GA9:130-133 – ôntico e ontológico

Ernildo Stein

Pode-se, entretanto, conseguir algo ainda mais originário sobre a delimitação da essência da verdade como caráter da enunciação? Nada menos que a compreensão de que esta determinação essencial da verdade — seja formulada como for em particular — é, por certo, ineludível, mas, todavia, derivada. 1 A concordância do nexus com o ente e, como consequência, seu acordo, não tornam como tais primeiramente acessível o ente. Este deve, muito antes, como possível objeto (Worüber) de uma determinação predicativa, estar manifesto antes desta predicação e para ela. A predicação deve, para tornar-se possível, radicar-se num âmbito revelador, que possui caráter não predicativo. A verdade da proposição está radicada numa verdade mais originaria (desvelamento), na revelação antepredicativa do ente que podemos chamar de verdade ôntica. De acordo com as diversas espécies e áreas do ente modifica-se o caráter de seu possível grau de revelação e dos modos de determinação explicativa que dele fazem parte. Assim se distingue, por exemplo, a verdade do puramente subsistente (por exemplo, as coisas materiais) como descoberta, especificamente da verdade do ente que nós mesmos somos, da abertura, do ser-aí existente 2. Por mais variadas que sejam as diferenças de ambas as espécies de verdade ôntica, para toda revelação antepredicativa vale o fato de que o âmbito revelador nunca possui, primariamente, o caráter de uma pura representação (intuição), nem mesmo na contemplação “estética”. A caracterização da verdade antepredicativa como intuição se insinua com facilidade pelo fato de a verdade ôntica, e aparentemente a verdade propriamente dita, ser determinada como verdade proporcional, isto é, como “união da representação”. O mais simples em face desta é, então, um puro representar, livre de toda união predicativa. Este representar tem, não há dúvida, sua função própria para a objetivação do ente, certamente, então já sempre necessariamente revelado. A revelação ôntica mesma, porém, acontece num sentir-se situado em meio ao ente, marcado pela disposição de humor, pela impulsividade e em comportamentos em face do ente, tendências e volitivos que se fundam naquele sentimento de situação 3. Contudo, mesmo estes comportamentos não seriam capazes de tornar acessível o ente em si mesmo, interpretados como antepredicativos ou como predicativos, se sua ação reveladora não fosse sempre antes iluminada e conduzida por uma compreensão do ser (constituição do ser: que-ser e como-ser) do ente. Desvelamento do ser é o que primeiramente possibilita o grau de revelação do ente. Este desvelamento como verdade sobre o ser é chamado verdade ontológica. Não há dúvida, os termos ‘ontologia’ e “ontológico” são multívocos, e de tal maneira que, justamente, escondem o problema propriamente dito de uma ontologia. Logos do on significa: o interpelar (legein) do ente enquanto ente, significa, porém, ao mesmo tempo o horizonte (woraufhin) em direção do qual o ente é interpelado (legomenon). Interpelar algo enquanto algo não significa ainda necessariamente: compreender o assim interpelado em sua essência. A compreensão do ser (logos num sentido bem amplo), que previamente ilumina e orienta todo o comportamento para o ente, não é nem um captar o ser como tal nem um reduzir ao conceito o assim captado (logos no sentido mais estrito — conceito “ontológico”). A compreensão do ser, ainda não reduzida ao conceito, designamos, por isso, compreensão pré-ontológica ou também ontológica, em sentido mais amplo. Conceituar o ser pressupõe que a compreensão do ser se tenha elaborado a si mesma e que tenha transformado propriamente em tema e problema o ser nela compreendido, projetado em geral e de alguma maneira desvelado. Entre compreensão pré-ontológica do ser e expressa problematização da conceituação do ser, há muitos graus. Um grau característico é, por exemplo, o projeto da constituição do ser do ente, através do qual é, concomitantemente, delimitado um determinado campo (natureza, história) como área de possível objetivação através do conhecimento científico. A prévia determinação do ser (que-ser e como-ser) da natureza em geral se fixa nos “conceitos fundamentais” da respectiva ciência. Nestes conceitos são, por exemplo, delimitados espaço, lugar, tempo, movimento, massa, força, velocidade; todavia, a essência do tempo, do movimento, não é propriamente problematizada. A compreensão ontológica do ente puramente subsistente é aqui reduzida a um conceito, mas a determinação conceitual de tempo e lugar etc., as definições, são reguladas, em seu ponto de partida e amplitude, unicamente pelo questionamento fundamental que na respectiva ciência é dirigido ao ente. Os conceitos fundamentais da ciência atual não contêm, nem já os “autênticos” conceitos ontológicos do ser do respectivo ente nem podem estes ser simplesmente conquistados por uma “adequada” ampliação daqueles. Muito antes, devem ser conquistados os originários conceitos ontológicos antes de toda definição científica dos conceitos fundamentais, de tal modo que, a partir daqueles, se torne possível estimar de que maneira restritiva e, em cada caso, delimitadora a partir de um ponto de vista, os conceitos fundamentais das ciências atingem o ser, somente captável em conceitos puramente ontológicos. O “fato” das ciências, isto é, conteúdo fático de compreensão do ser que elas necessariamente encerram, como qualquer comportamento para com o ente, não é nem instância fundadora para o a priori nem a fonte do conhecimento do mesmo, mas é apenas uma possível e motivadora orientação que aponta para a originária constituição ontológica, por exemplo, de história ou de natureza, orientação que ainda, por sua vez, deve permanecer submetida a constante crítica, que já recebeu os pontos que tem em mira da problemática fundamental de todo o questionamento do ser do ente. (GA9PT:117-118)

