GA9:216-218 – paideia

Giachini & Stein

E como o olho corporal deve readaptar-se devagar e sempre de novo, seja na claridade, seja no escuro, também a alma, com paciência e com os passos sequenciais adequados, deve acostumar-se ao âmbito do ente ao qual está exposta. Mas esse acostumar-se requer, antes de tudo, que a alma se volte inteiramente para a direção fundamental de sua busca, assim como o olho também só consegue enxergar direito e em todas as direções quando o corpo na totalidade tiver ocupado seu lugar correspondente.

Mas por que é que em cada âmbito a adaptação deve ser constante e lenta? Porque a transformação concerne ao ser homem e, por isto, se realiza no fundo de sua essência. Isto significa: a postura, que serve de medida e que deve surgir por meio de uma guinada, precisa ser desenvolvida a partir de um empuxo que já sustenta a essência do homem até atingir um comportamento firme. Esta mudança de hábito e este movimento de se reacostumar da essência do homem com o âmbito que lhe é indicado a cada vez é a essência do que Platão chama de παιδεία. Não há como traduzir esta palavra. Em Platão, de acordo com a determinação de sua essência, παιδεία significa a περιαγωγη όλης της ψυχής, a guia que conduz para a transformação de todo o homem em sua essência. É por isto que a παιδεία é essencialmente uma transição, e, em verdade, da άπαιδευσία para a παιδεία. De acordo (229) como o caráter dessa transição, a παιδεία permanece referida constantemente à άπαιδευσία. Embora não de modo pleno, à palavra παιδεία corresponde o melhor possível a palavra alemã “Bildung” (formação). Todavia, precisamos devolver a essa palavra a sua força original de nomeação, esquecendo a falsa interpretação na qual ela decaiu ao final do século XIX. “Bildung” (formação) significa duas coisas: “Bildung” (formação) é, por um lado, bilden (formar), no sentido de uma cunhagem que se vai desenvolvendo. Esse “bilden” (formar), porém, bildet (forma) (cunha) de imediato a partir de uma conformação prévia a uma visão normatizadora, que se chama justo por isto de paradigma. “Bildung” (formação) é ao mesmo tempo cunhagem e guia por meio de uma imagem. A essência oposta à παιδεία é a άπαιδευσία, a Bildungslosigkeit (falta de formação). Nela, nem se despertou o desenvolvimento da postura fundamental, nem se propôs o paradigma normatizador.

A força interpretativa da “alegoria da caverna” concentra-se em tornar visível e cognoscível a essência da παιδεία na plasticidade da história narrada. Em forma de rechaço, Platão quer mostrar também que a παιδεία não tem a sua essência em entulhar a alma despreparada com meros conhecimentos, como se faz com um recipiente vazio, que se apresenta arbitrariamente. Contrariamente a isto, a verdadeira formação apanha e transforma a própria alma na totalidade, alocando o homem antes de tudo em seu lugar essencial e com ele acostumando-o. O fato de, na “alegoria da caverna”, a παιδεία precisar ser apresentada em imagens, isto é algo que já vem expresso de modo suficientemente claro na frase exposta por Platão no começo do livro VII, que introduz a narrativa: (…) “Depois disto, portanto, cria para ti a partir da experiência (apresentada a seguir) uma visão (da essência) da ‘formação’ tanto quanto da falta de formação, o que (por certo copertinente) diz respeito ao nosso ser humano em seu fundamento”. (p. 228-229)

Cortés & Leyte

Sheehan

Original

  1. N. de los T.: la traducción corriente del alemán «Bildung» es ‘formación, ‘educación’, pero hay que tener en cuenta que incluye en su raíz la palabra «Bild», que significa ‘imagen, ‘modelo’, etc.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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