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Pragmatismo

DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : Une pratique concrète. Paris: Armand Colin, 2012.

  • A pertinência filosófica da fenomenologia assim delineada pode parecer questionável, mas tal questionamento permanece motivado por um preconceito teoricista, logicista e racionalizante que ainda alimenta tacitamente a compreensão do termo filosofia, quando o amor à sabedoria poderia engajar antes de tudo a prova dessa sabedoria na experiência do indivíduo, sua prática e sua fé em si mesmo e nos outros, de modo que a fenomenologia reivindicada renova o sentido mais profundo da filosofia ao integrar sua aplicação, sua colocação em ato em domínios empíricos, como parte de sua elaboração interrogativa.
  • A fenomenologia não precisa se envergonhar de se definir como fenomenologia aplicada, pois a distinção formal e axiológica em relação a uma fenomenologia pura é gesto de política filosófica mais que de exploração dos fenômenos, sendo a aposta clara de que a fenomenologia é aplicada ou não é, o que justifica o interesse pelo pragmatismo como esclarecimento epistemológico privilegiado dessa fenomenologia revisitada.

1. RAÍZES HISTÓRICAS DO PRAGMATISMO

  • A escolha do pragmatismo como ancoragem prática, metódica e ontológica da fenomenologia se justifica frente a outras referências possíveis — as sabedorias eudemonistas antigas (estoicismo, epicurismo, ceticismo), a filosofia prática kantiana prolongada em Fichte, e o marxismo com seus desdobramentos leninistas ou trotskistas —, todas privilegiando a ação humana sobre sua representação ideal e compartilhando com o pragmatismo o cuidado de uma efetivação da pensamento.

1.1. PERTINÊNCIA PRÁTICA DO PRAGMATISMO

  • As sabedorias antigas configuram éticas individuais voltadas ao repli sobre si após o apogeu da polis grega, a filosofia prática do idealismo alemão privilegia uma prática de ordem apriorística e especulativa, e Marx e seus sucessores propõem uma transformação do ser humano situada no plano político do conflito e da violência; frente a essas três dimensões unilaterais, a riqueza do pragmatismo se evidencia — o pluralismo metódico aberto por W. James contrasta com o individualismo das sabedorias antigas e com os riscos do coletivismo marxista, a insistência na ação concreta efetiva como critério de validade evita reduzir a verdade a um nível moral ou especulativo, e a dimensão transformativa de si e dos outros carece de finalidades ideológicas ou políticas, centrando a atenção no próprio processo de mudança do sujeito.

