GA9:418-419 – limites da representação científica

Giachini & Stein

A representação das ciências se dirige por toda parte ao ente, e, em verdade, a regiões delimitadas do ente. Tratava-se de partir dessa representação do ente e, seguindo-a, transigir com uma opinião muito cara às ciências. Elas pensam que com a representação do ente se esgota toda circunscrição do investigável e problemático; de que fora do ente não existe “mais nada”. Essa opinião das ciências é assumida provisoriamente na pergunta acerca da essência da metafísica e, aparentemente, compartilhada com elas. Entretanto, cada um que sabe refletir já deve saber que uma pergunta acerca da essência da metafísica só pode ter em mira o que caracteriza a meta-física: isto é, a ultrapassagem: o ser do ente. Em contrapartida, na perspectiva da representação científica que não conhece senão o ente, aquilo que de modo algum é ente (a saber, o ser) só pode se oferecer como o nada. Por isto, a preleção pergunta por esse nada. Ela não pergunta arbitrária e indeterminadamente pelo nada. Ela pergunta: qual é a situação daquilo que é totalmente diferente com relação a qualquer ente, daquilo que não é um ente? Neste caso, vem à tona o seguinte: o ser-aí do homem “está suspenso” neste nada que é totalmente diferente do ente. Expresso de outra maneira, isto significa e só podia significar: “O homem é o lugar-tenente do nada”. A proposição diz: o homem mantém livre o lugar para o totalmente outro do ente, de modo que, em sua abertura, possa se dar algo assim como pre-sença (ser). Esse nada que não é o ente e que, contudo, se dá, não é nada nulo. Ele pertence ao pre-sentar-se. Ser e nada não “se” dão lado a lado. Um se emprega pelo outro em um parentesco, cuja plenitude essencial ainda mal consideramos. Nós também não chegaremos a considerá-la enquanto deixarmos de (429) perguntar: qual é o “se” que se visa e que aqui “dá”? Em que dar ele se dá? Em que medida pertence a este “dá-se ser e nada” algo tal que se dá a este dom, na medida em que o conserva? Dizemos leviamente: dá-se. O ser “é” tão pouco quanto o nada. Ambos, porém, se dão.

Leonardo da Vinci escreve: “O nada não tem centro, e seus limites são o nada”. “Entre as coisas grandes que se podem encontrar entre nós, o ser do nada é a maior” (Diários e notas, traduzidos conforme os manuscritos italianos para o alemão e editados por Theodor Lucke, 1940, p. 4s). A palavra deste grande homem não pode nem deve provar nada; mas ela aponta para as perguntas: De que maneira dá-se ser, dá-se nada? De onde nos vem um tal dar? Em que medida estamos já entregues a ele enquanto somos seres humanos? [HEIDEGGER, Martin. Marcas do Caminho. Tr. Enio Paulo Giachini & Ernildo Stein. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 428-429]

Cortés & Leyte

McNeill

Original

  1. N. de los T: ‘lugar-teniente’ en sentido literal, en alemán «Platzhalter».[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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