De onde é que Leibniz retira, portanto, o fio condutor para a determinação do ser do ente? (Leitfaden für die Bestimmung des Seins des Seienden) Ser é interpretado em analogia com a alma, a vida e o espírito. O fio condutor é o ego (Der Leitfaden ist das ego).
O fato de os conceitos (Begriff) e a verdade (Wahrheit) também não terem a sua origem nos sentidos, mas brotarem no eu e no entendimento (sondern im Ich und im Verstand entspringen) é mostrado na carta à rainha Sofia Carlota da Prússia, Lettre touchant ce qui est indépendant des sens et de la Matière. “Sobre aquilo que se encontra além dos sentidos e da matéria” (1702; Gerh. VI, 499ss; Livro II, 410s.).
Esta carta é de grande importância para todo o problema da função de fio condutor que é própria à auto-reflexão e à autoconsciência (Problem der Leitfadenfunktion der Selbstbetrachtung und des Selbstbewußtseins) como tais. Nela, Leibniz diz: Cette pensée de moy, qui m’apperçois des objets sensibles, et de ma propre action qui en resulte, adjoute quelque chose aux objets des sens. Penser à quelque couleur et considerer qu’on y pense, ce sont deux pensées très differentes, autant que la couleur même differe de moy qui y pense. Et comme je conçois que d’autres Estres peuvent aussi avoir le droit de dire moy, ou qu’on pourroit le dire pour eux, c’est par là que je conçois ce qu’on appelle la substance en general, et c’est aussi la consideration de moy même, qui me fournit d’autres notions de metaphysique, comme de cause, effect, action, similitude etc., et même celles de la Logique et de la Morale (Gerh. VI, 502; Livro II, 414). “Este pensamento de mim mesmo (Dieser Gedanke meiner selbst), que me apercebo dos objetos sensíveis e de minha própria atividade ligada com uma tal apercepção, acrescenta algo aos objetos dos sentidos. É completamente diferente pensar em uma cor e refletir ao mesmo tempo sobre esse pensamento; assim como a cor é diferente do eu que a pensa. E como percebo que outros seres também têm o direito de dizer eu ou que se poderia dizê-lo por eles, compreendo a partir daí o que [99] se designa de maneira totalmente genérica como substância (Substanz). Além disto, é a consideração de mim mesmo (Betrachtung meiner selbst) que me fornece igualmente outros conceitos metafísicos como os de causa, efeito, atividade, similitude, etc. e até mesmo os conceitos fundamentais da Lógica e da Moral”.
L’Estre même et la Verité ne s’apprend pas tout à fait par les sens (Gerh. VI, 502; Livro II, 414). “O ser mesmo e a verdade não podem ser compreendidos apenas a partir dos sentidos” (Das Sein selbst und die Wahrheit läßt sich aus den Sinnen allein nicht verstehen). Cette conception de l’Estre et de la Vérité se trouve donc dans ce Moy, et dans l’Entendement plustost que dans les sens externes et dans la perceptlon des objets exterieurs (Gerh. VI, 503; Livro II, 415). “Este conceito do ser e da verdade encontra-se, portanto, antes no ‘eu’ e no entendimento do que nos sentidos exteriores e na percepção dos objetos exteriores” (Dieser Begriff des Seins und der Wahrheit findet sich also eher im ›Ich‹ und im Verstände als in den äußeren Sinnen und in der Perception der äußeren Gegenstände).
No que se refere ao conhecimento do ser em geral, Leibniz diz em Nouv. Ess. (Livro I, Cap. 1, § 23): Et je voudrois bien savoir, comment nous pourrions avoir l’idée de l’estre, si nous n’estions des Estres nous mêmes, et ne trouvions ainsi l’estre en nous (cf. também § 21, bem como Monadologia, § 30). Também aqui, ainda que equivocamente, ser e subjetividade são colocados juntos. Não teríamos a ideia do ser, se nós mesmos não fôssemos entes e não encontrássemos o ente em nós.
É claro que precisamos ser – pensa Leibniz – para podermos possuir a ideia do ser. Dito metafisicamente: constitui justamente a nossa essência o fato de não podermos ser aquilo que somos, sem a ideia do ser. A compreensão de ser é constitutiva para o ser-aí (Seinsverständnis ist konstitutiv für das Dasein) (Discours, § 27).
Disto, porém, não se segue o fato de conquistarmos a ideia ao retomarmos a nós mesmos enquanto entes.
Nós mesmos somos a fonte da ideia de ser. – Mas esta fonte deve ser entendida como a transcendência do ser-aí ek-stático (Transzendenz des ekstatischen Daseins). É somente no fundamento da transcendência que se dá a articulação dos diversos modos de ser (Seinsweisen). Um problema difícil e último é a determinação da ideia de ser como tal.
[100] Pelo fato de a compreensão de ser fazer parte do sujeito enquanto o ser-aí que transcende, a ideia do ser pode ser tirada do sujeito.O que resulta de tudo isto? Primeiramente, que Leibniz – mantidas todas as diferenças em face de Descartes – retém com este a certeza que o eu possui de si mesmo como a certeza primária, que ele vê como Descartes no eu, no ego cogito, a dimensão a partir da qual devem ser gerados todos os conceitos metafísicos fundamentais. Procura-se resolver o problema do ser como o problema fundamental de toda metafísica, retornando ao sujeito. Apesar disso, em Leibniz tanto quanto em seus precursores e sucessores, este retomo ao eu permanece ambíguo, porque o eu não é captado em sua estrutura essencial e em seu modo específico de ser.
A função de fio condutor do ego, porém, é sob muitos pontos de vista plurissignificativa. Em relação ao problema do ser, o sujeito é por um lado o ente exemplar. Ele mesmo fornece, enquanto ente, com o seu ser a ideia de ser como tal. Por outro lado, porém, o sujeito é enquanto aquele que compreende o ser; enquanto ente dotado de uma configuração determinada, o sujeito tem em seu ser a compreensão do ser; o que não quer dizer que ser designe apenas: ser-aí existente. (GA9PT:98-100)