GA55:7-9 – Mesmo aqui, os deuses também estão presentes

Schuback

Diz-se (numa palavra) que Heráclito assim teria respondido aos estranhos vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao forno. Ali permaneceram, de pé, (impressionados sobretudo porque) ele os (ainda hesitantes) encorajou a entrar, pronunciando as seguintes palavras: ‘Mesmo aqui, os deuses também estão presentes.’”1

Na curiosidade impertinente frente ao pensador e seu abrigo, as pessoas viram-se decepcionadas e desorientadas. Esperavam encontrá-lo numa situação marcada pelo caráter de exceção, raridade (22) e excitação, por oposição à vida cotidiana. Ao visitá-lo esperam encontrar coisas que, ao menos por um certo tempo, ofereçam assunto e matéria para uma prosa despreocupada. Os que desejam visitar o pensador esperam encontrá-lo no momento exato em que está mergulhado nas profundezas, todo “pensativo” —, não para que eles mesmos possam ser tocados pelo pensamento, mas só para poder dizer que viram e ouviram aquele que é considerado um pensador.

Em vez disso, os curiosos encontram o pensador junto ao forno. Trata-se de um lugar tipicamente cotidiano e insignificante. É ali, no entanto, que se faz o pão. Mas Heráclito não estava junto ao forno nem mesmo para fazer pão. Estava ali só para se aquecer. Nesse lugar cotidiano ele mostra, além do mais, toda a indigência de sua vida. Contemplar um pensador sentindo frio não é muito “interessante”. Com o olhar decepcionado, os curiosos perderam a vontade de se aproximar um pouco mais. O que estavam fazendo ali? Qualquer um pode, a qualquer momento, encontrar na sua própria casa essa necessidade cotidiana e sem graça de aconchegar-se ao forno quando se sente frio. Para que então visitar um pensador? Heráclito lê nas suas fisionomias a curiosidade decepcionada. Reconhece que — para as pessoas — basta sentir a falta de uma sensação esperada para que desistam e partam. Por isso as encoraja, convidando-as a entrar com as palavras: είναι γάρ και ενταύθα θεούς…: “mesmo aqui, os deuses também estão presentes”.

Sua palavra lança outra luz sobre seu abrigo e ocupação. A “estória” não chega a contar se os visitantes compreenderam ou não as palavras, nem se perceberam tudo sob essa outra luz. O fato, porém, de se ter contado e transmitido até hoje a “estória” significa que ela surge da atmosfera própria do pensamento desse pensador, e por isso a designa, κα\’ι ενταύθα — mesmo aqui junto ao forno, mesmo neste lugar cotidiano e comum onde cada coisa e situação, cada ato e pensamento se oferecem de maneira confiante, familiar e ordinária, “mesmo aqui”, nesta dimensão do ordinário, είναι θεούσ, os deuses também estão presentes, θεοί são os θεάοντες και δαίμονες. A essência dos deuses, tal como (23) apareceu para os gregos, é precisamente esse aparecimento, entendido como um olhar a tal ponto compenetrado no ordinário que, atravessando-o e perpassando-o, é o próprio extraordinário o que se expõe na dimensão do ordinário. Aqui também, diz Heráclito, junto ao forno em que me aqueço, vigora o extraordinário no ordinário, και ενταύθα — “mesmo aqui”, diz o pensador, e o diz no sentido próprio dos visitantes, segundo o modo e a mentalidade próprios das pessoas. Na suposição, porém, de que a palavra de um pensador diz o que diz numa forma diferente da linguagem cotidiana, abrigando necessariamente em seu discurso um sentido diverso do corrente, esta palavra de Heráclito, quando considerada como palavra de pensamento, oferece uma curiosa conclusão.

Quando o pensador diz: καί ενταύθα (“mesmo aqui”) έν τώι ίπνώι (“junto ao forno”) vigora o extraordinário, quer dizer, na verdade: só aqui há vigência dos deuses. Onde realmente? No inaparente do cotidiano. Não é preciso evitar o conhecido e o ordinário e perseguir o extravagante, o excitante e o estimulante na esperança ilusória de, assim, encontrar o extraordinário. Vocês devem simplesmente permanecer em seu cotidiano e ordinário, como eu aqui, que me abrigo e aqueço junto ao forno. Não será isso que faço, e esse lugar em que me aconchego, já suficientemente rico em sinais? O forno presenteia o pão. Como pode o homem viver sem a dádiva do pão? Essa dádiva do forno é o sinal indicador do que são os θεοί, os deuses. São οβδαίοντες, os que se oferecem como extraordinário na intimidade do ordinário. Aqueço-me ao forno permanecendo, assim, na proximidade do fogo — em grego πυρ —, que também significa luz e ardor. Vocês me encontram aqui numa relação com o fogo, somente onde é possível que o raio luminoso do olhar compenetrado esteja em unidade com o raio do calor, permitindo que “desperte” para o aparecimento aquilo que no frio seria, ao contrário, vítima da rigidez do não-ser. (p. 22-24)

Original

  1. Aristóteles. De part. anim., A5 645 a 17 ff.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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