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Geschehen

domingo 9 de julho de 2023

Geschehen  , aventure, provenir, desenlace, acontecer, occurrence, coming-to-pass, geschehen, avoir lieu, se produire, advenir, advir


[…] Este movimento do vir do aparecer e do ir do que aparece, é o acontecer histórico [Geschehen] que, de figura em figura, leva a consciência ao que se vê, quer dizer, à imagem-forma [Bild  ] da sua essência. […] [GA5PT:180-181]
François Vezin   traduz Geshehen por "aventure" (enquanto Martineau   por "provenir"), porque aventura provém do latim advenire, e assim responde bem a Geshehen.
No antigo francês o verbo "avenir" (advir) o traduziria conforme a mobilidade própria da existência na qual advém o Dasein   entre o nascimento e a morte. (LDMH  )
A partir de SZ   p.371, geschehen ne s’applique qu’au Dasein, par opp. à toute simple « survenue » (Vorkommen  ). N.p.c. également avec l’idée d’advenue ou d’avènement, qui se trouve plutôt dans Zukommen  . [Martineau]
A morte totaliza o Dasein como sua possibilidade: “A presença (Dasein) não existe como a soma das realidades momentâneas de vivências que vêm e desaparecem uma após a outra… De fato, a presença (Dasein) só existe nascente e é nascente que ela já morre, no sentido de ser-para-a-morte” (SZ, p. 374; ST, p. 465-6). A possibilidade de totalização é um existencial, uma determinação estrutural. Ainda que não seja o caso de uma possibilidade realizável, [1] continua sendo verdadeiro que este Ganzseinkönnen   (poder ser-todo) pode ser autêntico ou não, i.e., assumido como uma possibilidade minha ou não. Embora eu já esteja “estendido” facticamente, tornar essa possibilidade explicitamente minha é “estender a mim mesmo”. O Dasein é a sua possibilidade para a totalidade quando ele não está meramente estendido adiante, mas quando ele estende a si mesmo adiante. Esse ser-estendido e estender a si mesmo é o que Heidegger chama de Geschehen (acontecer). [2] “Chamamos de acontecer a movimentação da presença (Dasein) específica desse estender-se na ex-tensão” (SZ, p. 375; ST, p. 466). A possibilidade de Geschichte  , história, está fundada nesse Geschehen (acontecer).

Tal estender-extensão é chamado de “concreção mais originária” da cura (SZ, p. 251; ST, p. 326). Aliás, na busca pela estrutura originária do Dasein, Ser e Tempo não vai além do todo que o ser-para-a-morte revela, o todo do nosso ser como temporalidade. [CRITCHLEY, Simon, SCHÜRMANN, Reiner. Sobre o ser e tempo de Heidegger. Tr. Bernardo Sansevero. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016, p. 177-178]


The German verb, geschehen, normally means, ‘to happen’. But for any event which happens within the world, Heidegger prefers to use the verb, vor-kommen, ‘to occur’, and reserves geschehen for Dasein. [Macann]
VIDE: Geschehen

provenir [ETEM]
devenir-historial [ETJA]
occurrence [BTJS]
historial [Corbin]

A palavra mais forte para "evento" em SZ é (das) Geschehen, que Heidegger associa ao termo correspondente Geschichte, " história". Geschehen é compreendido verbalmente como "evento", não como um "acontecimento" individual. E por conseguinte bastante distinto de Geschehnis, que aparece somente duas vezes em SZ, para distinguir os "processos [Vorgänge] da natureza e os acontecimentos [Geschehnisse] da história" (18) e para referir-se a "afirmações sobre acontecimentos no mundo circundante" (158) não inteiramente teóricas. Um cano estourado ou uma batida de carro são Geschehnisse, mas não Geschehen-, somente Dasein "acontece". O acontecer Dasein é o " movimento específico no qual Dasein é estendido e se estende" do seu nascimento até sua morte (SZ, 375). A exploração disto nos mostra como Dasein "se refaz" em um ser próprio unificado e deste modo dá origem à história: "Ou a personalidade da pessoa, a humanidade do homem, possui sua própria temporalidade e correspondentemente uma ‘estabilidade’ própria, em virtude da qual também o caráter-Geschehen de Dasein do homem, i.e. a essência da história no sentido autêntico, se determina de um modo radicalmente diferente do caráter-Vorgang   da natureza do ser-simplesmente-dado?" (GA31  , 173, Cf. SZ, 390f.). Dasein é um evento, não uma substância na qual e para a qual várias coisas acontecem. Ao refazer-se ele "repete" ou retraça o passado histórico. [DH  ]


