estabelecida a questão acerca da verdade. Partir da ambiguidade essencial: a “verdade” visada como “o verdadeiro”; o verdadeiro, porém, é a verdade como encobrimento clareador do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Essa luz para o início é uma claridade, mas sem brilho e sem irradiação. O próprio encobrimento tanto mais claro, brilhando através da profundidade do encobrimento. 5) Como é que o conceito há muito legado da verdade como correção não apenas guia de saída a questão, mas também sugere que a resposta a ela precisaria ser medida por uma correção e, com isso, que a essência da verdade precisaria ser deduzida de algo previamente dado, que ela re-stitui. 6) Desdobrar em primeiro lugar a verdade na essência como encobrimento clareador (dissimulação e velamento). 7) A verdade como fundamento do tempo-espaço, mas, por isso, ao mesmo tempo essencialmente determinável a partir desse tempo-espaço. 8) O tempo-espaço como sítio instantâneo a partir da viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. 9) A verdade e a necessidade do abrigo. 10) Abrigo como contestação da contenda entre mundo e terra. 11) As vias historicamente necessárias do abrigo. 12) Como é que no abrigo pela primeira vez o ente se torna essente. 13) Como é que só na mensuração que medita retrospectivamente sobre o caminho precedente se desdobra o âmbito, no qual e o qual acontece como a “diferenciação” de seer e ente. Ser-aí se essenciando como o “entre”. [tr. Casanova; GA65: 227]

[A essência da verdade é a não-verdade] Por meio dessa sentença concebida conscientemente como autocontraditória deve ser expresso o fato de que pertence à verdade o caráter negativo, mas de modo algum apenas como falha, mas como algo que resiste, como aquele encobrir-se que surge na clareira enquanto tal. Com isso se apreende a ligação originária da verdade com o seer enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Apesar disso, essa sentença é duvidosa quando se tem a intenção de se aproximar da estranha essência da verdade por meio de tal estranhamento. Concebida de maneira completamente originária reside nela a intelecção essencial e ao mesmo tempo a indicação para a intimidade e para o caráter contencioso no seer mesmo enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 228]

1) Por que essa interpretação é historicamente essencial? Porque ainda se torna visível aqui em uma meditação levada a termo como é que ao mesmo tempo a aletheia suporta e conduz essencialmente a questão grega acerca do ón e como é que precisamente por meio desse questionamento, do estabelecimento da idea, ela experimenta a sua derrocada. 2) Ao mesmo tempo, se mostra muito lá atrás: a derrocada não é a derrocada de algo instituído e mesmo de algo expressamente fundado. Nem uma coisa nem outra chegaram a ser realizadas no pensamento grego inicial; e isso apesar da sentença de Heráclito sobre o polemos e do poema de Parmênides  . E, contudo, a aletheia é essencial por toda parte no pensar e no poetar (tragédia e Píndaro  ). 3) Somente se isso for experimentado e exposto é que se tornará possível mostrar de que maneira, então, um resíduo e uma aparência da aletheia precisaram em certo sentido se manter, uma vez que mesmo a verdade como correção e precisamente ela precisa se abrigar em um já aberto (cf sobre a correção). Precisa estar aberto aquilo, pelo que o re-presentar se orienta (se retifica), e precisa estar aberto também aquilo ao que se deve atribuir a justeza (cf correção e relação sujeito-objeto; ser-aí e re-presentar). 4) Se considerarmos panoramicamente a história da aletheia a partir da alegoria da caverna, que tem uma posição chave tanto em relação ao que vem antes quanto em relação ao que vem depois, então é possível mensurar de maneira mediata o que significa erigir em primeiro lugar a verdade como aletheia de maneira pensante, desdobrá-la e fundamentá-la na essência. Que isso não apenas não aconteceu na metafísica até aqui e também no primeiro início, mas não podia acontecer. 5) A fundação essencial da verdade como desentranhamento da primeira reluzência na aletheia não é, então, simplesmente a assunção da palavra e de sua tradução adequada como “desvelamento”, mas importante é experimentar a essência da verdade como clareira para o encobrir-se. O encobrimento clareador precisa se fundar como ser-aí. O encobrir-se precisa ganhar o espaço do saber como essenciação do próprio seer enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A ligação mais íntima possível entre seer e ser-aí em sua viragem torna-se visível como aquilo que impõe a questão fundamental e obriga a ir além da questão diretriz, e, com isso, de toda metafísica; para além de fato em direção ao cerne da tempo-espacialidade do aí. 6) Como, porém, “a verdade” mesma e seu conceito, de acordo com uma longa história e com uma confusa tradição, para a qual muitas coisas confluíram, não se encontram mais em questão em nenhum modo de formulação claro e necessário, mesmo as interpretações da história do conceito de verdade tanto quanto as interpretações da alegoria da caverna se mostram em particular como precárias e dependentes daquilo que mesmo antes foi retirado do platonismo e da doutrina do juízo. Faltam as posições fundamentais para um projeto daquilo que é dito na alegoria da caverna e daquilo que se dá nesse dizer. Por isto, é necessário apresentar algum dia pela primeira vez uma interpretação coesa, proveniente da questão da verdade, da alegoria da caverna e tornar essa interpretação eficaz como uma introdução ao âmbito da questão da verdade e como uma condução à necessidade dessa questão, com todas as reservas que permanecem presas a tais tentativas imediatas; pois o fundamento e a perspectiva do projeto da interpretação e de seus passos permanecem pressupostos como não discutidos e aparecem como violentos e arbitrários. [tr. Casanova; GA65: 233]

Ora, mas em que se baseia a determinação da essência da verdade como encobrimento clareador? Em uma parada junto à aletheia. Mas quem foi que imaginou a aletheia algum dia normativamente, e de onde provém o direito a esse elemento tradicional, e, contudo, ao mesmo tempo esquecido? Como é que podemos conceber um estado na essência da verdade, sem que todo “verdadeiro” permaneça apenas um engodo? Por meio de uma fuga em direção ao cerne da realidade efetiva próxima à vida de uma “vida” bastante questionável, não há como conquistar nada aqui. É natural tentar descobrir se, na questão “por que é a verdade?”, a verdade não se deixa desdobrar como o fundamento do porquê e, assim, determinar em sua essência. Mas a questão já parece presa a um saber em torno da “verdade”, de maneira bastante indeterminada, confusa e habitual, para tornar uma vez mais questionável se um recurso a tal saber e opinar resiste. Para onde andamos de maneira cambaleante, quando nos libertamos da aparência e do visado? O que aconteceria se, apesar disso, nós alcançássemos a proximidade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, que pode ser obscurecido em sua essência, mas, de qualquer modo, ainda mostra o fato de que entre nós e o seer um entre se essencia e que esse entre mesmo pertence à es-senciação do seer. [tr. Casanova; GA65: 236]

O tempo-espaço como emergente da e pertencente à essência da verdade, como a estrutura extasiantemente arrebatadora e fascinante (junção fugidia) assim fundada do aí. (Ainda não o “quadro” da representação da coisa, ainda não um mero fluir em si do que se sucede). Os sítios instantâneos e a contenda entre mundo e terra. A contenda e o abrigo da verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O tempo-espaço e a “facticidade” do ser-aí (cf observações correntes a Ser e tempo I, capítulo 5!). O entrementes da viragem e, com efeito, como algo histórica e expressamente jurisdicional! Ele se determina como o aqui e agora! A unicidade do ser-aí. Por isso, unicidade da existência sapiente do que é dado como tarefa e do que é concomitantemente dado. Tempo – eternidade – instante. O eterno não é o que per-dura, mas aquilo que pode se subtrair no instante, a fim de retornar uma vez mais. O que pode retornar não como o igual, mas como o novamente transformador, uno-único, o seer, de tal modo que ele não é reconhecido nessa manifestabilidade de saída como o mesmo! O que é, então, eternização? [tr. Casanova; GA65: 238]

Espaço e tempo, representados sempre e a cada vez por si e na ligação usual, emergem eles mesmos do tempo-espaço, que é mais originário do que eles mesmos e do que a sua ligação representada por meio do cálculo. O tempo-espaço, porém, pertence à verdade no sentido da re-essenciação do ser como ACONTECIMENTO APROPRIADOR (A partir daqui é que se precisa conceber pela primeira vez por que a referência a Ser e tempo indica transitoriamente o caminho). Mas a questão é como e como o que o tempo-espaço pertence à verdade. O que a verdade mesma é não se deixa dizer anteriormente de maneira suficiente, mas precisamente na concepção do tempo-espaço. [tr. Casanova; GA65: 239]

O tempo-espaço é a abertura de um fosso abissal apropriada em meio ao acontecimento das vias da viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, da viragem entre o pertencimento e o clamor, entre o abandono do ser e o aceno (o estremecimento da oscilação do seer mesmo!). Proximidade e distância, vazio e doação, ímpeto e hesitação, tudo isso não deve ser concebido tempo-espacialmente a partir das representações usuais de tempo e espaço, mas, inversamente, nelas reside a essência velada do tempo-espaço. Mas como é que isso deve ser aproximado da representação usual atual? Aqui é possível percorrer diferentes caminhos preparatórios. Com efeito, o mais seguro parece ser abandonar simplesmente o campo representacional até aqui de espaço e tempo e de sua apreensão conceitual e começar de novo. Mas isso não é possível porque não se trata de maneira alguma apenas de uma modulação da representação e da direção da representação, mas de um tres-loucamento da essência do homem em meio ao ser-aí. O questionamento e o pensamento precisam ser, com efeito, iniciais, mas, de qualquer modo, precisamente transitórios. [tr. Casanova; GA65: 239]

Em relação a essa “subjetivação”, porém, é preciso dizer: Como o ser-aí é essencialmente mesmidade (propriedade) e como a mesmidade é, por sua vez, o fundamento do eu e do nós tanto quanto de toda “subjetividade” inferior e superior, o desdobramento do tempo-espaço a partir dos sítios instantâneos não é nenhuma subjetivação, mas a sua superação, se não já a repulsa fundamental e prévia a ela. Essa origem do tempo-espaço corresponde à unicidade do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Ele só traz a si mesmo para o seu aberto no acontecimento do abrigo da verdade de acordo com a via respectivamente necessária do abrigo. [tr. Casanova; GA65: 239]

A-bismo é a renúncia hesitante do fundamento. Na renúncia abre-se o vazio originário, acontece a clareira originária, mas a clareira ao mesmo tempo, para que se mostre nela a hesitação. O a-bismo é o encobrimento clareador primeiramente essencial, a essenciação da verdade. Uma vez, porém, que a verdade é o encobrimento clareador do seer, ela é como a-bismo antes de tudo fundamento, que só funda como o imperar inteiramente de maneira sustentadora do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Pois a renúncia hesitante é o aceno, no qual o ser-aí, justamente a constância do encobrimento clareador, é reacenado, e essa é a vibração da viragem entre clamor e pertencimento, o acontecimento da apropriação, o seer mesmo. [tr. Casanova; GA65: 242]