Cortés & Leyte

Henry Corbin

Original


  1. desocultamiento ↩

  1. Cf. M. Heidegger, Ser e Tempo 1, 1927 (Anuário de Filosofia e Pesquisa Fenomenológica, vol. VIII), § 44, pp. 212-230; sobre a enunciação § 33, p. 154 ss. — A paginação concorda com a edição em separado da obra. (N. do A.)[↩]
  2. Cf. ibidem § 60, p. 295 ss. (N. do A.)[↩]
  3. Sobre “sentimento de situação”, cf. ibidem § 29, p. 134 ss. (N. do A.)[↩]
  4. Vid. Martin Heidegger, Ser y tiempo I, 1927 (Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung, vol. VIII), § 44, pp. 212-230; sobre el enunciado, § 33, pp. 154 ss. Los números de páginas coinciden con los de la edición especial.[↩]
  5. N. de los T.: traducimos el término «Entdeckheit».[↩]
  6. N. de los T.: para la traducción de este término, vid. nota 9 del primer ensayo de esta obra. p. 42.[↩]
  7. Vid. loc. cit. § 60, pp. 295 ss.[↩]
  8. 1.a ed. (1929): aquí hay que fijarse en el origen histórico de physisnoeineinai es esencial.[↩]
  9. Sobre el «encontrarse situado», vid. loc. cit. § 29, pp. 134 ss.[↩]
  10. 1.a ed. (1929): aquí en referencia a la apertura de lo cerrado como redondeamiento (εύκυκλέοί, Parménides) del ser-aquí; el claro del aquí, no derivable de la psicología; estas capacidades son más bien posibles solamente sobre el fundamento del ser-aquí.[↩]
  11. N. de los T.: en el sentido de ‘quitar el velo’ o «develar».[↩]
  12. 1.a ed. (1929): ¡no está claro! La verdad ontológica es el desvelar de la entidad — mediante categorías — , pero la entidad como tal es ya una determinada verdad del ser, el claro de su venida a la presencia. Esta distinción, «verdad óntico-ontológica», sólo es una reduplicación del desocultamiento y en un principio permanece anclada en el planteamiento platónico. Con esto sólo se indica, desde lo dicho hasta ahora, la dirección de la superación, pero no se lleva a cabo ni se fundamenta una superación que parta de su propio fundamento.[↩]
  13. 1.a ed. (1929): aquí se trata del proceder equivocado de una mera ampliación del pensar ontológico-metafísico a la pregunta por la verdad del ser.[↩]
  14. 1.a ed. (1929): captar el ser: a) desde el punto de vista metafísico-categorial, o b) de un modo completamente distinto como proyecto de presentación esencial de la verdad del ser.[↩]
  15. Cf. Martin Heidegger, Sein und Zeit, I, 1927, § 44, p. 213-230. Sur le « jugement » : cf. Ibid., § 33, p. 154 sq.[↩]
  16. Cf. Ibid., § 60, p. 295 eq.[↩]
  17. Sur cette situation-affective (Befindlichkeit), et. Ibid., §.29, p. 134 sq.[↩]
  18. Vgl. M. Heidegger, Sein und Zeit I, 1927 (Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung, Bd« VIII), §44, S. 212-230; über die Aussage § 33, S. 154 ff. — Die Seitenzahlen stimmen mit denen des Sonderdruckes überein.[↩]
  19. Vgl. a. a. O. §60, S. 295 ff.[↩]
  20. 1. Auflage 1929: Beachte hier: der geschichtliche Ursprung aus φύσις: νοεῖν — εἶναι ist wesentlich.[↩]
  21. Über »Befindlichkeit« vgl. a. a. O. § 29, S. 134 ff.[↩]
  22. 1. Auflage 1929: Hier auf Offenheit des Verschlossenen als Rundung (εὐκυκλέος, Parmenides) des Da-seins; Lichtung des Da, nicht von Psychologie her, vielmehr diese Vermögen erst auf dem Grunde des Da-seins.[↩]
  23. 1. Auflage 1929: Unklar! Ontologische Wahrheit ist Enthüllen der Seiendheit — durch die Kategorien — aber Seiendheit als solche bereits eine bestimmte Wahrheit des Seyns, Lichtung seiner Wesung. Diese Unterscheidung »ontisch-ontologische Wahrheit« ist nur eine Verdoppelung der Unverborgenheit und bleibt zunächst im Platonischen Ansatz stecken. Damit nur aus dem Bisherigen her die Richtung der Überwindung gewiesen, aber nidit eine Überwindung aus ihrem eigenen Grunde vollzogen und gegründet.[↩]
  24. 1. Auflage 1929: Hier das irrige Vorgeben der bloßen Erweiterung des ontologisch-metaphysischen Denkens auf die Frage nach der Wahrheit des Seyns.[↩]
  25. 1. Auflage 1929: Erfassen des Seins: a) kategorial-metaphysisch, oder b) ganz anders als Entwurf der Wesung der Wahrheit des Seyns.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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