1.2. PEIRCE (1839-1914): O PRAGMATICISMO COMO FENOMENOLOGIA PRAGMÁTICA

  • Charles Sanders Peirce, fundador do pragmatismo, enuncia cedo em seus Textos anticartesianos a máxima geral do pragmatismo como método, segundo a qual toda distinção teórica deve conduzir a uma diferença na prática, e propõe considerar quais efeitos pensamos que podem ser produzidos pelo objeto de nossa concepção, fazendo da consideração prioritária do efeito e da prática o cerne da ontologia e da epistemologia buscadas para a fenomenologia.
    • Em Como tornar nossas ideias claras?, texto fundador do pragmatismo anticartesiano, Peirce retoma a concepção cartesiana da verdade em termos de clareza e distinção para desviá-la propondo um método que atinge clareza de pensamento superior à ideia distinta dos lógicos, sustentando que a ideia é excitada à ação pela irritação da dúvida e cessa quando se atinge a crença.
    • Pelo exemplo de uma coisa dura — cujo sentido se resume à soma de seus efeitos concebidos, de modo que um diamante cristalizado em algodão macio e ali queimado sem jamais ser testado não seria falsamente chamado de mole —, Peirce desarma o manejo lógico habitual das distinções, submetendo a verdade à prova dos fatos experimentados.
    • À fase de virulência crítica (1868-1878/1879), correspondente à elaboração do pragmatismo por diferenciação da lógica cartesiana, sucede a fase de maturidade nas sete conferências de Harvard de 1903, onde se apresenta a unidade complexa da inflexão pragmaticista do pragmatismo.
    • Na segunda conferência de Harvard, Sobre a fenomenologia, Peirce, após reafirmar que todo o significado e alcance de uma concepção residem em suas incidências práticas concebíveis, distingue três dimensões da filosofia — fenomenologia, ciência normativa e metafísica — subordinando o pragmatismo à fenomenologia e conferindo a esta primazia ontológica.
    • A tarefa do fenomenólogo consiste em abrir os olhos do espírito e olhar simplesmente o fenômeno para dizer quais características nele nunca faltam, seja ele imposto pela experiência exterior, o sonho mais louco, ou a conclusão mais abstrata da ciência, exigindo três qualidades — a faculdade rara de ver o que salta aos olhos sem interpretação, a faculdade de discriminação do traço mais pertinente, e o poder de generalização que purifica o traço examinado de todo elemento acessório — que ressoam respectivamente com a epoché husserliana, a intencionalidade e a variação eidética.
    • Três dimensões experienciais encarnam esses gestos: a presentidade ou imediatidade como dimensão fenomenal mais tênue, a luta, o esforço e a resistência como dimensão do exercício, e a surpresa como dimensão da generatividade interna da experiência.
    • A qualidade de sentimento, primeira categoria do imediato em sua presentidade positiva direta, retoma a concepção hegeliana do imediato submetendo-a a crítica experiencial — sair sob a abóbada azul do céu e olhar o que está presente tal como aparece ao olho do artista —, procedendo por retranchamento à maneira da teologia negativa: imaginar uma consciência sem comparação, relação, multiplicidade, mudança ou reflexão, apenas um simples caráter positivo, que poderia ser um cheiro de alcatrão, uma dor de cabeça infinita ou um assobio estridente interminável, exemplos marcados pela fugacidade e evanescência.
    • O segundo traço, a luta, aproximado pela experimentação corporal do esforço muscular e da resistência, é ilustrado pelo exemplo do homem atingido na cabeça por uma escada carregada por outro que segue seu caminho sem perceber — sente-se golpeado com grande violência sem ter oposto resistência, embora tenha de fato resistido com força igual ao golpe —, ideia de que não faz diferença ser agente ou paciente, pois é o resultado que decide, colocando em questão a oposição dual entre atividade e passividade para evidenciar a tensão interna do fenômeno como unidade imanente própria.
    • A terceira dimensão, a surpresa, ensina tudo o que a experiência se digna a ensinar através de uma série de surpresas, ilustrada pelo barco que navega mansamente até chocar-se subitamente com um rochedo; a surpresa se aloja no seio da consciência como dupla consciência de um ego e de um não-ego agindo diretamente um sobre o outro, de modo que no instante da surpresa há consciência de um Ego, ideia esperada bruscamente quebrada, e de um Não-Ego, o Estranho intruso que irrompe abruptamente, remetendo à generatividade interna do devir-consciente.
    • A fenomenologia pragmática inaugural de Peirce leva a fenomenologia husserliana a seu acabamento, intensificando antecipadamente sua virtude transformativa interna, efeito análogo ao que James, em estilo diferente, produzirá.

