GA40:168-169 – techne é saber

Carneiro Leão

1. O vigor, o império vigoroso, no qual se move a ação instauradora de vigor do homem, constitui todo o âmbito das maquinações, to machanoen, que lhe são confiadas. Não tomamos a palavra “maquinação” em sentido pejorativo. Por ela entendemos algo de essencial que se nos apresenta na palavra grega techne. Techne não significa nem arte nem habilidade nem de certo técnica no sentido moderno. Traduzimos techne por “saber”, mas isso precisa de uma explicação. Saber não significa aqui o resultado de simples constatações a respeito de dados objetivos (Vorhandenes) antes desconhecidos. Tais conhecimentos são sempre algo apenas acessório, muito embora indispensável para o saber. Esse, no sentido autêntico da techne é precisamente um ver, que ultrapassa o que é dado de modo objetivo (Vorhandenes) e assim se torna princípio e origem (anfaenglich) de permanência e consistência (stsendig). Essa ultravisão opera, de modo diverso, e por caminhos e domínios diferentes põe em ação previamente o que confere ao que já é dado de modo objetivo, seu devido direito, sua possível determinação e com isso seus limites. Saber é o poder de pôr o Ser em ação como um tal ou qual ente. Os gregos chamavam de modo especial techne a arte em sentido próprio e a obra d’arte, porque é a arte que, do modo mais imediato, erige e esculpe em algo, que está presente (Anwesenden) (a obra), o Ser, i.é, o aparecer, que se apresenta em si mesmo. A obra d’arte não é, em primeiro lugar, obra, porquanto é confeccionada, é feita, mas porque opera o Ser em um ente. Operar significa aqui pôr em obra, na qual, como no que aparece, chega a brilhar a physis, o brotar imperante, que vigora. Pela obra d’arte, como o Ser que é, tudo, que aparece e pode ser encontrado, é confirmado, torna-se intelegível, acessível e compreensível como ente ou não-ente.

Visto que a arte erige e faz aparecer, num sentido acentuado, o Ser, como ente, na obra, a arte vale, a bom direito, como o poder-pôr em obra, simplesmente dito, como techne. O poder-pôr em obra é um operar manifestativo do Ser no ente. O saber consiste nesse abrir e manter aberto reflexivo e operante. A paixão do saber está em investigar questões. Por ser um tal saber é que a arte é techne, e não, por pertencerem, à sua efetivação, habilidades “técnicas, instrumentos e materiais de obras.

Assim a techne caracteriza o deinon, a instauração de vigor em seu princípio fundamental. Pois a instauração de vigor é o uso vigoroso da força contra o que se impõe de modo sub-jugante: a conquista, pela luta do saber, do Ser antes trancado e escondido no que aparece, como ente. [GA40CL:181-182]

Ackermann Pil

Kahn

Fried & Polt

Original

  1. The 1953 edition has neither brackets nor parentheses around this whole phrase.[↩]
  2. Er-wirkt: erwirken normally means to bring about, obtain or secure; we have formerly translated it as “bring about.” But because here Heidegger is stressing the root wirken, to work, we render er-wirken as “put to work.”[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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