GA5:102-106 – homem, medida de todas as coisas

Borges-Duarte

(8) Mas não ousou um sofista dizer, no tempo de Sócrates, que o homem é a medida de todas as coisas, tanto do ser das que são, como também do não-ser das que não (95) são? Não soa esta frase de Protágoras como se falasse Descartes? E, como se isso não bastasse, não é concebido por Platão o ser do ente como o que é contemplado, como a ἰδέα? A referência ao ente enquanto tal não é para Aristóteles a θεωρία, o puro olhar? Só que aquela frase sofistica de Protágoras não significa subjectivismo nenhum, porquanto só Descartes pode efectuar a inversão do pensar grego. Certamente que se cumpre, através do pensar de Platão e através do perguntar de Aristóteles, uma viragem decisiva da interpretação do ente e do homem, mas que permanece sempre ainda dentro da experiência fundamental grega do ente. Esta interpretação, precisamente enquanto combate contra a sofistica e, por isso, na dependência dela, é tão decisiva que se converte no fim do mundo grego, fim esse que ajuda a preparar, de um modo mediato, a possibilidade da modernidade. Daí que o pensar platônico e aristotélico, mais tarde, não apenas na Idade Média, mas através do que foi a modernidade até agora, tenha podido valer como o pensar grego por excelência, e todo o pensar pré-platónico como apenas uma preparação para Platão. E porque se está de há muito habituado a ver o mundo grego através de uma interpretação humanista moderna que continua a estar-nos vedado reflectir sobre o ser que se abriu à antiguidade grega, deixando-lhe o que tem de próprio e de estranho. A frase de Protágoras diz: πάντων χρημάτων μέτρον ἐστίν ἄνθρωπος, των μεν όντων ώς ἐστι, των δε μὴ δντων ώς οὐκ ἐστιν (cf. Platão. Teeteto, 152 a).

“De todas as coisas (nomeadamente, das que o homem usa, daquelas de que precisa e, assim, das que tem constantemente em torno a si, χρήματα χρήσθαι), ο (respectivo) homem é a medida, das coisas presentes, a (127) medida de estarem presentes como estão presentes, mas daquelas às quais permanece vedado estarem presentes, de não estarem presentes”. O ente cujo ser está para decisão é aqui compreendido como o que, neste âmbito, está presente a partir de si no círculo do homem. Mas quem é o homem? Platão, na mesma passagem, dá uma informação sobre isso, na medida em que faz dizer a Sócrates: Ούκοὔν ο6το πως λέγει, ώς οία μεν ίκαστα ἐμοι φαίνεται τοιαὔτα μεν £στιν ἐμοί, οία δε σοί, τοιαὕτα δε αὔ σοί. ἄνθρωπος δε σύ τε και ἐγώ; “(Protágoras) não (96) compreende isso, de algum modo, assim? Será que o que se me mostra, em cada caso, terá (também) um certo aspecto para mim, enquanto para ti, por sua vez, terá aquele com que a ti se te mostra? Mas tu és homem, tal como eu”.

O homem é aqui, deste modo, quem é em cada caso (eu e tu e ele e ela). Não se identificará este ἐγώ com o ego cogito de Descartes? Nunca; pois é diferente tudo o que de essencial determina, com igual necessidade, ambas as posições fundamentais metafísicas em Protágoras e Descartes. O essencial de uma posição metafísica fundamental abrange:

1. O modo como o homem é homem, isto é, como é ele mesmo; o modo essencial da mesmidade, a qual de modo nenhum se identifica com a egoi-dade, mas se determina a partir da referência ao ser enquanto tal;

2. A interpretação da essência do ser do ente;

3. O projecto da essência da verdade;

4. O sentido de acordo com o qual o homem é, aqui e ali, medida.

Nenhum dos mencionados momentos da essência da posição metafísica fundamental se deixa conceber isolado dos outros. Cada um caracteriza sempre já a totalidade de uma posição metafísica fundamental. Porquê e em que medida precisamente estes quatro momentos, à partida, suportam e articulam uma posição metafísica fundamental (128) enquanto tal, isso já não se pode perguntar nem responder a partir da metafísica e através desta. Isso é já dito a partir da ultrapassagem da metafísica.

