Patocka (1995:145-148) – ser em mim, para mim e para outro

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O meu ser em mim mesmo tem a sua originalidade insubstituível no fluxo do tempo interno que nenhum outro pode penetrar, porque este jorro de tempo interno é uma efetivação totalmente privada que constitui o meu próprio ser; o apagamento do seu limite implicaria a eliminação da diferença entre o eu e o tu.

O meu ser para mim mesmo já é uma alienação dessa originalidade e uma objetivação; no meu ser para mim já estou à distância de mim mesmo, já não estou vivo, mas vivido e, como tal, em diferentes graus, publicado.

O meu ser para outro é algo que tem a sua própria originalidade, que eu próprio não posso alcançar de novo nesta forma. Sei que sou para outros, tal como os outros são para mim, mas não tenho, como o outro, a presença sensível e original da minha aparência na totalidade.

O ser do outro para mim tem também uma originariedade própria que não coincide com o seu ser em si, mas é simplesmente sincrônico com ele. O núcleo da originariedade do outro para mim é a possibilidade de o percecionar como tal. A originariedade do outro pode, no entanto, manifestar-se também como a sua ação operativa no meu mundo na sua ausência, isto é, fora da originariedade do dado sensível do seu fenômeno corporal; o outro manifesta-se assim por atos, digamos por uma carta em que pela primeira vez aprendo a conhecê-lo como cruel, irrefletido ou, pelo contrário, atento, cheio de solicitude… De acordo com uma concepção muito ampla desta originariedade, podemos mesmo dizer que o horizonte interno do outro só pode ser explicado nos seus atos, cujos resultados tenho agora diante de mim sob uma forma perceptualmente sensível.

Erika Abrams

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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