GA6T1:271-273 – o peso do pensamento

Casanova

Para a compreensão da doutrina do eterno retorno, tão importante quanto o fato de Nietzsche comunicá-la pela primeira vez na conclusão de A gaia ciência é o modo como ele caracteriza aí, de antemão, o pensamento do eterno retorno. O aforismo em questão traz o título: “O peso mais pesado”. O pensamento como peso! O que nos representamos ao ouvirmos a expressão “peso”? O peso impede o movimento vacilante, traz consigo uma quietude e firmeza, atrai todas as forças para si, as reúne e dá determinação. Um peso puxa ao mesmo tempo para baixo e nos compele, com isso, constantemente para nos mantermos eretos. No entanto, ele também se mostra como o risco de escorregar para baixo e permanecer embaixo. Dessa feita, um peso é também um obstáculo que exige ser constantemente tomado e superado. Todavia, um peso não cria novas forças. Ao contrário, ele transforma a direção de seu movimento e cria, assim, novas leis de movimento para a força disponível.

Ora, mas como é que um pensamento pode ser um peso, isto é, como é que ele pode se mostrar como determinante sob os modos citados da fixação, da reunião, da atração, da obstaculização e da alteração de direção? E o que ele deve determinar? A quem o peso deve ser anexado e em quem ele deve ser inculcado? Quem deve levá-lo para cima consigo, a fim de que não permaneça embaixo? Nietzsche o diz quase no fim do aforismo: o pensamento residiria como a questão “tu queres isso uma vez mais e ainda incontáveis vezes?” por toda parte e o tempo todo sobre o nosso agir. O que se tem em vista com o termo “agir” não é aqui meramente a atividade prática, nem tampouco o agir ético, mas muito mais o todo das relações do homem com o ente e consigo mesmo. O pensamento do eterno retorno deve ser um “peso”, isto é, deve ser determinante para o encontrar-se conjuntamente em meio ao ente na totalidade.

Mas agora podemos perguntar pela primeira vez efetivamente: como um pensamento pode ter uma força determinante? “Pensamentos”! Algo tão fugaz deve ser um peso? Para o homem, o determinante não é inversamente o que está à sua volta, as circunstâncias, sua “alimentação”? Feuerbach não tem razão com a sua famosa frase: o homem é o que “come”? E ao lado da alimentação não se deveria colocar o lugar, ou, de acordo com as doutrinas outrora contemporâneas da sociologia inglesa e francesa, o milieu, a arte e a sociedade? De maneira alguma, porém, pensamentos! Nietzsche retrucaria a isso: justamente os pensamentos, pois estes determinam o homem ainda mais, eles o determinam pela primeira vez para essa alimentação, para esse lugar, para esse ar e essa sociedade; no “pensamento” se decide se o homem justamente assume e mantém essas circunstâncias ou escolhe de outra maneira, se interpreta as circunstâncias escolhidas desse modo ou de outro, se faz frente a elas desse modo ou de outro. O fato de essa decisão ser tomada frequentemente em ausência de pensamento não fala contra o domínio do pensamento, mas a favor dele. O meio por si não esclarece nada; não há um meio em si. Nietzsche diz quanto a isso (A vontade de poder, n. 70, 1885-1886):

“Contra a doutrina da influência do meio e das causas exteriores: a força interna é infinitamente superior.”

A mais intrínseca das “forças internas” são os pensamentos. E se esse pensamento do eterno retorno do mesmo não pensa absolutamente nada arbitrário, não isso ou aquilo, mas muito mais o ente na totalidade tal como ele é; se esse pensamento é realmente pensado, isto é, se ele nos coloca como questão no cerne do ente e com isso, ao mesmo tempo, nos impele para fora; se esse pensamento do eterno retorno é “o pensamento dos pensamentos” (XII, 64), tal como Nietzsche o denominou certa vez, então não deve poder ser apenas um “peso” para todo e qualquer homem, não apenas um peso entre outros, mas “o peso mais pesado”‘?

Ora, mas por que isso? O que é o homem? Ele é o ser que precisa de um peso, que sempre anexa e precisa anexar um peso a si? Que perigosa necessidade está aqui em jogo? Um peso também pode puxar para baixo, rebaixar o homem, e, quando ele está embaixo, se tornar supérfluo como peso, de modo que o homem permanece então repentinamente sem peso e não pode mais avaliar o que é seu em cima, (191) não pode mais notar que ele está embaixo, mas, ao invés disso, se toma pelo ponto médio e pela medida, enquanto tudo isso não perfaz senão a sua mediocridade. (GA6PT:189-191)

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Original

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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