GA6T1:276-277 – totalidade – Dasein – vida

Casanova

Nietzsche não fala do ente na totalidade. Usamos essa expressão a fim de denominar inicialmente tudo o que não é pura e simplesmente nada; a natureza, o inanimado e o vivente, a história, suas produções, seus configuradores e promotores, Deus, os deuses e os semideuses. Também denominamos ente o que vem a ser, o que surge e perece. Pois ou bem ele já não é mais ou ainda não é o nada. Também denominamos ente a aparência, a semblância, a ilusão e o falso. Se estes não fossem entes, não poderíam iludir nem nos deixar perplexos. Tudo isso é pensado concomitantemente na expressão “o ente na totalidade”. Até mesmo seus limites, o não-ente pura e simplesmente, o nada, ainda pertencem ao ente na totalidade, na medida em que sem esse ente tampouco haveria um nada. Ao mesmo tempo, porém, essa expressão denomina “o ente na totalidade” como aquilo pelo que se pergunta, o que é digno de questão. Nessa expressão permanece aberto o que o ente como tal é afinal, e como ele é. Dessa feita, a palavra é apenas um nome coletivo. Todavia, reúne o ente a fim de tê-lo junto consigo para a pergunta sobre o tipo de reunião que lhe é próprio. A expressão “o ente na totalidade” designa, com isso, o que há de mais questionável e é, com isso, a expressão mais digna de questão.

Nietzsche, em contrapartida, é aqui efetivamente mais seguro em seu uso linguístico, mas não é univoco. Quando tem em vista toda realidade ou o todo, ele diz “o mundo” ou “a existência”; esse uso linguístico provém de Kant. Quando coloca a questão sobre se a existência tem um sentido ou sobre se pode ser determinado um sentido para a existência em geral, então a significação de “existência” pode ser equiparada de maneira rudimentar e com algumas reservas ao que nós mesmos denominamos o ente na totalidade. “Existência” tem, para Nietzsche, a significação igualmente ampla de “mundo”; no lugar deste último (215) termo, ele também diz “vida”, e não tem em vista, com isso, apenas a vida humana e a existência humana. Nós, por outro lado, só usamos o termo “vida” para a designação do ente vegetal e animal. Desde o princípio, nós os diferenciamos, assim, do ser humano, que é sempre mais e sempre diverso da mera “vida”. No sentido pleno do termo, a palavra “existência” (ser-aí) nos diz algo que não equivale de maneira alguma ao ser humano, e que é inteiramente diverso do que Nietzsche e a tradição antes dele compreendem por existência (ser-aí). O que designamos com o termo “existência” (ser-aí) não tem um precursor na história da filosofia até aqui. Essa diversidade do uso linguístico não repousa sobre uma teimosia casual. Por trás daí subjazem necessidades históricas essenciais. No entanto, essas diferenças de linguagem não devem ser dominadas por um aprendizado e por uma observação extrínsecos. Ao contrário, precisamos penetrar na formação que conduz até a palavra a partir de uma confrontação com a coisa mesma (no que concerne ao conceito nietzschiano de “existência”, cf., por exemplo, A gaia ciência, Livro IV, n. 341, 357, 373 e 374). (V1, 2007, p. 214-215)

Klossowski

Farrell Krell

Original

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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