A verdade funda como verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Esse acontecimento, porém, é, por isso, concebido a partir da verdade como fundamento: o fundamento originário. O fundamento originário só se abre como o que se encobre no a-bismo. O abismo, contudo, é completamente dissimulado por meio do não fundamento. O fundamento originário, o fundamento fundante, é o seer, mas sempre a cada vez se essenciando em sua verdade. Quanto mais fundamentalmente o fundamento (a essência da verdade) for sondado em seu solo, tanto mais essencialmente se essencia o seer. A sondagem do solo do fundamento precisa, no entanto, ousar o salto no a-bismo e mensurar e suportar o próprio a-bismo. [tr. Casanova; GA65: 242]

O a-bismo como o permanecer de fora do fundamento no sentido citado é a primeira clareira do aberto como o “vazio”. Mas que vazio se tem em vista aqui? Não aquele não ocupado das formas de ordenação e dos quadros para o ente presente à vista calculável fornecidos por espaço e tempo, não a ausência do ente presente à vista no interior desses, mas o vazio tempo-espacial, o fender-se originário no renunciar-se hesitante. Todavia, essa autorrenúncia não precisa se deparar com uma pretensão, uma busca, um querer arremeter-se numa direção, para que uma autorrenúncia possa se dar? Com certeza, mas os dois se essenciam sempre a cada vez como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, e agora o importante é apenas determinar a essência do próprio vazio, o que quer dizer: pensar a a-bissalidade do abismo; como o a-bismo funda. Propriamente, isso nunca tem como ser pensado senão a partir do fundamento originário, do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, e na execução do salto para o interior de sua viragem vibrante. [tr. Casanova; GA65: 242]

“Permanência de fora” como autorrenúncia (hesitante) do fundamento é essenciação do fundamento como a-bismo. O fundamento necessita do a-bismo. E a clareira, que acontece no renunciar-se, não é nenhum mero fender-se como uma boca bocejante (chaos   – contra physis), mas o rejuntar afinador dos tres-loucamentos essenciais justamente desse clareado, que deixa aquele encobrir-se vir a encontrar-se nele. E isso porque a verdade como encobrimento clareador é a verdade do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a verdade do acontecimento da apropriação que oscila de lá para cá e de cá para lá, acontecimento esse que, se fundando na verdade (na essenciação do aí), conquista nela e apenas nela para si também a clareira para o seu encobrir-se. [tr. Casanova; GA65: 242]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR afina e transpassa de maneira afinadora a essenciação da verdade. A abertura do clarear do encobrimento, por isso, não é originariamente nenhum mero vazio do não estar ocupado, mas o vazio afinador afinado do a-bismo, que, de acordo com o aceno afinador do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, é um a-bismo afinado, o que significa aqui unido. [tr. Casanova; GA65: 242]

O “vazio” também não é a mera insatisfação de uma expectativa e de um desejo. Ele é apenas como ser-aí, isto é, como a retenção, o manter-se diante da renúncia hesitante, por meio da qual o tempo-espaço se funda como os sítios instantâneos da decisão. O “vazio” é do mesmo modo e propriamente a plenitude do ainda indecidido, a ser decidido, o a-bissal, o que aponta para o fundamento, para a verdade do ser. O “vazio” é a indigência preenchida do abandono do ser, mas esse já voltado para o aberto e, com isso, referido à unicidade do seer e de sua inesgotabilidade. O “vazio” não como o concomitantemente dado de uma precariedade, como sua indigência, mas muito mais como a indigência da retenção, que é em si um projeto irrompendo. Assim, ele se mostra como a tonalidade afetiva fundamental do pertencimento mais originário. A denominação como “vazio” para aquilo que se abre no ACONTECIMENTO APROPRIADOR da retenção para a renúncia hesitante não é, por isso, determinada de maneira apropriada e continua sendo sempre determinada de maneira exagerada a partir do erigir dificilmente superável junto ao espaço da coisa e junto ao tempo do processo. [tr. Casanova; GA65: 242]

A estrutura dessa essenciação precisa ser colocada sempre uma vez mais no projeto: a essência da verdade é o encobrimento clareador. Esse encobrimento acolhe o ACONTECIMENTO APROPRIADOR e deixa, dando a ele sustentação, que sua oscilação impere inteiramente através do aberto. Suportando e deixando imperar, a verdade é o fundamento do seer. O “fundamento” não é mais originário do que o seer, mas a origem como aquilo que ele, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, deixa reemergir. [tr. Casanova; GA65: 242]

A verdade como fundamento funda, porém, originariamente como a-bismo. E esse a-bismo mesmo funda como a unidade da temporalização e da espacialização. Eles têm, com isso, sua essência a partir daquilo de que o fundamento é o fundamento, a partir do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 242]

A cristalização rememorante (que rememora um pertencimento velado ao seer e cristaliza um clamor do seer) coloca em decisão o se ou o se-não do acometimento do seer. Mais claramente, a temporalização como essa junção da autorrenúncia (hesitante) funda de maneira a-bissal o âmbito de decisão. Com o arrebatamento extasiante em meio ao que se renuncia (essa é justamente a essência do temporalizar), contudo, tudo já estaria decidido. O que se renuncia, no entanto, se renuncia de maneira hesitante, presenteando, assim, com a possibilidade da doação e do acontecimento da apropriação. A autorrenúncia rejunta o arrebatamento extasiante da temporalização, como hesitante ela é ao mesmo tempo o arrebatamento fascinante mais originário. Esse fascínio é repouso, no qual o instante e, com ele, a temporalização são mantidos (como o a-bismo originário? O “vazio”? Nem ele nem a plenitude). Esse arrebatamento fascinante dá a possibilidade da doação como possibilidade essenciante, arranjando um espaço para ela. O arrebatamento fascinante é a inserção espacial do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. O abandono é um abandono fixado pelo arrebatamento fascinante, um abandono que precisa ser suportado. [tr. Casanova; GA65: 242]

A “permanência de fora” do fundamento, sua abissalidade, é afinada a partir da autorrenúncia hesitante, temporalizando e espacializando, arrebatando de maneira extasiante e fascinante ao mesmo tempo. Na inserção espacial se funda e se dá o sítio do instante. O tempo-espaço como a unidade da temporalização e da espacialização originárias é originariamente ele mesmo o sítio instantâneo, assim como esse sítio é a tempo-espacialidade essencial a-bissal da abertura do encobrimento, isto é, do aí. De onde, portanto, se dá a cisão em temporalização e espacialização? A partir do arrebatamento extasiante e do fascinante, que se requisitam de maneira fundamentalmente diversa, ou seja, a partir da unidade da renúncia hesitante. De onde se dá a cisão em arrebatamento extasiante e em arrebatamento fascinante? A partir da renúncia hesitante, e essa se revelando no reacenar como a essência inicial do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, de maneira inicial no outro início. Essa essência do seer única e singular, e, com isso, suficiente para a essência mais íntima do seer; também a physis é única e singular. [tr. Casanova; GA65: 242]

Se aquela temporalização e aquela espacialização constituem a essência originária de tempo e espaço, então sua proveniência, abissal, fundadora do a-bismo, se tornou visível a partir da essência do ser. Tempo e espaço (originariamente) não “são”, mas se essenciam. Mas a renúncia hesitante mesma tem essa junção fugidia originariamente unificadora da autorrenúncia e da hesitação a partir do aceno. Esse aceno é o reabrir-se do que se encobre enquanto tal, e, em verdade, o reabrir-se para o e como o acontecimento da apropriação, como o clamor do pertencimento ao próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR, isto é, à fundação do ser-aí como o âmbito de decisão para o seer. Mas esse aceno só chega a se dar na ressonância do seer a partir da indigência do abandono do ser e só diz uma vez mais: nem a partir do clamor, nem a partir de um pertencimento, mas apenas a partir do entre que atua de maneira vibrante sobre os dois é que se abre o ACONTECIMENTO APROPRIADOR e se torna realizável o projeto da origem do tempo-espaço como unidade originária a partir do abismo do fundamento. Espaço é o a-bismo arrebatadoramente fascinante do repouso. Tempo é o a-bismo arrebatadoramente extasiante da reunião. O arrebatamento fascinante é repouso abissal da reunião. [tr. Casanova; GA65: 242]

O tempo-espaço nessa essência originária ainda não tem nada em si do “tempo” e do “espaço”, que habitualmente se conhece, e, contudo, ele contém o desdobramento em direção a eles em si, e, com efeito, em uma riqueza maior do que a que pôde vir à tona até aqui por meio da matematização de espaço e tempo. Como é se sai de tempo-espaço para “espaço e tempo”? Formulada assim, a questão ainda é muito plurissignificativa e pode ser facilmente mal interpretada. O que precisa ser distinto de antemão é: 1) A história que essencialmente foi de topos   e kronos no interior da interpretação do ente como physis com base na aletheia não desdobrada; 2) O desdobramento de espaço e tempo a partir do tempo-espaço expressa e originariamente concebido enquanto a partir do abismo do fundamento no interior do pensar do outro início; 3) O apoderamento do tempo-espaço como essenciação da verdade no interior da fundação por vir do ser-aí através do abrigo da verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR no ente que se reconfigura por meio daí; 4) A clarificação propriamente dita, a dissolução ou o afastamento das dificuldades, que envolveram desde sempre na história do pensamento até aqui aquilo que se conhece como espaço e tempo; por exemplo, a questão acerca da “realidade efetiva” do espaço e do tempo; acerca de sua “infinitude”, acerca de sua relação com as “coisas”. Todas essas questões permanecem não apenas sem respostas, mas de início inquestionáveis, enquanto espaço e tempo não forem concebidos a partir do tempo-espaço, isto é, enquanto a questão acerca da essência da verdade não for questionada desde o fundamento como a questão prévia à questão fundamental da filosofia (como se essencia o seer?). [tr. Casanova; GA65: 242]

O aberto do a-bismo não é sem fundamento. Abismo não significa o não em relação a todo fundamento como ausência de fundamento, mas o sim ao fundamento em sua amplitude e distância veladas. O a-bismo é, assim, o sítio em si reciprocamente oscilante que se temporaliza e espacializa do “entre”, como o qual o ser-aí precisa ser fundado. O a-bismo é tão pouco “negativo” quanto a renúncia hesitante; os dois, com efeito, visados imediatamente (“logicamente”), contêm um “não”, e, não obstante, a renúncia hesitante é a primeira e mais elevada reluzência do aceno. Concebida mais originariamente, essencia-se nela naturalmente um “não”. Mas trata-se do não originário, que pertence ao próprio seer e, com isso, ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 242]

