GA73T1:878-879 – o que é o necessário? o que é o livre?

Ana Falcato

Estar-privado, de verdade, quer dizer: não poder ser sem o não-necessário e, assim, pertencer apenas ao não-necessário.

Mas, que é o não-necessário? Que é o necessário? Que quer dizer “necessário”? Necessário é o que provém da necessidade e vem pela necessidade. E o que é a necessidade? A essência da necessidade é, de acordo com o sentido fundamental da palavra, o constrangimento (Zwang). O relativo à necessidade (Nothaft), o necessário e o necessitante (Nötigende) é o que constrange2, nomeadamente, o que constrange a que, na nossa “vida”, para a sua conservação, haja carências e nos constrange a satisfazer exclusivamente essas carências. O não-necessário é aquilo que não provém da necessidade, quer dizer, não provém do constrangimento, mas daquilo que é livre.

Então, o que é o livre (Freie)? De acordo com o que se pode pressentir no dizer da nossa língua mais antiga, das Freie, Frî, é o ileso, o zelado, aquilo que não é posto em uso. “Liberar” (freien) quer dizer, originária e propriamente: zelar (schonen), deixar que algo repouse na sua essência, protegendo-o. Mas proteger é reter a essência no abrigo, em que ela apenas permanece se lhe for permitido o regresso ao repousar na própria essência. “Proteger” é ajudar continuamente este repouso, aguardar pelo seu regresso. Só isto é a essência do que acontece no zelar, que não se esgota, de forma alguma, no negativo do não-tocar em ou do mero não-utilizar.

O livre repousa no zelar, em sentido próprio. O liberto (Befreite) é o que é deixado na sua essência e preservado de toda o constrangimento da necessidade. O que libera na liberdade desvia ou vira (wendet ab oder um), de antemão, a necessidade. A liberdade é o virar da necessidade (das Not Wenden). Só na liberdade e no seu livre zelar é que reina a Necessidade (Notwendigkeit). Portanto, se pensamos na essência da liberdade e da Necessidade3, então a Necessidade não é, de maneira nenhuma, o contrário da liberdade, como a viu toda a Metafísica, mas só a liberdade é, em si, a viragem da Necessidade.

A Metafísica vai tão longe que ensina, com Kant, que a Necessidade, isto é, o constrangimento do dever e o constrangimento vazio da obrigação (Pflicht) pela obrigação, seria a verdadeira liberdade. A essência metafísica da liberdade culmina em que a liberdade se torna “expressão” da Necessidade, a partir da qual a vontade de poder se quer a si mesma como a realidade efectiva e como a própria vida. No sentido da vontade de poder, Jünger, por exemplo, escreve, o seguinte: «Entre os sinais distintivos da liberdade está a certeza de participar no cerne germinal do tempo –, uma certeza que, maravilhosamente, dá asas aos actos e aos pensamentos e na qual a liberdade daquele que age se conhece como expressão particular do Necessário.» (Der Arbeiter, 57).

Mas, se se pensa a inversão mais profundamente, então tudo é invertido. A liberdade é a Necessidade, na medida em que o que libera, não urgido (Genötigte) pela necessidade, é o não-necessário.

Irene Agoff

Original

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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