NT: Occurrence (Geschehen) of Da-sein   as such, 19-20, 371, 375-379, 382, 384-390, 392, 404, 413, 426, 436; natural, 388 n. 9; world-historical, 389; o. of being (Seinsgeschehnis), 268fn. See also the Between; Connection; Event; Historicity; Resoluteness; Temporalizing [BTJS]
NT: ‘weltgeschichtliches Geschehen’. While the verb ‘geschehen’ ordinarily means to ‘happen’, and will often be so translated, Heidegger stresses its etymological kinship to ‘Geschichte’ or ‘history’. To bring out this connection, we have coined the verb ‘historize’, which might be paraphrased as to ‘happen in a historical way’; we shall usually translate ‘geschehen’ this way in contexts where history is being discussed. We trust that the reader will keep in mind that such ‘historizing’ is characteristic of all historical entities, and is not   the sort of thing that is done primarily by historians (as ‘philosophizing’, for instance, is done by philosophers). [BTMR]
NT: Geschehen : provenir (subst.). — À partir de 371 ; ne s’applique qu’au Dasein, par opp. à toute simple « survenue » (Vorkommen). N.p.c. également avec l’idée d’advenue ou d’avènement, qui se trouve plutôt dans Zukommen. [ETEM]
N4 In welcher Weise   gehört dieses Geschehen der Geschichte zum Dasein ? Comment traduire et quel est le statut de ce génitif. Il est pour moi subjectif, et si je traduis par : ‘devenir-historial’ de l’histoire, j’entends au fond : ‘devenir-historial’ qu’a l’histoire. [ETJA]
Geschehen (das): «acontecer». Véase la entrada Geschichtlichkeit (die), geschichtlich. [GA59  , p. 151; SZ, pp. 20, 375 (definición), 379, 382, 384-388, 390, 444.] [LHDF]
historial – historializar (geschehen). É assim que Henry Corbin, um dos primeiros tradutores de Heidegger para o francês, nos anos 1930, traduziu “geschehen” (comumente: acontecer, ter lugar) e “geschichtlich” (“histórico”). O alemão tem duas palavras para dizer o que dizemos em apenas uma: história. Há “Historie”, que designa a ciência da história, e “Geschichte”, a história enquanto tem lugar (geschieht). Como escreve Corbin, geschehen, para Heidegger, não equivale a um devir, a uma evolução natural ou a um elã vital; marca a estrutura absoluta própria da realidade-humana (Dasein) que (…) torna possível a historicidade do mundo. Para tornar sensível esta relação (da História ao Dasein), recorremos ao ao francês arcaico, no termo historial; este adjetivo equivalia à histórico, mas caiu em desuso, e assim o demos vida nova o incorporando como “nome verbal” a nosso léxico.” Historial nomeia assim o Dasein ele mesmo na medida que ele tem lugar e é lugar de ser. Mas Geschichte remete a Geschick   (o destino) e ao verbo schicken (enviar). O homem, como Dasein, é o destinatário de uma História pela qual deve ser o lugar aberto; é acordadeo a este “destino” na medida que é aquele que responde. Destinatário, mas jamais destinador, pois o historial não é criado pelo homem, somente confiado, remetido. [adaptado do glossário de M. Froment-Meurice]

Observações

[1Mais uma vez: a possibilidade, em Ser e Tempo, não é diametralmente oposta à realidade.

[2A tradução de Geschehen por “historização” (como em Macquarrie and Robinson) não captura esse sentido plenamente.