O abrigo não é a acomodação ulterior da verdade em si presente à vista no ente, abstraindo-se completamente do fato de que a verdade nunca se acha presente à vista. Abrigo pertence à essenciação da verdade. Essa não é essenciação, se ela nunca se essencia no abrigo. Se, por isso, indicativamente, a “essência” da verdade for denominada como a clareira para o encobrir-se, então isso só acontece para desdobrar pela primeira vez a essenciação da verdade. A clareira precisa se fundar em seu aberto. Ela carece daquilo que ela obtém na abertura, e isso é a cada vez de maneira diversa um ente (coisa – utensílio – obra). Mas esse abrigo do aberto precisa ser ao mesmo tempo e de antemão de tal modo que a abertura se torna essente de tal maneira que, nela, o encobrir-se e, com isso, o seer se essencie. De acordo com isso, precisa ser possível – com o salto prévio correspondente no seer com certeza –, a partir do “ente”, encontrar o caminho até a essenciação da verdade e, por essa via, tornar visível o abrigo como pertencente à verdade. Onde é, porém, que esse caminho deve começar? Não precisamos conceber para tanto em primeiro lugar as referências atuais em relação ao ente, tal como nós nos encontramos aí, ou seja, não precisamos ter diante dos olhos algo extremamente corrente? E justamente isso é o mais difícil, uma vez que ele não é nunca realizável sem um abalo, o que significa: sem um tresloucamento da ligação fundamental com o seer mesmo e com a verdade. É preciso indicar em que verdade e como é que o ente se encontra respectivamente nela. Precisa se tornar claro como é que aqui mundo e terra se encontram em contenda e, com isso, como é que eles mesmos se desencobrem e se encobrem. Esse encobrir-se mais imediato, contudo, é apenas a aparência prévia do a-bismo e, com isso, da verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Mas a verdade só se essencia na clareira mais plena do mais distante encobrir-se sob o modo do abrigo segundo todos os caminhos e maneiras, que pertencem a esse abrigo, que suportam e conduzem historicamente a exposição jurisdicional do ser-aí e que constitui, assim, o ser do povo. [tr. Casanova; GA65: 243]

Abrigo é, no fundo, a guarda do ACONTECIMENTO APROPRIADOR por meio da contestação da contenda. Guarda do encobrir-se (da renúncia hesitante) não é nenhuma mera conservação de algo dado, mas o laço projetivo com o aberto, a contenda, em cuja constância é recombatido, contestado o pertencimento ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Assim se essencia a verdade como o verdadeiro a cada vez abrigado. Todavia, esse verdadeiro só é o que ele é, como o não-verdadeiro, como um não sendo e um não fundamento ao mesmo tempo. Tornar acessível o abrigo da verdade a partir de seus modos mais imediatos da ocupação, correspondendo a espaço e tempo. [tr. Casanova; GA65: 246]

Os que estão por vir: os lentos fundadores, que escutam por um longo tempo, dessa essência da verdade. Os que resistem ao impulso do seer. Os que estão por vir são aqueles vindouros, para junto dos quais, enquanto os que esperam retroativamente em uma retenção sacrificial, chegam o aceno e o acometimento do afastamento e da aproximação do último deus. É preciso preparar esses que estão por vir. Serve a tal preparação o pensar inicial como silenciamento do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Mas o pensar é apenas um modo, no qual poucos ressaltam o salto no seer. [tr. Casanova; GA65: 248]

Ressonância e conexão de jogo, salto e fundação têm sempre a cada vez a sua tonalidade afetiva diretriz, que afina conjuntamente de maneira originária a partir da tonalidade afetiva fundamental. Essa tonalidade afetiva fundamental, porém, não tem tanto como ser descrita. Ela precisa ser mais provocada no todo do pensar inicial. Em uma palavra, porém, não há quase como nomeá-la, a não ser por meio do nome de retenção. Mas, então, essa palavra precisa ser tomada em toda a plenitude originária, que cresce historicamente para a sua significação a partir do repensar do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A tonalidade afetiva fundamental contém a exigibilidade, o ânimo da coragem como a vontade sapiente e afinada do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. As tonalidades afetivas diretrizes são afinadas e afinadoras na ressonância uma com a outra. A tonalidade afetiva diretriz da ressonância é o horrorem meio ao abandono do seer que se desvela e, ao mesmo tempo, o pudor diante do ACONTECIMENTO APROPRIADOR ressonante. Horror e pudor conjuntamente a princípio deixam levar a termo de maneira pensante a ressonância. A consonância originária das tonalidades afetivas diretrizes só é completamente afinada por meio da tonalidade afetiva fundamental. Nela, os que estão por vir são, e, como aqueles que são assim afinados, são de-terminados afinadamente pelo último deus. (Sobre tonalidade afetiva cf algo essencial nas preleções sobre Hölderlin  ). [tr. Casanova; GA65: 249]

Os que experimentam o o-caso são sempre questionadores. A in-quietude do questionar não é nenhuma insegurança vazia, mas a reabertura e o cultivo daquela tranquilidade, que cristaliza como reunião no que há de mais questionável (o ACONTECIMENTO APROPRIADOR) a intimidade simples do clamor e constitui a ira extrema do abandono do ser. [tr. Casanova; GA65: 250]

A essência do povo está fundada na historicidade dos que se pertencem a partir do pertencimento ao deus. Do ACONTECIMENTO APROPRIADOR no qual esse pertencimento se funda historicamente emerge pela primeira vez a fundamentação da razão pela qual “vida” e corpo, geração e gênero, estirpe, dito na palavra fundamental: a terra, pertencendo à história e recolhendo ao seu modo em si uma vez mais a história, e, em tudo isso, sendo útil à contenda entre terra e mundo, é sustentada pelo mais íntimo pudor de ser a cada vez algo incondicionado. Pois sua essência é, porque ela é íntima da contenda, ao mesmo tempo próxima do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 251]

Os que estão por vir do último deus recontestarão na contestação dessa contenda o ACONTECIMENTO APROPRIADOR e, no mais amplo olhar retrospectivo, se lembrarão do que de maior foi criado como a unicidade preenchida e como a singularidade do ser. Ao lado daí, o elemento massificado liberará todas as intrigas de sua fúria e decantará tudo o que há de incerto e de parcial, tudo aquilo que se consola com o que se tinha até aqui. Será que, então, o tempo dos deuses se dissipará e a recaída na mera vida de seres pobres de mundo começará, seres esses para os quais a terra restará apenas como o explorável? [tr. Casanova; GA65: 252]

Hoje já são poucos esses que estão por vir. O seu pressentimento e a sua busca quase não têm como ser conhecidos por eles mesmos e em sua autêntica inquietude; essa inquietude, contudo, é a consistência tranquila da abertura do fosso abissal. Ela sustenta uma certeza que é tocada pelo mais casto e mais distante aceno do último deus e é retida no acometimento do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Como é que, no silêncio retido, esse aceno enquanto aceno é preservado, e como é que tal preservação sempre se encontra ao mesmo tempo na despedida e na chegada, no luto ena alegria ao mesmo tempo, naquela tonalidade afetiva do que experimenta a retenção e que abre e fecha apenas para si a abertura do fosso abissal do seer. Fruto e acaso, acometimento e aceno. [tr. Casanova; GA65: 252]

Os que estão por vir, os responsáveis no ser-aí fundado pelo ânimo da retenção, à qual apenas cabe o ser (salto) como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, se apropriando deles em meio ao acontecimento e potencializando-os para o abrigo de sua verdade. [tr. Casanova; GA65: 252]

Nós voltamos para o tempo-espaço da decisão sobre a fuga e a chegada dos deuses. Mas como é que isso se dá? Será que uma coisa ou outra se tornará um acontecimento por vir? Será que uma coisa ou outra precisa determinar a expectativa construtiva? Ou será que a decisão é a abertura de um tempo-espaço completamente diverso para uma verdade, sim, para a verdade pela primeira vez fundada do seer, o ACONTECIMENTO APROPRIADOR? O que aconteceria se aquele âmbito da decisão na totalidade, fuga ou chegada dos deuses, fosse justamente o próprio fim? O que aconteceria se, para além disso, o seer precisasse ser concebido pela primeira vez em sua verdade como o acontecimento da apropriação, acontecimento esse como o qual acontece apropriadoramente aquilo que denominamos a recusa? Isso não é nem fuga nem chegada, nem tampouco tanto fuga quanto chegada, mas algo originário, a plenitude da concessão do seer na recusa. Aqui se funda a origem do estilo por vir, isto é, na retenção na verdade do seer. A recusa é a nobreza mais elevada da doação e o traço fundamental do encobrir-se, cuja abertura constitui a essência originária da verdade do seer. Assim apenas o seer se torna o próprio estranhamento, a tranquilidade do passar ao largo do último deus. O ser-aí, porém, é apropriado em meio ao acontecimento no seer como a fundação da guarda dessa tranquilidade. Fuga e chegada dos deuses reúnem agora no sido e são subtraídas ao passado. O porvir, porém, a verdade do seer como recusa, tem em si a garantia da grandeza, não da eternidade vazia e gigantesca, mas da via mais breve. Mas pertence a essa verdade do seer, à recusa, o velamento do não ente enquanto tal, o desprendimento e a dissipação do seer. Agora pela primeira vez, o abandono do seer precisa permanecer. O desprendimento, contudo, não se mostra como um arbítrio e uma desordem vazios, mas, ao contrário: tudo é agora inserido na direcionalidade planejada e na exatidão do transcurso seguro e do domínio “sem restos”. A maquinação toma sob sua proteção o não ente sob a aparência do ente, e a desertificação do homem imposta incontornavelmente com isso é compensada por meio da “vivência”. Tudo isso precisa se tornar mais necessário do que antes enquanto inessência porque o que há de mais estranho também precisa disso que há de mais corrente e porque a abertura do fosso abissal do seer não pode ser soterrada pela aparência fictícia do equilíbrio, da “felicidade” e da falsa consumação; pois tudo isso é odiado em primeiro lugar pelo último deus. Mas o último deus não é uma degradação de deus, sim, a blasfêmia pura e simples? O que aconteceria, porém, se o último deus precisasse ser chamado assim porque traz pela última vez a decisão sobre os deuses para um domínio sob e entre os deuses, elevando, com isso, a essência da unicidade do ser de deus ao extremo? O último deus, se pensarmos aqui de maneira calculadora e tomarmos esse “último” apenas como interrupção e fim, ao invés de como decisão extrema e maximamente breve sobre o que há de mais elevado, então naturalmente todo saber sobre ele será impossível. Todavia, como é que se deveria querer calcular no pensamento do ser de deus, ao invés de meditar de maneira radicalmente oposta sobre o perigo de algo estranho e incalculável? [tr. Casanova; GA65: 254]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR tem seu acontecimento mais íntimo e sua extração mais ampla na viragem. A viragem que se essencia no ACONTECIMENTO APROPRIADOR é o fundamento velado de todas as outras viragens, círculos e esferas (cf, por exemplo, a viragem na conjunção das questões diretrizes; o círculo na com-preensão) subordinadas, que permanecem obscuras em sua proveniência e inquestionadas e que gostam de se tomar em si como “algo derradeiro”. [tr. Casanova; GA65: 255]

