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estudos:marion:constancia-do-eu

A constância do Eu

MarionDado

  • Este cumprimento, por mais notável que seja, não basta contudo para romper todas as aporias metafísicas do “sujeito”: o Dasein permanece com efeito ainda exposto ao solipsismo e à objetidade de um substrato
    • A que condição sua “minhidade” [Jemeinkeit] individualiza o Dasein? A resposta sustenta-se em uma fórmula: “A resolução [Entschlossenheit] é um modo privilegiado da abertura [Erschlossenheit] do Dasein
    • Com efeito, a resolução antecipadora desobstrui o ser do Dasein como o cuidado [Sorge] e permite atingir dele o sentido de ser a partir do futuro
    • Trata-se então de determinar como se cumpre a ekstase do cuidado: em suma, a que a resolução se resolve, que dá ela ao Dasein, sobre o que recai a decisão que dele recebe?
    • Ora, a resolução se repara concretamente em vários fenômenos que se ordenam a ela: a angústia, a consciência de dívida, e o ser-para-a-morte (como antecipação); e todos oferecem um caráter comum: o nada de alteridade
  • Fenômenos que determinam o ser do Dasein como cuidado e o nada de alteridade
    • A angústia resulta na prova do nada de todo ente, manuseável assim como subsistente: “Neste diante de que se angustia a angústia, torna-se manifesto o 'nada e nenhures'”
    • Que este nada deva se entender como o mundo, não atenua o fato de que a angústia abre sobre o nada, sem nada de mais que este nada ele mesmo
    • A consciência que prova sua dívida nela percebe um chamado, qualquer que seja; este chamado contudo não evoca e não exige nenhuma resposta, nenhuma reparação, nem nenhum preço onticamente atribuível: “Que chamado a consciência endereça àquele que ela chama? Em todo rigor: nada. O chamado não enuncia nada, não dá nenhuma informação sobre o que se passa no mundo, não tem nada a contar”
    • A consciência de dívida não abre então o Dasein sobre um qualquer ente do mundo, senão sobre ele mesmo enquanto transcende os entes
    • O ser-para-a-morte faz, em primeira aparência, exceção: jamais Heidegger indica que abriria, ele também, sobre o nada (que contudo toda a análise parece visar), mas somente sobre a possibilidade da impossibilidade
    • Contudo, a antecipação em direção ao ser-para-a-morte abre finalmente o Dasein à possibilidade absoluta — absoluta pois englobando mesmo o impossível — onde cumpre plenamente sua transcendência em relação a todo ente, portanto se prova como tal
    • Desde então, pois que no “… ser-para-a-morte, o Dasein se relaciona a ele mesmo como a um poder-ser insigne”, é preciso concluir que ele só se relaciona a nada de outro senão a si, portanto a nada de ente, ao nada
    • Assim os três fenômenos que determinam o ser do Dasein como cuidado desobstruem a resolução antecipadora como uma ekstase aberta estritamente sobre nada
    • O Dasein se descobre, no momento mesmo de se arriscar e se individualizar como o ente no qual está em jogo seu ser, uma identidade vazia a si
  • Mienidade e ipseidade: o que se formulava no início da analítica como a “mienidade” [Jemeinigkeit] se diz, em seu termo, como “ipseidade”
    • “A ipseidade [Selbstheit] do Dasein foi determinada formalmente como uma maneira de existir”
    • O Dasein existe então enquanto ele mesmo e sua resolução não resolve nada, porque não devia nada resolver, pois não se tratava, para o Dasein, senão de se arriscar ele mesmo ao seu próprio ser
    • A ipseidade só tem que fazer com ela somente
    • Donde um novo solipsismo, não mais ôntico (o ser-no-mundo dele preserva), mas ontológico (a transcendência do Dasein o assegura)
    • Trata-se certamente de uma exigência da neutralidade do Dasein (sem ética, nem rosto, nem sexo), mas também de uma remanência do “sujeito” transcendental metafísico
  • Remanência do sujeito transcendental explica por que a ipseidade pode se entender também como uma constância-de-si-em pessoa ou uma auto-constância [Selbst-ständigkeit]
