GA9:516-517 – Möglichkeit – Possibilidade

Carneiro Leão

Também os nomes, “Lógica”, “Ética”, “Física”, só surgiram quando o pensamento originário chegou ao fim. Em seus grandes tempos, os gregos pensaram sem esses títulos. Nem mesmo de “filosofia” chamaram o pensamento. Este chega sempre ao fim, quando se afasta de seu elemento. O elemento é àquilo a partir do qual o pensamento pode ser pensamento. O elemento é o propriamente poderoso: o poder. Ele se apega ao pensamento e assim o conduz à sua Essência. Dito sem rodeios, o pensamento é o pensamento do Ser. O genitivo exprime duas coisas. O pensamento é do Ser, enquanto, provocado pelo Ser em sua propriedade (ereignen), pertence ao Ser. O pensamento é ainda pensamento do Ser, enquanto, pertencendo ao Ser, ausculta o Ser. Enquanto, auscultando, pertence 1 ao Ser, o pensamento é de acordo com a pro-veniência de sua Essência. O pensamento é, isso significa: o Ser se apegou, num destino Histórico 2, à sua Essência. Apegar-se a uma “coisa” ou “pessoa” em sua Essência, quer dizer: amá-la, querê-la. Pensando de modo mais originário, querer significa essencializar, dar Essência. Esse querer (moegen) é que constitui a própria Essência do poder 3, que não somente pode realizar isso ou aquilo mas também deixa uma coisa “vigorar” em sua pro-veniência, isto é, deixa que ela seja. O poder do querer é aquilo em cuja “força” uma coisa pode propriamente ser. Esse poder é o “possível” em sentido próprio, a saber, aquilo cuja Essência se funda no querer. É por esse querer que o Ser pode pensar. O Ser possibilita o pensar. Querer poderoso 4, o Ser é o “possível”. Como o elemento, o Ser é “a força silenciosa” do poder que quer, isto é, do possível. Sem dúvida, sob o domínio da “lógica” e da “metafísica”, só se pensam as palavras “possível” e “possibilidade” em oposição a “realidade” isto é, a partir de determinada interpretação do Ser, qual seja, da interpretação metafísica do Ser, como atus e potentia. Essa interpretação se identifica com a distinção de existentia e essentia. Quando falo da “força silenciosa do possível”, não me refiro ao possibile de uma possibilitas meramente representada (vorgestellt) nem a potentia como essentia de um atus de existentia. Refiro-me ao Ser mesmo que, querendo, tem poder sobre o pensamento e assim sobre a Essência do homem, o que significa, sobre a re-ferência do homem ao Ser. Poder alguma coisa significa: pre-servá-la em sua Essência, con-servá-la em seu elemento. (p. 29-30)

Capuzzi

Munier

Original

  1. Auscultando… pertence = hoerend… gehoert: aqui se faz referência à interdependência dos dois verbos, hoeren (ouvir, auscultar) gehoeren (pertencer), a um mesmo radical.[↩]
  2. Destino Histórico = geschicklich: da palavra, Geschick (destino) formou Heidegger o adjetivo, geschick-lich, que não existe no alemão corrente. Geshick (destino) deriva-se de schicken (enviar, destinar). Dentro do pensamento Heideggeriano, Geschick (destino) é tomado em sentido ativo, como o que destina e assim dáorigem à História (Geschichte) . Por isso o adjetivo do texto é traduzido por: “num destino histórico”.[↩]
  3. Esse querer é que constitui a própria Essência do poder… = solches Moegen ist das eigentliche Wesen dos Vermoegens…: o verbo moegen, que significa querer e gostar, possui um derivado, ver-moegen, que diz poder. Heidegger determina a Essência propria de ver-moegen (poder) e de moeg-lich (possível), pelo sentido originário de moegen (querer). Querer é poder.[↩]
  4. Querer poderoso = das Vermoegend – Moegende: nessa locução se exprime que a Essência primária do “possível” é a estrutura instaurada pela dialética do vigor originário de querer (moegen) e poder (ver-moegen).[↩]
  5. First edition, 1949: Only a pointer in the language of metaphysics. For “Ereignis,” “event of appropriation,” has been the guiding word of my thinking since 1936.[↩]
  6. Heidegger rapproche gehören: appartenir, de hören: écouter.[↩]
  7. Geschicklich: le mot n’existe pas dans la langue courante. Heidegger le forme à partir de Geschick: destin. Geschick est souvent rapproché de schicken: envoyer. Par exemple: « Das Sein als das Geschick das Wahrheit sckickt… » (p. 115). Le jeu de mots est également possible en français si l’on prend destin au sens de: ce qui destine. C’est pourquoi nous traduisons à chaque fois schicken par destiner et Geschick par destin.[↩]
  8. Mögen. Dans ce passage, Heidegger joue sur la polyvalence de ce mot qui signifie à la fois: pouvoir, désirer, aimer.[↩]
  9. Sein lassen peut aussi vouloir dire: laisser être; il faut lui maintenir également ce sens.[↩]
  10. Auflage 1949: Nur ein Wink in der Sprache der Metaphysik. Denn »Ereignis« seit 1936 das Leitwort meines Denkens.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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