O que é essa viragem originária no ACONTECIMENTO APROPRIADOR? Apenas o acometimento do ser como acontecimento da apropriação do aí traz o ser-aí para ele mesmo e, assim, para a execução (abrigo) da verdade jurisdicionalmente fundada no ente, que encontra no encobrimento clareado do aí seu sítio. E na viragem: só a fundação do ser-aí, a preparação da prontidão para o arrebatamento extasiante e fascinante em meio à verdade do seer, traz o que é pertinente e dócil para o aceno do acontecimento da apropriação que acomete. [tr. Casanova; GA65: 255]

Se por meio do ACONTECIMENTO APROPRIADOR o ser-aí como meio aberto da ipseidade que funda a verdade é atirado a si e se torna um si mesmo, o ser-aí precisa, por sua vez, pertencer como possibilidade velada da essenciação fundante do seer ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. E na viragem: o ACONTECIMENTO APROPRIADOR precisa se valer do ser-aí; por meio da necessidade, ele precisa colocá-lo no clamor e, assim, trazê-lo para diante do passar ao largo do último deus. [tr. Casanova; GA65: 255]

A viragem se essencia entre o clamor (ao pertinente) e a escuta (do conclamado). Viragem é contra-viragem. O clamor ao salto no acontecimento da apropriação é a grande tranquilidade do conhecer-se mais velado. É a partir daqui que toda linguagem do ser-aí toma a sua origem e está, por isso, na essência o silêncio (cf retenção, ACONTECIMENTO APROPRIADOR, verdade e linguagem). [tr. Casanova; GA65: 255]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR “é”, assim, o domínio mais elevado enquanto retorno por sobre o direcionamento e a fuga dos deuses que essencialmente foram. O deus extremo carece do seer. [tr. Casanova; GA65: 255]

Onde a verdade do ser não é querida, onde ela não se volta para o interior da vontade de saber e de experimentar, subtrai-se ao instante enquanto a reluzência do seer a partir da constância do ACONTECIMENTO APROPRIADOR simples e nunca calculável todo tempo-espaço. Ou, porém, ao instante pertence apenas ainda a solidão mais solitária, a que, contudo, permanece recusado o acordo fundador da instituição de uma história. Mas esses instantes, e eles apenas, podem se tornar as preparações, nas quais a viragem do ACONTECIMENTO APROPRIADOR para a verdade se desdobra e se reúne. Todavia, só a pura constância no inexpugnavelmente simples e essencial está madura para a preparação de tal prontidão, nunca o caráter fugidio das maquinações que se ultrapassam precipitadamente. [tr. Casanova; GA65: 255]

[O último deus] Ele tem sua essenciação no aceno, no acometimento ou no ficar de fora da chegada tanto quanto da fuga dos deuses que essencialmente foram e de sua transformação velada. O último deus não é o próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR, mas com certeza necessita dele como aquilo a que pertence o fundador do aí. Esse aceno enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR coloca o ente no mais extremo abandono do ser e irradia ao mesmo tempo a verdade do ser como a sua luzência mais íntima. [tr. Casanova; GA65: 256]

A maior proximidade do último deus acontece apropriadoramente, quando o ACONTECIMENTO APROPRIADOR ganha a recusa como a autorrenúncia hesitante da elevação. Isso é algo essencialmente diverso da mera ausência. Recusa como pertencente ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR só se deixa experimentar a partir da essência mais originária do seer, no modo como ele reluz no pensar do outro início. [tr. Casanova; GA65: 256]

A recusa como a proximidade do que não pode ser desviado transforma o ser-aí no superado, o que quer dizer: ela não o abate, mas o arranca e o eleva até o nível da fundação de sua liberdade. No entanto, se um homem pode dominar as duas coisas, o suportar da ressonância do ACONTECIMENTO APROPRIADOR como recusa e a execução da transição para a fundação da liberdade do ente enquanto tal, para a renovação do mundo a partir da salvação da terra, quem poderia decidir e saber sobre isso? E, assim, restam com certeza aqueles que se consomem em tal história e em sua fundação, sempre cindidos uns dos outros, o ápice das montanhas mais isoladas. [tr. Casanova; GA65: 256]

A recusa obriga o ser-aí a ele mesmo como fundação do sítio do primeiro passar ao largo do deus como o deus que se recusa. Somente a partir desse instante é que pode ser medido como é que o seer como o âmbito do ACONTECIMENTO APROPRIADOR daquela imposição precisa restituir o ente, em que domínio do ente precisa se realizar a dignificação do deus. [tr. Casanova; GA65: 256]

Aquele pertencimento ao seer e essa necessidade do seer desentranham pela primeira vez o seer em seu encobrir-se como aquele ponto central marcado pela viragem, no qual o pertencimento ultrapassa a necessidade e a necessidade prepondera sobre o pertencimento: o seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR, que acontece a partir desse excesso revirado de si mesmo e, assim, se torna a origem da contenda entre o deus e o homem, entre o passar ao largo do deus e a história do homem. [tr. Casanova; GA65: 256]

Todo ente, por mais impertinente e único, autônomo e de primeiro nível que ele possa aparecer para o cálculo e para o empreendimento sem deus e desumanos, é apenas a inserção no ACONTECIMENTO APROPRIADOR, inserção essa na qual o sítio do passar ao largo do último deus e a guarda do homem buscam uma estabilização, a fim de permanecerem prontos para o acontecimento da apropriação e não privar o seer daquilo que, porém, o ente até aqui, esse na verdade até aqui, precisou exclusivamente empreender. [tr. Casanova; GA65: 256]

O seer como o que há de mais único e raro em contraposição ao nada terá se subtraído do elemento massificado do ente, e toda história só servirá, lá onde ela se estende às profundezas de sua própria essência, a essa subtração do ser em sua plena verdade. Tudo o que é público, porém, se ufanará em seus sucessos e colapsos e caçará a si mesmo, a fim de, ao seu modo, não saber nada daquilo que acontece. Somente entre esse ser massificado e os propriamente sacrificados é que serão buscados e encontrados os poucos e seus laços, a fim de pressentir o fato de que algo velado acontece para eles, aquele passar ao largo, apesar de toda corrosão de todo “acontecimento” em meio à rapidez, ao que é imediatamente manuseável de maneira completa e que precisa ser consumido sem restos. A inversão e a confusão das pretensões e do âmbito de pretensão não serão mais possíveis, porque a verdade do próprio seer trouxe à decisão na mais extensa exclusão da abertura de seu fosso abissal as possibilidades essenciais. Esse instante histórico não é nenhum “estado ideal” porque esse estado contraria a cada vez a essência da história, mas esse instante é o acontecimento da apropriação daquela viragem, na qual a verdade do seer chega ao seer da verdade, uma vez que o deus precisa do ser e o homem como ser-aí precisa ter fundado o pertencimento ao ser. Nesse caso, então, por esse instante, o seer é, como o entre mais íntimo, igual ao nada; o deus se apodera do homem e o homem ultrapassa o deus, por assim dizer imediatamente e, contudo, os dois somente no ACONTECIMENTO APROPRIADOR, como o qual a verdade do seer mesmo é. [tr. Casanova; GA65: 256]

O elemento impositivo, no entanto, é apenas o incalculável e o improdutível do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a verdade do seer. Bem aventurado aquele que pode pertencer à desventura da abertura de seu fosso abissal, a fim de ser dócil no diálogo sempre inicial dos solitários, diálogo esse para o qual acena o último deus porque ele é reacenado através dele em seu passar ao largo. [tr. Casanova; GA65: 256]

Na transição da questão do ser metafísica para a questão do ser por vir, é preciso sempre pensar e questionar de maneira transitória. Com isso, a possibilidade de um juízo apenas metafísico do outro questionar é excluída. O outro questionar, porém, também não se revela aí como verdade “absoluta”; e isso já não se mostra assim porque tal demonstração de tal “verdade” vai de encontro à essência desse questionamento. Pois esse questionamento é histórico porque, nele, a história do seer mesmo enquanto a história do fundamento mais abissal e único da história se transforma no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Além disso, o pensar transitório realiza sempre pela primeira vez a preparação do outro questionamento, ou seja, a preparação daquele ser humano, que deve ser em sua atividade como fundador e como guardião antes de tudo forte o suficiente e sapiente o suficiente para acolher o impulso há muito tempo indicado, mas ainda mais longamente recusado do seer, reunindo o apoderamento do seer para a sua essenciação em um instante único da história. O pensar transitório, por isso, também não pode abalar o hábito metafísico por meio de um gesto de violência. Sim, por causa da comunicação, ele precisa com frequência ainda caminhar na via do pensar metafísico e, contudo, saber constantemente o outro. Como é que o pensar propriamente histórico deveria poder desconsiderar também que, se a transição deve ser fundadora de história, lhe é reservado tanto o caráter repentino do não pressentido quanto o caráter discreto do que se lança lentamente para além de si. E como é que o pensar transitório também não deveria saber que muitas coisas, sim, a maioria daquilo que permanece atribuído a ele em termos de esforço será um dia algo supérfluo e recairá no elemento incidental, para abrir o seu caminho único para a corrente da história do único. Apesar disso, o pensar transitório não pode atemorizar a precariedade de diferenças e clarificações preparatórias, contanto que elas sejam movidas pelo vento de uma decisão que é tomada desde muito tempo. Só a frieza da ousadia do pensar e a noite da errância do questionamento emprestam ao fogo do seer ardor e luz. [tr. Casanova; GA65: 259]

Outra coisa também importa: reconhecer no não se preocupar com o seer um estado necessário, no qual se encobre um estágio insigne da história do próprio seer. E auscultar a partir desse que é talvez o mais indiferente de todos os eventos no interior dos acontecimentos atuais a ressonância do ACONTECIMENTO APROPRIADOR decisivo. [tr. Casanova; GA65: 261]

