Heidegger, fenomenologia, hermenêutica, existência

Dasein descerra sua estrutura fundamental, ser-em-o-mundo, como uma clareira do AÍ, EM QUE coisas e outros comparecem, COM QUE são compreendidos, DE QUE são constituidos.

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Levinas (1991:12-13) – ato de pensar

sábado 28 de novembro de 2020

José Pinto Ribeiro

Conter mais do que a sua capacidade não significa abarcar ou englobar pelo pensamento a totalidade do ser ou, pelo menos, poder dar-se conta dela a posteriori, pelo jogo interior do pensamento constituinte. Conter mais que a sua capacidade é, em cada momento, fazer saltar os quadros de um conteúdo pensado, transpor as barreiras da imanência, mas sem que a descida ao ser se reduza de novo a um conceito de descida. Alguns filósofos procuraram exprimir pelo conceito do acto (ou da encarnação que o toma possível) essa descida ao real que o conceito de pensamento, interpretada como puro saber, manteria como um jogo de luzes. O acto do pensamento — o pensamento como acto — precedería o pensamento que pensa um acto ou que dele toma consciência. A noção de acto comporta essencialmente uma violência, [14] a da transitividade que falta à transcendência do pensamento, encerrado em si mesmo, apesar de todas as suas aventuras, no fim de contas, puramente imaginárias ou percorridas como que por Ulisses, para regressar ao lar. O que no acto ressalta como essencial violência é o excedente do ser sobre o pensamento que pretende contê-lo, a maravilha da ideia do infinito. A encarnação da consciência só pode, pois, compreender-se se, para além da adequação, o transbordamento da ideia pelo seu ideatum — isto é, a ideia do infinito — move a consciência. A ideia do infinito, que não é uma representação do infinito, suporta a própria actividade. O pensamento teorético, o saber e a crítica aos quais opomos a actividade, têm o mesmo fundamento. A ideia do infinito que não é, por sua vez, uma representação do infinito é a fonte comum da actividade e da teoria.

Original

Contenir plus que sa capacité, ne signifie pas embrasser ou englober par la pensée la totalité de l’être ou, du moins, pouvoir après coup en rendre compte par le jeu intérieur de la pensée constituante. Contenir plus que sa capacité c’est, à tout moment, faire éclater les cadres d’un contenu pensé, enjamber les barrières de l’immanence, mais sans que cette descente dans l’être se réduise à nouveau à un concept de descente. Des philosophes ont cherché à exprimer par le concept de l’acte (ou de l’incarnation qui le rend possible) cette descente dans le réel que le concept de pensée, interprétée comme pur savoir, maintiendrait comme un jeu de lumières. L’acte de la pensée la pensée comme acte précéderait la pensée pensant un acte ou en prenant conscience. La notion d’acte comporte essentiellement une violence, celle de la transitivité qui manque à la transcendance de la pensée, enfermée en elle-même, malgré toutes ses aventures, en fin de compte, purement imaginaires ou parcourues comme par Ulysse, pour retourner chez soi. Ce qui dans l’acte éclate comme essentielle violence, [12] c’est le surplus de l’être sur la pensée qui prétend le contenir, la merveille de l’idée de l’infini. L’incarnation de la conscience ne peut donc se comprendre que si, par-delà l’adéquation, le débordement de l’idée par son idéatum c’est-à-dire l’idée de l’infini meut la conscience. L’idée de l’infini qui n’est pas une représentation de l’infini porte l’activité elle-même. La pensée théorétique, le savoir et la critique auxquels on oppose l’activité, ont le même fondement. L’idée de l’infini qui n’est pas à son tour une représentation de l’infini est la source commune de l’activité et de la théorie.


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