    • “A ipseidade [Selbstheit] só pode se ler existencialmente sobre o poder-ser-si-mesmo autêntico [Selbstseinkönnen], isto é, sobre a autenticidade do ser do Dasein [entendido] como cuidado. É dela que a constância-do-si-mesmo [Ständigkeit des Selbst] enquanto pretensa permanência do sujeito recebe seu esclarecimento. Mas ao mesmo tempo o fenômeno do poder-ser autêntico abre o olhar à constância-do-si-mesmo [Ständigkeit des Selbst], no sentido de ter-conquistado-sua-postura. A constância-do-si-mesmo [Ständigkeit des Selbst], no duplo sentido da solidez e da 'constância', é a contra-possibilidade própria [eigentliche] à ausência de sustentação [Unselbst-ständigkeit] da decadência irresoluta. A auto-constância [Selbst-ständigkeit] não significa nada de outro existencialmente que a resolução antecipadora”
    • Assim a ipseidade se desdobra em uma constância do si, que se prolonga em uma auto-constância, confirmando assim que o cuidado reconduz o Dasein a uma maneira de identidade a si
  • Prodígio de 1927: a ekstase do cuidado, que radicaliza a destruição do “sujeito” transcendental (Descartes, Kant e Husserl), não o mima contudo menos ao restabelecer uma autarquia do Dasein, a ponto de que sua ipseidade individuada se estabiliza em auto-posição
    • Sem dúvida, Heidegger abole para o Dasein a permanência da ousia e da res cogitans; contudo a autarquia do Si, que lhe mantém, vai até roçar o estranho título de “fundamento constantemente subsistente”
    • “… se a constituição ontológica do Si-mesmo não se deixa reconduzir nem a um Eu-substância, nem a um 'sujeito', mas se é ao inverso o dizer-Eu-Eu quotidiano e fugaz que deve ser compreendido a partir do poder-ser autêntico, daí não se segue por isso a proposição [que] o Si é então o fundamento constantemente subsistente do cuidado [ständig vorhandene Grund der Sorge]”
    • Não somente uma frágil denegação, aliás avançada sem seus motivos, retém o Dasein de derivar em direção ao estatuto de fundamento subsistente, mas sobretudo não se vê que verdadeiro critério fenomenológico separa aqui este “… constante subsistente, ständig vorhanden” metafísico de um fundamento e da “constância do Si-mesmo [Ständigkeit des Selbst]” própria ao Dasein, que vai seguir
    • De fato, os caracteres reflexivos do Dasein — decidir-se, colocar-se em jogo, preceder-se, angustiar-se e a cada vez para nada de outro senão si (para o nada e o Si) — mimetizam tão bem a reflexividade do sujeito transcendental, que devem também sugerir dele o caráter de fundação subsistente
    • Aporia do solipsismo implica a da subsistência
  • Individuação torna-se também problemática: o ser me coloca bem em jogo ao se jogar em mim; mas pode-se jamais lhe atribuir uma singularidade e não o envisagá-lo como único para todos os entes?
    • Não assume aliás, por vezes, uma identidade coletiva? Pode-se então jamais apoiar sobre ele uma individuação?
    • A “mienidade” do Dasein o define tão intrinsecamente, que não pode então nem o demultipliar, nem o individuar
    • As aporias do “sujeito” assombram sempre o Dasein
    • Poderia se dar que não designe tanto o que sucede ao “sujeito”, que seu último herdeiro, de modo a oferecer dele menos uma ultrapassagem, que o caminho para, eventualmente, nela chegar
  • Aporias permanecerão enquanto se pretender começar pelo ego, o “sujeito” ou o Dasein, pressuposto como um princípio, ou, para falar como Aristóteles, como um “a partir de quê” em geral
    • Só poderão eventualmente se dissipar se, por um reviramento radical, se lhe substitui um “a qu[em]”, um atributário ao qual acaba sempre por chegar o fenômeno que se mostra ao se dar
    • Pois ao receber o que se dá (o fenômeno), o atributário dele recebe os efeitos, portanto se recebe dele mesmo: individualiza-se por facticidade, rompe o solipsismo pela alteridade da chegada e do incidente, ultrapassa a espontaneidade do “eu penso” na receptividade do “eu sou afetado” pelo efeito do evento
    • E, recebendo-se ele mesmo como um ente dado, libera-se da subsistência de um substrato, em suma da subjetividade do “sujeito”
    • O atributário permanece — se se insiste — um “sujeito”, mas liberto de toda subjetividade, porque primeiro livre da subjetidade e franco de todo substrato
  • Mas, se o atributário não surge de seu próprio fundo, nem repousa sobre seu substrato, donde vem a ele mesmo? Que (ou quem) então o precede?
estudos/marion/constancia-do-eu.txt · Last modified: by mccastro