A meditação precisa se deparar com o fato de que a indiferença já salva em meio à completa inocência em face do ser, a qual mantém na “ontologia” a sua “representação” escolar, não é nada menos do que a elevação extrema do poder do cálculo. Aqui se encontra a negação mais indiferente e mais cega do incalculável no trabalho. Esse incalculável, porém, não é considerado pela meditação como um “erro” e um “descaso” que não precisaria ser senão lastimado, mas como história, cuja “realidade efetiva” ultrapassa essencialmente tudo o que de resto se mostra como “real e efetivo”; razão pela qual essa história é reconhecida pelos pouquíssimos, e, entre esses, concebida apenas pelos mais raros como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR que já se abre, no qual o ente na totalidade chega à decisão de sua verdade. [tr. Casanova; GA65: 261]

O projeto do seer só pode ser conquistado pelo próprio seer, e, além disso, é preciso que tenha sucesso um instante daquilo que se apropria do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR em meio ao acontecimento, daquilo que se apropria do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 262]

Apesar disso, é difícil em todos os aspectos para os homens de hoje experimentar o projeto como ACONTECIMENTO APROPRIADOR a partir da essência do acontecimento da apropriação como recusa. Não se exige para tanto outra coisa senão manter longe do seer toda perturbação e saber que esse elemento maximamente poderoso se torna na esfera de obras mal feitas humanas o que há de mais frágil, sobretudo porque o homem está há muito tempo habituado a medir o domínio do seer com os pesos para a mensuração da violência do ente, só pesando assim e nunca ousando o que há de mais digno de questão. [tr. Casanova; GA65: 262]

O repensar do seer, contudo, logo que e na medida em que tem sucesso o salto, determinou a sua própria essência como “pensar” a partir daquilo de que o ser se apropria em meio ao acontecimento enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR, a partir do ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 262]

Não é em uma anamnesis   que se baseia o conhecimento do ser, tal como esse conhecimento foi determinado desde Platão, mas em um esquecimento, no esquecimento do retorno. Esse esquecimento, porém, é apenas a consequência da incapacidade de manter o retorno. Essa incapacidade, contudo, emerge do não poder se manter no espaço abissal da jogada para fora. Não obstante, essa incapacidade de se manter não é uma fraqueza, mas a consequência da necessidade de preservar em primeiro lugar o ser e o ente na primeira diferenciação, ela mesma ainda intangível. Por isso, só resta o retorno: a manutenção da entidade (idea), o que é um esquecimento daquilo que aconteceu apropriadoramente. Pois o lance para fora como jogado já era outrora, apesar de ainda completamente velado, ACONTECIMENTO APROPRIADOR (origem da história). No entanto, como é que isso deve ser apreendido agora mais determinadamente: o jogar-se para fora? Nós precisamos tomar cuidado para não tomarmos agora nenhuma fuga em direção a “propriedades” e “faculdades” quaisquer do homem, por exemplo, em direção à razão. Abstraindo-se do fato de que essas “propriedades” e “faculdades” mesmas não clarificam mais, de que elas emergiram sobre a base desconhecida da determinação do homem como o ente que apreende e, assim, de uma determinação segundo a qual ele já havia retornado da jogada para fora. [tr. Casanova; GA65: 263]

Sob o modo de uma introdução, a compreensão de ser tem em Ser e tempo um caráter transitoriamente ambíguo; de maneira correspondente, o mesmo vale para a caracterização do homem (“ser-aí humano”, o ser-aí no homem). A compreensão de ser é por um lado, olhando retrospectivamente por assim dizer de maneira metafísica, concebida como o fundamento de qualquer modo não fundado do transcendental e em geral da re-presentação da entidade (remontando até a idea). A compreensão de ser é, por outro, (uma vez que a compreensão é concebida como pro-jeto e esse projeto como projeto jogado) a indicação da fundação da essência da verdade (caráter manifesto; clareira do aí; ser-aí). A compreensão de ser pertencente ao ser-aí – esse discurso se torna supérfluo, ele diz duas vezes e até mesmo de maneira atenuada o mesmo. Pois o ser-aí “é” justamente a fundação da verdade do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. A compreensão de ser movimenta-se na diferenciação entre entidade e ente, sem já fazer “valer” a origem da diferenciação a partir da essência da decisão do seer. Compreensão de ser, porém, é por toda parte o contrário, sim, ainda algo essencialmente diverso disso: tornar o seer dependente do visar humano. Onde vigora a destruição do sujeito, como é que o ser ainda pode se transformar em algo “subjetivo”? [tr. Casanova; GA65: 264]

O fato de a essência do seer nunca se deixar dizer definitivamente não significa nenhuma falha, mas, ao contrário, o saber não definitivo mantém precisamente o abismo e, com isso, a essência do seer. Essa manutenção do abismo pertence à essência do ser-aí como a fundação da verdade do seer. Manter o abismo é ao mesmo tempo saltar para o interior da essenciação do seer, de tal modo que esse seer mesmo desdobra o poder de sua essência como o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, como o entre para a coação do deus e a guarda do homem. [tr. Casanova; GA65: 265]

Quem se espantaria se essa indicação do primeiro fato-de-que da história do seer fosse tomada na transição da metafísica para o repensar do seer como completamente arbitrária e incompreensível? Todavia, não adianta praticamente nada, se fôssemos de encontro a isso com esclarecimentos quanto ao fato de que todos os modos de consideração ligados à “historiologia da literatura”, à história da poesia e à “história do espírito” precisam permanecer de fora. Já se exige aqui o salto para o seer e sua verdade, a experiência de que, sob o nome de Hölderlin, acontece apropriadoramente aquele movimento de colocar em decisão – notemos bem: acontece, não aconteceu algo apropriadoramente. Nós podemos tentar destacar historicamente esse “ACONTECIMENTO APROPRIADOR” em sua unicidade, na medida em que o vemos em meio àquilo que ainda se mostra como o que se tinha até aqui em sua mais extrema elevação e em seu mais rico desdobramento: em meio à metafísica do Idealismo alemão e em meio à configuração da imagem de mundo de Goethe  , em meio àquilo que permanece separado de Hölderlin por abismos (no “Romantismo”), ainda que ele o tenha “influenciado” historio logicamente, a ele, o portador do nome, mas não o guardião do seer. Mas o que adianta esse alijamento? No máximo, ele alcança apenas uma nova incompreensão, como se, no interior daquela história da metafísica e da arte, Hölderlin fosse algo “próprio”; sendo que o que está em questão não é saber se ele está “dentro”, nem tampouco somente se ele se mostra como o “fora” excepcional, mas antes se abrir para o impulso indedutível do próprio seer, impulso esse que precisa ser capturado em seu mais puro fato-de-que, o fato de que agora e sempre aquela decisão se encontra na história do Ocidente, sem levar em conta se ela é e pode em geral ser apreendida pela era ainda duradoura ou não. Essa decisão posiciona pela primeira vez o tempo-espaço em torno do próprio seer, tempo-espaço esse como o qual o seer se estende a partir desse espaço juntamente com o tempo, que o temporaliza na unidade originária desse campo de jogo temporal. Desde então, todo pensamento que visa à entidade a partir do ente e para além dele permanece fora da história, na qual o seer enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR se apropria do pensar em meio ao acontecimento sob a figura do que é consonante com o ser-aí e do que lhe pertence. Salvar a unicidade de sua história para o seer é a vocação do pensar e nunca mais a diluição de sua essência nas disciplinas da “universalidade” esmaecida das categorias. Por isso, porém, os sapientes sabem que a preparação dessa história do seer no sentido da fundação da prontidão para o resguardo da verdade do seer no ente que assim vem a ser será uma preparação muito longa e amplamente desconhecida. Separados por uma longa distância precisam estar ainda os preparadores em relação aos fundadores, ainda que eles sejam tocados mesmo que apenas de longe pelo choque da recusa do seer e, por meio daí, queiram se tornar aqueles que pressentem. Continua sendo uma ousadia o dizer sobre o repensar do seer, a ponto de ele ser chamado de auxílio para a acomodação dos deuses no espaço fora e no estranhamento do homem (cf o seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR). [tr. Casanova; GA65: 265]

As pessoas se despem, por isso, de antemão de todo e qualquer esforço por levar a termo essa diferenciação em geral não como uma diferenciação re-presentacional, na qual o diferenciado é posto homogeneamente no mesmo plano, apesar de esse plano da diferencialidade ser deixado completamente indeterminado; por outro lado, porém, essa diferenciação considerada e exposta formalmente não pode ser senão um sinal de que a ligação com o ser é uma ligação diversa da com o ente, e de que essa alteridade das ligações pertence ao ligar-se diferenciador com os diferenciados. A ligação com o ser é, como uma ligação fundada, a insistência no ser-aí, o ser imanente à verdade do seer (como ACONTECIMENTO APROPRIADOR). A ligação com o ente é a conservação criativa da preservação do seer naquilo que se coloca na clareira do aí de acordo com tal preservação enquanto o ente. [tr. Casanova; GA65: 266]

O seer é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Essa expressão denomina o seer de maneira pensante, funda sua essenciação em sua própria estrutura, que se deixa indicar na multiplicidade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 267]