1.3. W. JAMES (1842-1910), DA PSICOLOGIA À ONTOLOGIA: UM PRAGMATISMO ERIGIDO EM MÉTODO GERAL

  • John Dewey, em sua apresentação do pragmatismo americano, evidencia a proximidade e a diferença entre Peirce e James como duplo movimento de delimitação e extensão: enquanto Peirce foi primeiramente lógico, James se apresenta como humanista, estendendo a máxima pragmatista a todas as esferas do saber e precisando o alcance prático das experiências ao definir o prático como o concreto, particular, individual e efetivo, oposto ao abstrato, geral e inerte, buscando a vitalidade do pensamento contra seu caráter meramente verbal.
  • É na concepção da verdade que ressalta a singularidade do pragmatismo jamesiano: contra a identificação do pragmatismo com uma filosofia de homens de negócios em que só é verdadeiro o que é rentável, James insiste na existência de verdades plurais, evitando tanto o a priori absoluto quanto o relativismo cético, abrindo uma terceira via de coerência aberta da verdade plural, que se traduz no plano espacial pelo acento no heterogêneo, diferenciado e contrastado, e no plano temporal pelo primado do mutável e variável, como em A Pluralistic Universe, obra que critica todo monismo idealista e dialoga com Bergson em Matéria e memória.
    • Em Pragmatism (1903), na Lição II, Sobre o que significa o pragmatismo, James expõe seu método através do exemplo do esquilo que gira em torno de uma árvore enquanto um homem tenta vê-lo sem jamais conseguir, questão que suscita o debate sobre se o homem gira ao mesmo tempo que o esquilo — indicando que a discussão permanece estéril até que se precise o sentido de going round, o que situa James do lado de um nominalismo realista.
    • Uma vez precisado o sentido das palavras, as oposições metafísicas se desfazem naturalmente, pois o pragmatismo desestiira as discussões, numa aproximação com a crítica husserliana dos pressupostos das Investigações lógicas, insistindo na dimensão de evidência experiencial: a verificabilidade significa a capacidade de guiar prosperamente através da experiência, contrastando com o racionalismo cartesiano em favor de uma verdade situada e não independente do contexto, próxima da verdade encarnada do mundo da vida na Krisis.
  • A ontologia do pragmatismo, que James nomeia empirismo radical, não é nem nominal nem convencional nem substancial nem realista; em Um mundo de pura experiência, aplica-se o método pragmático segundo o qual, se nenhuma diferença prática pode ser pensada entre duas posições, a disputa é uma mera querela de palavras, de modo que tudo o que realmente existe não são as coisas, mas as coisas em vias de se fazer, ontologia da dynamis correspondente a uma psicologia de processos e aberturas em movimento, do em vias de se fazer e do prestes a chegar.

1.4. SUAS RESSONÂNCIAS ANTROPOLÓGICAS: G. H. MEAD E J. DEWEY

  • De Peirce a James passa-se de uma concepção individual da prática para sua colocação humanista no quadro de uma pluralidade de pessoas, o que se prolonga na dimensão antropológica e sociológica dessa fundação dupla da pragmática fenomenológica.
  • G. H. Mead, em psicologia social, redefine a psicologia até então essencialmente individual fundando-a nas interações sociais, de modo que a consciência de si e a própria gênese do si procedem do sistema prévio de comunicação interindividual; em O espírito, o si e a sociedade (1934), identifica quatro conceitos fundamentais — atos sociais, papéis, símbolos significativos e outrem generalizado —, mostrando que o si não existe fora de uma interação social posta como primeira.
  • Tal atenção socioantropológica se estende ao cotidiano da ação singular de um sujeito na maneira de se relacionar com o que faz, como observa John Dewey ao descrever que se caminha, se lê em voz alta, se sobe e desce de bondes, se veste e desveste sem pensar nisso, sabendo fazer sem que isso implique reflexão e apreciação consciente, distinguindo esse know-how do know-about, conhecimento reflexivo do conteúdo da ação.
  • Mead e Dewey, fundadores da Escola de Chicago, privilegiam as noções de situação e contexto, questionando toda ideia de um eu isolado em nome de uma interatividade originária.
  • Contra o objetivismo do positivismo sociológico de Comte e Durkheim, que defende propriedades intrínsecas ao objeto da experiência, o interacionismo situacional reconhece a emergência dos objetos em situação para um sujeito que os percebe, ressoando com a abordagem fenomenológica da gênese do objeto percebido para a consciência do sujeito aberto ao mundo, sem que a crítica comum ao objetivismo recaia em subjetivismo, pois a atenção à situação e aos horizontes do objeto requalifica o sentido da objetividade num contexto prático e histórico, sem que o sujeito jamais possa se isolar do contexto de sentido objetivo que o constitui como sujeito encarnado.
  • A questão que se coloca é como a fenomenologia, em sua constituição histórica e suas transformações internas, pode se beneficiar do aporte metodológico, epistemológico e ontológico do pragmatismo.

2. TRANSFORMAÇÃO PRAGMATISTA DA FENOMENOLOGIA

  • On Becoming Aware. A Pragmatics of Experiencing exemplifica uma fenomenologia pragmática ao descrever o processo da tomada de consciência a partir de sua própria efetivação, em vias de se fazer, obra interdisciplinar (fenomenologia, psicologia, neurociências, budismo) cuja validade metódica e ontológica reside na própria prática como exercício, esforço, aprendizado e treinamento, de modo que a experiência não é dado passivo mas algo que se cultiva ativamente conforme escolhas, gostos e aspirações, fazendo da consciência menos um ser-consciente ou um ter-consciência do que um devir-consciente.
  • O propósito geral dessa obra é conferir à prática um estatuto epistemológico indispensável à filosofia fenomenológica, de modo que a vocação e o cumprimento da fenomenologia residem na colocação em prática, pelo sujeito, do que ele vê de modo evidente e experimenta a cada instante.
  • Os avanços dos fenomenólogos em direção a outras disciplinas (matemática, psicologia, biologia, antropologia, teologia, estética) conduziram a fenomenologia a se confrontar com a alteridade e a se transformar de dentro em seus temas e método, o que leva a avaliar como a metodologia e a ontologia da prática, em sua versão mais completa, o pragmatismo, podem inervar internamente a filosofia fenomenológica, inclusive através de suas recusas e limitações.

