Patocka (1995:145-148) – para qual modo de ser passa o morto?

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Qualquer ser para outro que não seja um mero quase-ser teve a sua originalidade para si mesmo, coisa que nada, nenhuma cessação dessa originalidade, lhe pode tirar. Qualquer ser para um outro permanece sempre um ser com a sua própria originalidade interna, exceto que, no caso dos mortos, essa originalidade chegou ao fim e já não é sincrônica conosco. Não se trata, portanto, de uma passagem ao puro ser para os outros, no sentido de um quase-ser (de uma personagem de um romance, de uma ficção, de uma imaginação). Pelo contrário, o núcleo permanece: um ser que teve a sua própria originalidade, mas que agora não é mais do que um objeto, o objeto idêntico das nossas relações com ele, sem reciprocidade. A reciprocidade é o fator fundamental da sincronia das duas originalidades: a originalidade do ser do outro para comigo (com a minha consciência da sua originalidade para mim) e a minha originalidade para o outro (com a sua consciência do meu ser original em mim). Com a morte, a originalidade do ser-para-si do outro transforma-se na originalidade do seu não-ser para si; esta mudança deve-se à falta de reciprocidade; a pessoa morta não responde, não colabora, não co-percebe, não faz absolutamente nada, eclipsou tudo isso para se tornar um mero objeto que já não tem o sentido de um “um-com-o-outro”, de uma participação nos empreendimentos, funções e interesses humanos. Esta participação é algo que se realiza essencialmente na reciprocidade — a vida é vida na reciprocidade e, portanto, na dualidade do ser em si e do ser para si.

Erika Abrams

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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