ACONTECIMENTO APROPRIADOR é: 1) O acontecimento da apropriação, o fato de que, na urgência, a partir da qual os deuses necessitam do seer, o seer com-pele o ser-aí à fundação de sua própria verdade e, assim, deixa o entre se essenciar, o acontecimento da apropriação do ser-aí por meio dos deuses e a apropriação dos deuses para eles mesmos em relação ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR. 2) O ACONTECIMENTO APROPRIADOR do acontecimento da apropriação encerra em si a de-cisão: o fato de a liberdade como o fundamento abissal deixar surgir uma indigência, a partir da qual, como o impulso excessivo do fundamento, os deuses e o homem vêm à tona em sua separação. 3) O acontecimento da apropriação como de-cisão traz os cindidos para a contra-posição: para o fato de que esse um em relação ao outro da mais ampla e urgente decisão precisa se encontrar na mais extrema “oposição”, porque ele transpassa o a-bismo do seer usado. 4) A contra-posição é a origem da contenda, que se essencia, na medida em que ela desloca o ente de sua perdição para o interior da mera entidade. O des-locamento caracteriza o ACONTECIMENTO APROPRIADOR em sua ligação com o ente enquanto tal. O acontecimento da apropriação do ser-aí deixa tal ente se tornar insistente no inabitual em face de todo e qualquer ente. 5) O des-locamento, porém, é, concebido a partir da clareira do aí, ao mesmo tempo a re-tração do ACONTECIMENTO APROPRIADOR; o fato de ele se retrair em relação a todo cálculo representacional e se essenciar como recusa. 6) Por mais ricamente e sem imagem que o seer se essencie, ele se baseia de qualquer modo nele mesmo e em sua simplicidade. Com certeza, o caráter do entre (entre os deuses e o homem) poderia induzir em erro e levar a que tomássemos o seer como mera ligação e como consequência e resultado da ligação com o ligado. Mas o ACONTECIMENTO APROPRIADOR é, sim, de qualquer modo, se já a caracterização é ainda possível, esse ligar, que traz os ligados pela primeira vez para si mesmos, para colocar no aberto dos decididos em contra-posição sua urgência e guarda, que eles não assumem pela primeira vez como propriedade, mas a partir dos quais, ao contrário, eles haurem sua essência. O seer é indigência dos deuses e, como essa indigência compelidora do ser-aí, ele é mais abissal do que tudo aquilo que pode se chamar de sendo e não se deixa mais denominar por meio do seer. O seer é usado, a urgência dos deuses, e, contudo, ele não pode ser deduzido a partir deles, mas é precisamente de maneira inversa superior a eles, na a-bissalidade de sua essência como fundamento. O seer se apropria do ser-aí em meio ao acontecimento e, no entanto, não possui a sua origem. Imediatamente, o entre se essencia como o fundamento dos contra-postos nele. Isso determina a sua simplicidade, que não se mostra como vazio, mas como o fundamento da plenitude, que emerge da contra-posição como contenda. 7) O simples do seer tem em si a cunhagem da unicidade. Essa não carece de modo algum do destaque e das diferenças, nem mesmo da diferença em relação ao ente. Pois essa diferença só é exigida, se o ser mesmo for marcado como uma espécie de ente e, com isso, não for nunca preservado como o único, mas sim vulgarizado e transformado no que há de mais universal. 8) A unicidade do seer fundamenta a sua solidão, de acordo com a qual ele lança unicamente em torno de si o nada, cuja vizinhança permanece sendo a mais autêntica e cuja solidão é resguardada da maneira mais fiel possível. De acordo com ela, o seer só se essencia constantemente de maneira mediatizada por meio da contenda de mundo e terra em relação ao “ente”. Em nenhuma dessas denominações a essência do seer deve ser pensada e, de qualquer modo, ele é pensado “completamente” em cada uma delas; “completamente” significa aqui: a cada vez, o pensar “do” seer é arrancado pelo seer mesmo e trazido para o interior de sua inabitualidade e priva de todos os auxílios buscados em explicações do ente. [tr. Casanova; GA65: 267]

ACONTECIMENTO APROPRIADOR tem em vista sempre o ACONTECIMENTO APROPRIADOR como acontecimento da apropriação, de-cisão, contra-posição, des-locamento, retração, simplicidade, unicidade, solidão. Não objetiva é a unidade dessa essenciação e ela só pode ser sabida naquele pensar, que não precisa ousar aquele elemento inabitual como o particular do que chama a atenção, mas como necessidade do que há de mais inaparente, no qual se abre o fundamento abissal da falta de fundamento dos deuses e da atividade de fundação do homem, e no qual é atribuído ao seer aquele pensar que a metafísica nunca tinha podido saber, o ser-aí. [tr. Casanova; GA65: 267]

A partir da lembrança de diferenciações antigas que se tornaram usuais até o seu fim em Nietzsche (ser e devir), poder-se-ia tomar a determinação do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR do mesmo modo como uma interpretação do ser enquanto “devir” (“vida”, “movimento”). Para não falar de modo algum da recaída inevitável na metafísica e da dependência das representações do “movimento”, da “vida” e do “devir” em relação ao ser como entidade, tal interpretação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR afastaria completamente desse acontecimento, uma vez que ela fala do ACONTECIMENTO APROPRIADOR como um objeto, ao invés de deixar que essa essenciação mesma e apenas ela fale, para que o pensar permaneça um pensar do seer, que não enuncia algo sobre o seer, mas fala em meio a um dizer, que pertence ao re-dito e que alija de si todas as objetivações e falsificações em algo situativo (ou “fluente”); e isso porque se entraria imediatamente com isso no plano do re-presentar e porque a inabitualidade do seer é negada. [tr. Casanova; GA65: 267]

A plena essenciação do seer na verdade do ACONTECIMENTO APROPRIADOR nos deixa reconhecer que o seer e apenas o seer é e que o ente não é. Com esse saber acerca do seer, o pensar alcança pela primeira vez o rastro do outro início na transição a partir da metafísica. Para esta é válido dizer: o ente é e o não-ente “é” também e o seer é o ente maximamente essente. [tr. Casanova; GA65: 267]

O seer é. Parmênides não diz o mesmo: estin gar eivai? Não; pois justamente aqui o eivai já se encontra no lugar do eon, o ser já é aqui o ente maximamente essente, ontos ón, que logo se transforma em koinon, em idea, no katholou  . O seer é – isso quer dizer: o seer essencia apenas a essência de si mesmo (ACONTECIMENTO APROPRIADOR). O seer se essencia – assim precisa ser naturalmente dito, quando se fala a partir da metafísica, para a qual é válido: o ente “é” (a ambiguidade do pensar transitório). [tr. Casanova; GA65: 267]

O ente é; aqui se fala com frequência a partir da posição fundamental na maioria das vezes inexpressa da metafísica, que traz consigo homens que encontram previamente o ente como o mais próximo e partem dele, a fim de retornarem uma vez mais a ele. Por isso, o caráter de enunciado da proposição é aqui um caráter diverso do que no dizer: o seer é. “O ente é” precisa ser levado a termo como e-nunciado, que tem sua correção; dirigido para o ente, a entidade é relatada por ele. O e-nunciar (logos) não é considerado aqui apenas como a expressão linguística ulterior de um re-presentar, mas o e-nunciar (apo-phansis) é aqui ele mesmo a forma fundamental da ligação com o ente como um tal e, com isso, com a entidade. De acordo com o dizer, o dito “o seer é” é completamente diverso. Com efeito, podemos tomar a qualquer momento o dito como uma proposição e como uma proposição enunciativa. Nesse caso, pensado metafisicamente, precisa ser concluído o seguinte: o seer se transforma, assim, no ente e, de maneira consequente, se mostra como o maximamente ente. A questão é que o dizer não fala a partir do seer algo que lhe cabe em geral, algo que se encontra nele presente à vista, mas enuncia o seer mesmo a partir dele mesmo; ele diz que o seer é o único que pode se apoderar de sua essência e, precisamente por isso, o “é” nunca pode ser simplesmente algo a ser atribuído. Nesse dito, o seer é dito a partir do “é” e redito por assim dizer no “é”. Com isso, contudo, se caracteriza ao mesmo tempo a forma fundamental, na qual todo dizer “sobre” o seer, melhor, todo dizer do seer precisa se manter. Pois esse dizer “do” seer não tem o seer como objeto, mas emerge dele como sua origem e fala, por isso, caso ele o deva denominar, sempre de volta para essa origem. Aqui, por isso, toda “lógica” pensa de maneira curta demais, uma vez que o logos enquanto enunciado não pode permanecer mais o fio condutor da representação do ser. Ao mesmo tempo, porém, o dizer é arrastado para o interior da ambiguidade do enunciado e o pensar “do” seer se torna essencialmente mais difícil. Isso, porém, atesta apenas a primeira proximidade em relação à distância do seer: o fato de que esse “é” a recusa e o deslocamento mesmos e enquanto tal precisa ser resguardado no ACONTECIMENTO APROPRIADOR e, por isso, precisa ser sempre difícil e uma luta, que se torna manifesta na mais extrema profundidade como o jogo do abissal. Mas se o ente não é, então isso significa: o ente permanece pertencente ao seer como o resguardo de sua verdade, nunca consegue, porém, se transpor para a es-senciação do seer. O ente, contudo, distingue-se enquanto tal com vistas ao respectivo pertencimento à verdade do seer e à exclusão de sua essenciação. [tr. Casanova; GA65: 267]

Se, por isso, o seer for pensado como o entre, no qual os deuses são compelidos, de tal modo que ele se mostre como uma indigência para o homem, então os deuses e o homem não podem ser tomados como algo “dado”, como algo “presente à vista”. No projeto daquele pensar, eles são, sempre a cada vez de maneira diversa, assumidos como o histórico, que, ele mesmo, só chega à sua essenciação a partir do ACONTECIMENTO APROPRIADOR do entre. Isso, contudo, significa: que ele chega à luta em torno da própria essência, à consistência da decisão de uma das possibilidades veladas. [tr. Casanova; GA65: 267]

O seer se essencia como o entre para o deus e o homem, mas de tal modo que esse espaço intermediário só arranja espacialmente para o deus e para o homem a possibilidade essencial, um entre que se choca contra sua margem e que a deixa ressurgir pela primeira vez a partir do choque como margem, sempre pertencendo à corrente do ACONTECIMENTO APROPRIADOR, sempre velada na riqueza de suas possibilidades, sempre o de lá para cá e o de cá para lá das ligações inesgotáveis, em cuja clareira se juntam fugidiamente e afundam mundos, se descerram terras, suportando a destruição. Mas também de tal e tal modo antes de tudo, o seer precisa permanecer sem interpretação, a ousadia contra o nada, que deve apenas ao seer a sua origem. [tr. Casanova; GA65: 267]

Na medida, porém, em que os deuses e o homem ganham a contra-posição na indigência do seer, o homem é jogado para fora de sua posição até aqui, modernamente ocidental, sendo colocado em uma posição aquém de si mesmo em espaços de determinação completamente diversos, nos quais a animalidade tanto quanto a racionalidade não têm como assumir uma posição essencial, por mais que, no futuro, a constatação dessas propriedades junto ao homem presente à vista tenham a sua correção (ainda que seja sempre preciso perguntar quem são aqueles que acham algo assim correto e até mesmo constroem com vistas a tais correções “ciências” como a biologia e a doutrina das raças e estabelecem ao mesmo tempo com isso supostamente os fundamentos da “visão de mundo”; o que é sempre a ambição de toda e qualquer “visão de mundo”). Com o projeto do seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR também se pressente pela primeira vez o fundamento e, com isso, a essência e o espaço essencial da história. A história não é nenhum privilégio do homem, mas é a essência do próprio seer. A história só se desenrola no entre da contraposição dos deuses e do homem como o fundamento da contenda de mundo e terra; e ela não é outra coisa senão o acontecimento da apropriação desse entre. A historiologia nunca alcança, por isso, a história. A diferenciação entre o seer e o ente é uma de-cisão tomada a partir da essência do próprio seer que se estende muito para além, uma de-cisão que só pode ser pensada assim. [tr. Casanova; GA65: 268]

