GA29-30:305-306 – relação ser humano a ser humano

Casanova

Esta teoria, segundo a qual o homem é inicialmente sujeito e consciência, e, enquanto tal, é dado da maneira mais certa possível para si mesmo; esta teoria, que surgiu no fluido a partir de perspectivas e intenções completamente diversas no contexto da fundamentação da metafísica em Descartes, estendeu-se através de toda a filosofia moderna e experimentou em Kant uma modificação singular, ainda que não essencial. Esta mudança levou, então, à absolutização na filosofia hegeliana da posição que parte do eu-sujeito isolado. Exatamente por isto chamamos esta filosofia de idealismo absoluto. Se tomarmos o homem neste sentido de sujeito e consciência, um sentido que o idealismo moderno desde Descartes tomou como autoevidente, então a possibilidade fundamental de avançar em direção à essência originária do homem, de conceber nele o ser-aí, escapa previamente de nossas mãos. Todas as correções ulteriores não auxiliam em nada, mas apenas impelem para o interior da posição que se formou em meio ao idealismo absoluto de Hegel. Não posso mais continuar adentrando aqui nestas conexões em seu sentido histórico. Contentemo-nos em indicar o seguinte: no que concerne a este problema da relação do homem com o homem, não se trata de uma questão de teoria do conhecimento e de apreensão de um por intermédio do outro, mas sim de um problema do ser mesmo, isto é, de um problema de metafísica. Em Kant e seus sucessores remonta-se à pessoa absoluta, ao espírito absoluto a partir de um conceito de homem – enquanto eu e de um conceito de personalidade humana fundamentalmente insuficientes em termos metafísicos. A partir desse conceito de espírito consequentemente insuficiente é determinada uma vez mais de maneira (268) retrospectiva a essência do homem. A coesão desta sistemática absoluta ilude e impede de ver a questionabilidade de sua posição e de seu ponto de partida. Esta posição e este ponto de partida residem, por sua vez, no fato de o problema do homem, do ser-aí humano em geral não ter se tornado aí propriamente um problema. Mas o passo dado por Hegel de Kant até o idealismo absoluto não é senão uma consequência do desenvolvimento da filosofia ocidental. Esta consequência tornou-se possível e necessária através de Kant porque em Kant mesmo o problema do ser-aí humano, a finitude, não se tornou um verdadeiro problema da filosofia; e isto significa um problema central da filosofia. O próprio Kant – tal como a segunda edição da Crítica da razão pura o indica – encorajou-nos a seguir este caminho que consiste em se evadir de uma finitude incompreendida e aquietar-se na infinitude. Não posso adentrar mais exatamente nestas conexões, elas foram tratadas em meu escrito Kant e o problema da metafísica, onde tentei desenvolver a necessidade do problema da finitude para a metafísica. Não me interessava fornecer uma melhor interpretação de Kant. O que os neokantianos e os kantianos tradicionais quiserem pensar sobre Kant me é totalmente indiferente. A consequência citada é uma consequência necessária e, no modo como Hegel a conduziu, digna de admiração. No entanto, já como consequência, ela é o sinal de uma infinitude usurpada. A finitude pertence – não como falta nem como elemento embaraçador, mas, ao contrário, como força atuante – in-consequência. A finitude torna a dialética impossível, ela a demonstra como aparência. A finitude pertence a ausência de um próximo elemento da série, ausência de fundamento, velamento do fundamento.

Portanto, esta pergunta pelo eu e pela consciência (ser-aí) não é nenhuma pergunta da teoria do conhecimento, mas também não uma pergunta da metafísica enquanto disciplina. Ao contrário, ela é a pergunta, no interior da qual toda metafísica é possível, isto é, necessária.

Daniel Panis

Original

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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