2.1. A CRÍTICA HUSSERLIANA DA “LÓGICA APLICADA”

  • Desde as Investigações lógicas, particularmente nos Prolegômenos à lógica pura, Husserl critica o que chama de tecnologia (Kunstlehre), em oposição à lógica pura (reine Logik) que reivindica, anunciando a superação da definição da lógica como tecnologia em favor de uma nova ciência puramente teórica, uma lógica formal ou pura, em referência a Kant.
  • A crítica husserliana se apoia em Kant ao questionar o caráter normativo e utensiliar da lógica aplicada, embora Kant não critique em si a lógica prática desde que apriorística; Husserl radicaliza essa crítica em direção à dimensão moral, que refuta, e ao caráter aplicado, cujo ponto culminante é Sigwart, chegando a julgar indigente a própria crítica kantiana da lógica aplicada por permanecer dependente de preconceitos psicologistas, já que Kant não teria libertado suficientemente o Eu transcendental de sua componente psicológica.
  • Husserl reconhece, contudo, a legitimidade da tecnologia ou lógica técnica como conhecimento concreto do funcionamento das regras do pensamento, privilegiando a dimensão operatória e substituindo a noção kantiana de condição de possibilidade pela de generatividade, reabilitando a prática empiriocriticista de Mach e Avenarius, notadamente o princípio de economia de pensamento, ao mesmo tempo em que critica o psicologismo residual de Kant — dimensão operativa que Peirce, contemporaneamente, retoma ao criticar igualmente toda psicologização da lógica.

2.2. AS DIFICULDADES EPISTEMOLÓGICAS DO CONCEITO DE “APLICAÇÃO”

  • O próprio motivo da aplicação (Anwendung) muda de estatuto de Kant a Husserl.
  • Kant, no prefácio à segunda edição da Crítica da razão pura, insiste na importância da experiência como lugar de aplicação dos conceitos a priori, condições de possibilidade dessa experiência, definindo a aplicação segundo o esquema fundamento/derivação que distingue forma a priori e conteúdo a posteriori.
  • Husserl entende por aplicação menos uma derivação que uma generatividade produtiva da lógica, caráter dinâmico legível no prefixo alemão an-wendung, remetendo ao latim ad-plicare, movimento de aproximação transformador, definindo a lógica prática husserliana como lógica transcendental aplicada, terceira via entre condição de possibilidade transcendental estática e gênese psicológica empirista.

2.3. WITTGENSTEIN E A FENOMENOLOGIA

  • O interesse da perspectiva aberta pelo autor do Caderno azul, do Caderno castanho e de Da certeza pode não ser imediatamente evidente, dado ser também autor do Tractatus e das Investigações filosóficas, partindo de reflexão árida sobre enunciados lógicos comandada pelo desejo de elaborar uma língua formal capaz de dar conta da complexidade do pensamento.
  • Os cadernos azul e castanho, trabalho preparatório às Investigações e a Da certeza, escritos nos últimos dias de Wittgenstein, anunciam em ato uma fala que é ela mesma crítica de todo discurso formal e especulativo, tornando-se experiência plena que nutre por dentro o modo de falar, conduzindo à escolha de uma linguagem ordinária e ao distanciamento de toda língua ideal.
  • Os percursos de Husserl e Wittgenstein guardam analogia: do ideal de uma lógica pura (Prolegômenos) ao confronto com a comunicação social intersubjetiva sedimentada nas atividades cotidianas (Krisis), assim como da aridez formalizada do Tractatus aos aforismos anedóticos da linguagem ordinária de Da certeza, ambos questionam o ideal de uma forma separada do vivido.
  • Wittgenstein se aproxima da tradição pragmatista de Peirce e James por um recuso comum da metafísica: seu antianalitismo converge com o primado que James confere à visão global, e sua reflexão sobre o mau emprego da linguagem, fonte dos problemas metafísicos, aproxima-se da crítica peirciana aos enunciados abstratos desligados da experiência real; como Husserl, desconfia do mentalismo e da interioridade privada, mas, diferentemente dele e como os pragmatistas, desconfia também da idealidade lógica do pensamento, privilegiando a atividade do pensamento como produção de signos análoga à atividade da mão, levando o ceticismo além da epoché husserliana até um sentido radical sem qualquer pressuposição idealizante.