O des-locamento consiste no acontecimento da apropriação do ser-aí; e isso de tal modo, com efeito, que no aí que se clareia (no a-bismo do que não possui apoio nem proteção) o acontecimento da apropriação se subtrai. Des-locamento e retração se ligam ao seer enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Neste caso, não acontece nada no interior do ente, o seer permanece inaparente, mas pode acontecer com o ente enquanto tal de ele, voltado para a clareira do in-habitual, lançar por terra seu caráter habitual e precisar se colocar em relação à de-cisão sobre como ele satisfaz ao seer. Isso não significa, porém, dizer como é que ele se ajustaria e corresponderia ao seer, mas como ele, o ente, resguarda e perde a verdade da essenciação do seer, chegando aí à sua própria essência, que consiste em tal resguardo. As formas fundamentais desse resguardo, contudo, são a abertura de uma totalidade do mundo (mundo) e o fechar-se diante de todo projeto (terra). Essas formas fundamentais só deixam emergir o resguardo e são elas mesmas na contenda, que se essencia a partir da intimidade do acontecimento da apropriação do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Sempre a cada vez em cada um dos lados dessa contenda se encontra aquilo que nós conhecemos metafisicamente como o sensível e o não sensível. Por que, contudo, precisamente essa contenda entre mundo e terra? Porque, no ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o ser-aí acontece de maneira apropriadora e se transforma na jurisdicionalidade do homem, porque o homem é chamado para a guarda do seer a partir da totalidade do ente. Como, porém, o elemento querelante, a partir do qual nós temos de pensar em termos da história do seer o homem e seu “corpo”, a “alma” e o “espírito”? [tr. Casanova; GA65: 269]

Essenciação significa o modo como o seer mesmo é, a saber, o seer. O dizer “do” seer. O seer se essencia como a urgência do deus na guarda do ser-aí. Essa essência é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR enquanto o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, em cujo entre se estende por um lado de maneira querelante a contenda entre mundo e terra. Por outro lado, é só a partir dessa contenda que a terra chega até a sua essência (de onde e como a contenda?): o seer, o acontecimento da apropriação que entra uma vez mais em combate para a contraposição entre os deuses e o homem. [tr. Casanova; GA65: 270]

Todo dizer sobre o seer precisa denominar o ACONTECIMENTO APROPRIADOR, aquele entre do entrementes de deus e ser-aí, de mundo e terra, ;empre elevando ao cerne da obra afinadora com uma clareza intermediária e de maneira decisiva o fundamento-entre como a-bismo. Esse dizer não é nunca inequívoco no sentido da inequivocidade do discurso habitual, mas ele também não é como esse discurso apenas plurissignificativo e multissignificativo. Ao contrário, ele é unicamente denominador de maneira jurisdicional daquele entre do acontecimento querelante da apropriação. [tr. Casanova; GA65: 270]

O seer é o ACONTECIMENTO APROPRIADOR contestador, que reúne originariamente o que é por ele apropriado em meio ao acontecimento (o ser-aí do homem) e o que é por ele recusado (o deus) no abismo daquele entre, em cuja clareira mundo e terra contestam um ao outro o pertencimento de sua essência ao campo de jogo temporal, no qual chega à preservação aquele verdadeiro que se encontra em tal preservação como o “ente”. [tr. Casanova; GA65: 270]

O acontecimento da apropriação e a contestação, a fundação da história e a decisão, a unicidade e a unidade, o caráter de entre e o fosso aberto: todos eles jamais denominam a essência do seer como propriedades, mas eles nomeiam na essenciação respectivamente total de sua essência. Falar sobre um significa não apenas covisar aos outros, mas levá-los ao saber em uma unicidade histórica do poder de sua essência. Tal saber não dá a conhecer nenhum objeto, também não é nenhuma evocação e convocação de estados e posturas morais, mas é sim a transmissão do choque do próprio seer, que funda enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR o campo de jogo temporal para o verdadeiro. [tr. Casanova; GA65: 270]

O ser-aí é o ente apropriado em meio ao acontecimento no ACONTECIMENTO APROPRIADOR. E somente a partir de tal essência é que ele tem seu próprio da guarda da recusa que funda e que conserva para ela o aí. [tr. Casanova; GA65: 271]

Tal deixar viger da abdicação a destaca essencialmente de toda e qualquer mera negação e de todo e qualquer mero negado. Abdicação é um modo de estar originário: sem apoio no desprotegido (a insistência do ser-aí). Esse modo de ficar mantém a posição da possibilidade; não de uma possibilidade qualquer e não “da” possibilidade em geral, mas da sua essência. Isso, porém, é o próprio ACONTECIMENTO APROPRIADOR como a faculdade que se subtrai ao extremo para o que há de mais único do acontecimento da apropriação. Tal retração envia a mais aguda tempestade contra a abdicação e doa a ela a proximidade do a-bismo e, assim, a abertura do fosso do seer. Isso naturalmente se mostra como a distinção do ser-aí de se “encontrar” através do desprotegido e do sem apoio descendo até o a-bismo e ultrapassando aí os deuses. [tr. Casanova; GA65: 271]

O ser-aí funda enquanto insistência o a-bismo ejetado no acontecimento da apropriação pelo seer e, contudo, suportado por ela naquele ente, como o qual o homem é. Mas o ser desse ente só determina a si mesmo a partir do ser-aí, na medida em que, a partir dele, o homem é transformado na guarda da urgência dos deuses. O homem que é marcado por tal essência ainda por vir não “é” enquanto ente originariamente, mas apenas o seer é. No entanto, o homem determinado de acordo com o modo de ser do ser-aí se distingue, de qualquer modo, uma vez mais de todo ente, na medida em que sua essência é fundada no projeto da verdade do seer, verdade essa cuja fundação assume a responsabilidade por ele como o que é mediatamente apropriado em meio ao acontecimento para o seer. Desse modo, o homem é excluído do seer e, contudo, jogado precisamente na verdade do seer, de tal modo que a exclusão é suportada de acordo com o caráter de ser-aí na rejeição como uma exclusão que se encontra ligada ao ser. O homem é como uma ponte constante no entre, como o qual o ACONTECIMENTO APROPRIADOR atribui a indigência dos deuses para a guarda do homem, na medida em que ele assume a responsabilidade pelo homem e o entrega ao ser-aí. Tal assunção da responsabilidade atributiva, da qual emerge o caráter de jogado, traz o ser-aí para o arrebatamento extasiante em meio ao seer, que aparece para nós em primeiro plano como o projeto da verdade do seer e, em primeiríssimo lugar e antes de tudo, como o primeiro plano voltado para a metafísica como compreensão de ser. Por toda parte, entretanto, não permanece aqui nenhum lugar para a interpretação do homem como “sujeito”, nem no sentido do sujeito egoico, nem no sentido do sujeito social. O arrebatamento extasiante, porém, também não é nenhum estar-fora-de-si do homem sob a forma de um desprender-se de si. Ele fundamenta muito mais a essência da ipseidade, que significa: o homem tem sua essência (guarda do seer) como sua proprie-dade, na medida em que ele se funda no ser-aí. Ter a essência como proprie-dade, contudo, significa: precisar levar a termo de maneira jurisdicional a apropriação e a perda do fato de que ele é e como ele é o apropriado em meio ao acontecimento (o arrebatado de maneira extasiante para o interior do seer). Ser próprio, proprietário expresso da essência, e suportar e não suportar de maneira jurisdicional esse caráter próprio sempre de acordo com a a-bissalidade do acontecimento da apropriação: isso é o que constitui a essência da ipseidade. O caráter de si mesmo não tem como ser concebido nem a partir do “sujeito”, nem mesmo a partir do “eu” ou da “pessoalidade”. Ao contrário, ele só tem como ser concebido a partir da insistência no pertencimento de guarda ao seer, o que significa, no entanto, a partir de um lançamento na direção da urgência dos deuses. Ipseidade é o desdobramento da propriedade da essência. O fato de o homem ter sua essência como sua propriedade diz que essa sua essência se encontra sob o risco constante da perda. E esse risco é a ressonância do acontecimento da apropriação, a entrega da responsabilidade ao seer. [tr. Casanova; GA65: 271]

O ser-aí é a fundação do abismo do seer por meio da requisição do homem como aquele ente, que assume sobre si a responsabilidade pela guarda da verdade do seer. Com base no ser-aí, o homem se transforma pela primeira vez naquele ente, para o qual a ligação com o seer destina o decisivo, o que ao mesmo tempo indica que o discurso sobre uma ligação com o seer expressa na verdade aquilo que deve ser pensado em seu contrário. Pois a ligação com o seer é em verdade o seer, que volta, enquanto ACONTECIMENTO APROPRIADOR, o homem para a sua ligação. Por isso, múltiplas interpretações falsas cercam aquela “relação”, que se indica por meio do título “O homem e o seer”. [tr. Casanova; GA65: 271]

1) A que pico devemos subir para que possamos visualizar livremente o homem em sua indigência essencial? Ao fato de sua essência ser para ele uma propriedade e, por isso, uma perda, e, em verdade, a partir da essenciação do seer. Por que tais picos são necessários e ao que eles visam? 2) O homem se desencaminhou de maneira obtusa no que é “apenas” ente ou ele foi impelido a isso pelo seer? Ou será que ele foi simplesmente pendurado pelo seer e entregue a um egoísmo? (Essas questões movimentam-se na diferenciação entre ser e ente). 3) O homem, o animal pensante, como fonte subsistente das paixões, impulsos, dos estabelecimentos de metas e valorações, dotado de um caráter etc. Esse elemento a qualquer momento constatável, que pode contar seguramente com a concordância de todos, sobretudo quando todos estão de acordo em não perguntar mais e não deixar ser senão aquilo que para cada um é: a) Como o que nós nos deparamos com o homem. b) O fato de que nós nos deparemos com ele. 4) O homem é o que retorna no livre lançamento (projeto jogado); nós precisamos compreender ser, quando… 5) O homem, o guardião da verdade do seer (fundação do ser-aí). 6) O homem, nem “sujeito”, nem “objeto” da “história”, mas apenas o ente mobilizado pelo vento da história (ACONTECIMENTO APROPRIADOR) e arrastado concomitantemente para o interior do seer, pertencente ao seer. Clamor da urgência, assunção da responsabilidade em meio à guarda. 7) O homem como o estrangeiro no lance livre expelido, o estrangeiro que não retorna mais do abismo e mantém nessa estrangeiridade a vizinhança longínqua. [tr. Casanova; GA65: 272]

O seer como ACONTECIMENTO APROPRIADOR é a história; a partir daqui, sua essência precisa ser determinada independentemente da representação do devir e do desenvolvimento, independentemente da consideração e explicação historiológicas. Por isto, a essência da história também não tem como ser apreendida, caso se esteja dirigido para o “objeto” historiológico e para o que se encontra contraposto historiologicamente, ao invés de se partir do “sujeito” historiológico (investigador). O que deve ser, afinal, o objeto da historiologia? A “historiologia objetiva” é uma meta in-alcançável? Ela não é absolutamente nenhuma meta. Então também não há nenhuma historiologia “subjetiva”. Na essência da historiologia está o fato de que ela se funda na relação sujeito-objeto; ela é objetiva, porque ela é subjetiva, e, na medida em que ela é subjetiva, ela também precisa ser objetiva; por isso, uma “oposição” entre historiologia “subjetiva” e “objetiva” não tem absolutamente nenhum sentido. Toda historiologia termina no biografismo antropológico-psicológico. [tr. Casanova; GA65: 273]