Para Protágoras, o ente permanece referido ao homem enquanto ἐγώ. Porém, de que tipo é esta referência ao eu? Ο ἐγώ demora-se no círculo do não-encoberto, enquanto algo que lhe está atribuído. Desta forma, ele percepciona tudo o que neste círculo está presente como sendo. O percepcionar do que está presente funda-se no demorar-se dentro do círculo do não-estar-encoberto. Através do demorar-se no que está presente, a pertença do eu ao que-está-presente é. Este pertencer ao que está presente e aberto delimita este contra o ausente. A partir deste limite, o homem recebe e guarda a medida para aquilo [GA5:97] que-está-presente e ausente. Confinando-se ao que está, em cada caso, não-encoberto, dá-se ao homem a medida que limita o si mesmo respectivamente a isto ou àquilo. O homem não coloca a medida, à qual todo o ente, no seu ser, se tem de conformar, a partir de uma egoidade isolada. O homem da relação grega fundamental ao ente e ao seu não-estar-encoberto é μέτρον (medida), na medida em que assume o comedimento ao círculo do não-estar-encoberto, delimitado pela egoidade, e assim reconhece o estar-encoberto do ente e a impossibilidade de decidir sobre o seu vir-à-presença ou ausência, do mesmo modo que sobre o aspecto daquilo que se essencia 1. Daí que Protágoras diga (Diels. Fragmente der Vorsokratiker, Protágoras B, 4): περι μεν θεών οὐκ ἐ’χω εἰδέναι, οί)θ’ώς είσίν, οβθ’ ώς οὐκ είσίν, οόθ’όποῖοί τινες ἰδέαν. “Não estou em (129) condições de saber algo (isto é, de modo grego: de receber algo “visualmente”) sobre os deuses, nem que são, nem que não são, nem como são no seu aspecto (ἰδέα)”.

πολλά γάρ τὰ κωλύοντα εἰδέναι, ἡ τ’ ἀδηλότης καί βραχύς ών ὁ βίος τοὕ ἀνθρώπου. “Muito é aquilo que impede percepcionar o ente como tal: tanto o não-estar-manifesto (o estar-encoberto) do ente como também a brevidade do curso da história do homem”.

Não é de admirar de que Sócrates, em vista desta prudência 2 de Protágoras, diga dele (Platão. Teeteto, 152 b): είκός μέντοι σοφόν âvôpa μὴ ληρεῖν. “Ε de presumir que ele (Protágoras), enquanto homem prudente, não fale à toa (na sua frase sobre o homem como μέτρον)”.

A posição metafísica fundamental de Protágoras é apenas uma delimitação, isto é, ainda uma conservação da posição fundamental de Heráclito e Parmênides. A sofistica só é possível sobre o fundamento da σοφία, isto é, da interpretação grega do ser como vir-à-presença e da verdade como não-estar-encoberto, não-estar-encoberto esse que permanece ele mesmo uma determinação essencial do ser, pelo que o que-está-presente se determina a partir do não-estar-encoberto e o vir-à-presença a partir do que-não-está-encoberto como tal. Mas qual a distância que separa PB] Descartes do início do pensar grego, quão diferente é a interpretação do homem que o representa como sujeito? E precisamente porque no conceito do subjectum ainda ressoa a essência grega do ser, ο ὑποκεῖσθαι do ὑποκείμενον na forma do vir-à-presença (ou seja, do constantemente subjacente), tornado desconhecido e inquestionado, que se pode ver a partir dele a essência da mutação da posição metafísica fundamental. (130)

Uma coisa é a conservação do círculo em cada caso delimitado do não-estar-encoberto através do percepcionar do que-está-presente (o homem enquanto μέτρον). Outra coisa é o avançar para a área desobstruída da objec-tivação possível, através do calcular do representável, que é acessível a qualquer um e vinculativo para todos.

Qualquer subjectivismo é impossível na sofistica grega porque aqui o homem nunca pode ser subjectum; não pode sê-lo porque o ser é aqui vir-à-presença, e a verdade é não-estar-encoberto.

No não-estar-encoberto, acontece apropriando-se a φαντασία, isto é, o vir a aparecer do que-está-presente enquanto tal para o homem, homem que está presente face àquilo que se manifesta. O homem, enquanto sujeito que representa, fantasia, isto é, movimenta-se na imaginatio, na medida em que o seu representar insere imageticamente o ente, enquanto objectivo, no mundo como imagem.

Brokmeier

Original

  1. N.T. O que se essencia traduz o particípio presente substantivado deis Wesende, A palavra Wesen (essência) é por Heidegger entendida num sentido verbal, expressando o modo como o ser é no ente, ou seja, o tornar-se essência no e através do ente.[↩]
  2. N.T. O termo traduzido por prudência é Besonnenheit, a característica do homem que medita, que exerce uma meditação (Besinnung).[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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