2.4. R. RORTY E A IDEIA DE CULTURA PÓS-FILOSÓFICA

  • Rorty, em O Homem especular e em Consequências do pragmatismo, tenta fazer se encontrarem duas tradições a princípio antípodas — a herança pragmatista (Peirce, James, Dewey, Wittgenstein) e os avanços fenomenológicos e pós-estruturalistas (Heidegger, Levinas, Derrida) —, tentativa arriscada de tornar os fenomenólogos pragmatistas sem recair no sincretismo.
  • Retoma-se essa busca de relação precisando-a no nível da própria metodologia fenomenológica, husserliana primeiro, depois existencialista francesa, considerando que a operatividade da fenomenologia depende menos de seus temas que de seu método, o que torna Husserl, Sartre e Merleau-Ponty tão ou mais essenciais que seus sucessores Heidegger, de um lado, Levinas e Derrida, de outro.
  • A concepção rortiana da filosofia como cultura pós-filosófica oferece uma metodologia geral que privilegia o encontro com o outro e a imersão no não-si sobre o cultivo da autonomia e da identidade, ideia retomada aqui para encarná-la na técnica operatória da própria fenomenologia.

3. COMO PRATICAR A FENOMENOLOGIA?

  • A investigação se volta a detectar as potencialidades práticas da fenomenologia, não apenas na tradição continental ou nos marcos possivelmente fenomenológicos do pragmatismo, mas em tentativas recentes da fenomenologia americana e, mais recentemente, em trabalhos franceses e alemães abertos ao meio internacional, contexto no qual se podem perceber modos de praticar a fenomenologia indicativos de sua renovação pragmatista.

3.1. “FAZER” FENOMENOLOGIA (SPIEGELBERG)

  • H. Spiegelberg, membro ativo da New School de Nova York junto com A. Schütz, P. Natanson e D. Cairns, engaja-se desde os anos 1960 num projeto de renovação da fenomenologia alemã e depois francesa, escrevendo The Movement of Phenomenology, retraçando visão evolutiva das etapas de constituição da fenomenologia desde Husserl até o pós-guerra, com ênfase nos gestos próprios e campos de exploração dos fenomenólogos mais que na coerência interna de suas filosofias, delineando uma fenomenologia menos racionalista e mais operatória.
  • Em Doing Phenomenology (1975), Spiegelberg leva sua intuição prática ao limite, propondo não comentar textos fenomenológicos mas produzir novas análises e descrições a partir da capacidade de experimentar por si mesmo, forjando a ideia de um workshop de fenomenologia cuja única restrição é não dispor de nenhum livro — como André Gide dizia a seu leitor imaginário em As Nutrizes terrestres: “Natanael, joga fora este livro!” —, propondo reexperimentação de experiências perceptivas, rememorativas e imaginativas em grupo, de modo a extrair um invariante eidético de descrições singulares; após alguns ateliers, Spiegelberg se depara com dificuldade prática — a coabitação prolongada sem distrações gera derivas e conflitos — e dificuldade teórica — os resultados descritivos revelam-se pobres, pois cada participante logo esbarra em seus próprios limites experienciais, percebendo que nunca explorou de fato sua própria experiência.