Preservação do seer (preservação em termos da história dotada do caráter do ACONTECIMENTO APROPRIADOR). Por quê? Para chegarem à verdade no ente, os deuses são inteiramente afinados por si tanto quanto o seer vai se apagando, sem se extinguir. Mas o perigo. O ente “na totalidade”? A “totalidade” ainda tem agora uma necessidade? Ela não se decompõe como o derradeiro resto do pensar “sistemático”? O quão velho é na história do ser o holon  ? Tão velho quanto o hen  ? (O primeiro conceito, por meio do qual a physis é reunida na constância da presentação.) [tr. Casanova; GA65: 275]

1) A linguagem como enunciado e como dito. 2) O dizer do seer. 3) O seer e a origem da linguagem. A linguagem é a ressonância que pertence ao ACONTECIMENTO APROPRIADOR, ressonância essa na qual ele se doa como contestação da contenda em meio a essa contenda mesma (terra – mundo) (a consequência: o desgaste e o mero uso da linguagem). 4) A linguagem e o homem. Será que a linguagem é dada com o homem ou será que é com o homem que a linguagem é dada? Ou será que uma coisa não se torna e não é por meio da outra de modo algum duas coisas diversas? E por quê? Porque os dois pertencem de maneira cooriginária ao seer. Por que o homem pertence “essencialmente” à determinação da essência da linguagem – o homem como? Guardião da verdade do seer. 5) O animal rationale e a falsa interpretação da linguagem. 6) Linguagem e lógica. 7) A linguagem, a entidade e o ente. [tr. Casanova; GA65: 276]

Segundo a determinação bem compreendida e até hoje válida do homem como animal rationale, a linguagem é dada com o homem e isso de maneira tão certa que se pode dizer mesmo na inversão que é apenas com a linguagem que o homem é dado. Linguagem e homem se determinam de modo alternante. Por meio do que isso se torna possível? As duas coisas são em certo aspecto o mesmo? E em que aspecto elas são o mesmo? Por força de seu pertencimento ao seer. O que significa isso: pertencer ao seer? O homem pertence enquanto um ente ao ente e está submetido, assim, à mais universal determinação de que ele é e de que ele é de tal e tal modo. A questão é que isso não distingue o homem enquanto homem, mas apenas o equipara enquanto ente a todo ente. O homem, porém, pode pertencer ao seer (não apenas ao ente), na medida em que ele cria a partir desse pertencimento e precisamente a partir dele a sua essência mais originária: o homem compreende o seer (cf Ser e tempo); ele é o guarda-posto do projeto do seer, a guarda da verdade do seer constitui isso a partir do seer e “apenas” a partir dessa essência concebida do homem. O homem pertence ao seer como aquele que é apropriado pelo próprio seer em meio ao acontecimento para a fundação de sua verdade. Assim apropriado, ele é entregue à responsabilidade do seer; ao mesmo tempo, tal responsabilidade remete a conservação e a fundação da essência do homem para aquilo que o homem precisa primeiro transformar para si em propriedade, aquilo com relação ao que ele precisa ser mais próprio e mais impróprio: para o ser-aí, o que significa a própria fundação da verdade, o a-bismo exposto e sustentado pelo seer (ACONTECIMENTO APROPRIADOR). Como é, contudo, que a linguagem se comporta em relação ao seer? Se não podemos computar a linguagem como algo dado e, com isso, já estabelecido na essência, uma vez que o que importa é “encontrar” a essência, e se o seer mesmo é “mais essencial” do que a linguagem, na medida em que ela é tomada como um dado (ente), então a pergunta precisa ser formulada de outro modo. Como é que o seer se comporta em relação à linguagem? Mas mesmo assim a questão é ainda capaz de induzir em uma falsa interpretação, na medida em que aparece agora como mera inversão da relação anterior e a linguagem, por sua vez, é considerada como um dado, com o qual o seer entra em ligação. Como é que o seer se comporta em relação à linguagem – o que está em questão aqui é: como emerge na essenciação do seer a essência da linguagem? Com isso, porém, uma resposta já não é antecipada: justamente que a linguagem emerge do seer? Mas toda e qualquer autêntica questão acerca da essência, determinada como projeto a partir do que precisa ser projetado, antecipa a resposta. A essência da linguagem nunca pode ser determinada de outro modo senão por meio da denominação de sua origem. Por isso, não se pode fornecer definições da essência da linguagem e declarar a questão acerca de sua origem irrespondível. A questão acerca da origem encerra naturalmente em si a determinação essencial da origem e do próprio emergir. Emergir, contudo, significa: pertencer ao seer no sentido da questão por último colocada: como se essencia na essenciação do seer a linguagem? Que, contudo, essa ligação com o seer não seja em geral nenhuma exposição arbitrária, isso foi algo que a consideração prévia deixou claro. Pois, em verdade, aquela dupla ligação metafísica (só que não pensada de volta à origem) da linguagem com o ente enquanto tal e com o homem (como animal rationale, ratio – fio condutor da interpretação do ente com vistas à entidade, isto é, o ser) não indica outra coisa senão: a linguagem está inteiramente ligada ao ser; e isso precisamente nos aspectos, segundo os quais a metafísica a determina. Mas como a metafísica só é em geral a partir do impasse em relação ao seer o que ela é, precisamente essa ligação e completamente a sua concepção correta nunca pode alcançar o âmbito de seu questionamento. [tr. Casanova; GA65: 276]

Eras, que conhecem muitas coisas e quase tudo por meio do historicismo, não compreenderão que um instante de uma história sem arte pode ser mais histórico e mais criador do que tempos de um funcionamento artístico extenso. A ausência de arte não emerge aí da incapacidade e da decadência, mas da força do saber sobre as decisões essenciais, por meio das quais esse saber precisa progredir, o que aconteceu até aqui, de maneira bastante rara, como arte. Na esfera de visão desse saber, a arte perdeu a ligação com a cultura; ela só se manifesta aqui como um ACONTECIMENTO APROPRIADOR do seer. A ausência de arte funda-se no saber de que o exercício de capacidades consumadas a partir do domínio maximamente perfeito das regras até mesmo segundo os critérios de medida e os paradigmas supremos até aqui nunca pode se mostrar como “arte”; de que o erigir planificado de uma produção daquilo que corresponde a “obras de arte” até aqui e às suas “finalidades” pode alcançar resultados abrangentes, sem que uma necessidade originária da essência da arte de levar à decisão a verdade do seer jamais se imponha a partir de uma indigência; de que uma empresa com “a arte” enquanto meio de funcionamento já se coloca por si só fora da essência da arte e, por isso, já permanece cega e fraca demais, para experimentar a ausência de arte em seu poder preparador da história e atribuído ao seer ou mesmo para deixá-lo “vigorar”. A ausência de arte se funda no saber de que a ratificação e concordância daqueles que gozam e vivenciam a “arte” não podem de modo algum decidir se o objeto do gozo em geral provém da esfera essencial da arte ou é apenas um construto aparente de uma habilidade historiológica, sustentada pelo estabelecimento de metas dominantes. [tr. Casanova; GA65: 277]

III. Tempo grego elevado (Píndaro e antes dele) e Platão, ressonância, “fama” já celebridade. E antes de tudo: IV: Mesmo no tempo mais elevado apenas instantes, unicidade, não estado e regra, não ideal. V. Concepção moderna da exposição da atividade, o elemento de realização da obra, “gênio”, e, correspondentemente “obra” como desempenho. Por fim, arte em geral como meio da política cultural. VI. Questão da origem: “a” origem sempre histórica no sentido de que a essência mesma é historicamente marcada pelo caráter do ACONTECIMENTO APROPRIADOR. [tr. Casanova; GA65: 278]

Não a partir da “religião”; não como algo presente à vista; não como saída de emergência do homem, mas a partir do seer, mas como sua decisão, futuramente na unicidade do último. Por que precisamos ousar essa decisão? Porque, com isso, a necessidade do seer é alçada ao nível da mais elevada questionabilidade e a liberdade do homem, segundo a qual ele pode estabelecer o preenchimento de sua essência no que há de mais profundo, é precipitada na a-bissalidade porque, assim, o ser é trazido para a verdade da mais simples intimidade do acontecimento de sua apropriação. E o que “é” então? Então essa questão se torna pela primeira vez impossível; então, por um instante, o acontecimento da apropriação se mostra como ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Esse instante é o tempo do ser. [tr. Casanova; GA65: 279]

O ACONTECIMENTO APROPRIADOR e a possibilidade do porquê! Será que o porquê ainda pode ser transformado em um tribunal, diante do qual precisamos colocar o seer? Por que, porém, a verdade do seer? Ela pertence à sua essência! Por que ente? Porque um ente supremo provoca, produz tal ente? Mas sem levarmos em conta o elemento desmedido da fabricação, o ente supremo, o summum ens, pertence com maior razão ao ente. Como é que, a partir daí, a pergunta sobre o porquê pode ser respondida? Por que ente? Por quê? Em razão do quê? Em que medida? Razões! Razão e origem do porquê. A cada vez para além do ente. Para onde? Porque o ser se essencia. Por que seer? A partir dele mesmo. Mas o que é esse mesmo? A sondagem do fundamento do seer, a sondagem de seu fundamento, é o entre do seer como a-bismo. O saber abissal como ser-aí. Ser-aí como apropriado em meio ao acontecimento. Sem fundamento; abissal. [tr. Casanova; GA65: 279]

Linguagem e ACONTECIMENTO APROPRIADOR. Esclarecimento da terra, ressonância do mundo. Contenda, o abrigo originário da abertura de um fosso abissal, porque o rasgo mais íntimo. A posição aberta. [tr. Casanova; GA65: 281]

A linguagem se funda no silêncio. O silêncio é a mais velada retenção da medida. Ele mantém a medida, porquanto ele estabelece os critérios de medida. E, assim, a linguagem é estabelecimento de medidas no que há de mais íntimo e mais abrangente, estabelecimento de medidas como re-essenciação da junta fugidia e de sua junção (ACONTECIMENTO APROPRIADOR). E uma vez que a linguagem é o fundamento do ser-aí, reside no ser-aí a comedida e, com efeito, como fundamento da contenda de mundo e terra. [tr. Casanova; GA65: 281]