3.2. A IDEIA DE “FENOMENOLOGIA EXPERIMENTAL” (DON IHDE)

  • A tentativa de Spiegelberg, mesmo incompleta, testemunha um cuidado autêntico de confronto com as coisas mesmas, tanto experiências quanto a resistência e o fracasso em dar conta delas.
  • Don Ihde, em Experimental Phenomenology (1977), confronta as análises perceptivas husserlianas e merleau-pontianas com as experiências de percepção bistável ou multistável, revelando potencialidades da atividade perceptiva não percebidas pelos fenomenólogos: Husserl, ao descrever o objeto percebido por esboços e horizontes coperbidos espaciais e temporais, limita-se à dimensão consciente da percepção; Merleau-Ponty, ao privilegiar a dimensão motora e tátil, permanece atrelado às possibilidades corporais do sujeito; as percepções multistáveis revelam a face inconsciente das capacidades sensoriais, o aprendizado implícito, exemplificado pelo célebre cubo de Necker, que evidencia a profundidade volumétrica do espaço e mostra que a percepção contém relevo insuspeitado, procedente tanto do inconsciente orgânico-psíquico quanto de estruturas objetivas subpessoais, aproveitando os avanços da Gestalttheorie e experimentações científicas para uma visão nem subjetiva nem objetiva da percepção, retomando a correlação noético-noemática mas investigando sua genealogia na carne inconsciente do mundo, inconsciente perceptivo educável mas com zonas de sombra ligadas aos mecanismos neuronais subpessoais.

3.3. TENTATIVAS RECENTES: O ATELIER DE FENOMENOLOGIA

  • Edward Casey produz Imagining (1976), fenomenologia experimental fundada em conhecimento aprofundado das análises husserliana, sartreana e finkeana, reinvestidas em colaboração com clínicos — J. Singer, psicólogo clínico experimentalista em Yale, e Mary Watkin, ambos autores sobre o daydreaming, e J. Hillman, fundador da psicologia arquetípica de estilo junguiano.
  • Em Remembering (1987), Casey centra-se na memória de trabalho (working memory) estudada por experimentalistas psicólogos e neurologistas, aproximando-se da psicologia cognitiva e da psicanálise freudiana e lacaniana; formado no New England Institute for Psychoanalysis, estudou com Stanley Leavy, Roy Schafer e Hans Loewald, iniciando análise com este último, e recebeu influência determinante de Jacques Lacan, cujos cursos seguiu em Paris em 1964-1966 e que convidou a lecionar em Yale; colaborou estreitamente com Marcia K. Johnson na SUNY Stony Brook, inspirando-se em A Reality Monitoring. A Model of Human Development, além de John Anderson, autor de Associative Memory, e Robert Crowder, autor de Principles of Learning and Memory.
  • Um terceiro campo de trabalho, sobre o problema do lugar (place), foi estimulado pela colaboração com Nancy Franklin e Barbara Tversky, autoras do The Spatial Framework Model, além de estudos de Stratton, Herbert H. Clark e Clifford Hill sobre orientação espacial, e pesquisas linguísticas sobre dêixis reunidas por R. Jaravella e W. Klein; Casey também dialogou com os antropólogos Keith Basso e Steven Feld em Santa Fe.
  • Uma publicação sobre a experiência do glance (olhar furtivo) resultou de encontros com Natalie Depraz, Pierre Vermersch, Bernard Pachoud e Bruce Bégout em Carbondale (2001) e Paris (2002), a convite de Natalie Depraz e Anthony Steinbock, gerando o capítulo Attending and Glance de The World at a Glance (2006), além de discussões com Eugene Gendlin e correspondência com o psicólogo-fisiologista David LaBerge sobre saccades oculares.
  • O trabalho atual de Casey se orienta para uma fenomenologia dos bordos (edges), beneficiando-se de The Ecological Approach to Visual Perception de James J. Gibson.
  • Bernhardt Waldenfels, fenomenólogo alemão conhecedor da fenomenologia francesa (Merleau-Ponty, Levinas), desenvolve desde os anos 1990 trabalho sobre a colocação em prática da fenomenologia em três obras — Husserl. Arbeit an den Phänomenen (1993), Bruchlinien der Erfahrung (2002) e Phänomenologie der Aufmerksamkeit (2004) —, explorando os aportes da psicologia do trabalho e do trabalho terapêutico.
  • Waldenfels manteve cooperações informais com psicólogos como H. Hörmann, C. F. Graumann e Max Herzog, com psiquiatras como W. Blankenburg e Klaus Dörner, com o psicanalista Hans-Dieter Gondek, e acompanhou por leitura pesquisas em neurologia, resumindo essa prática na frase “Bei mir ging es meist so zu!” (“Comigo foi assim na maioria das vezes!”).
  • Desde o início dos anos 1990, um grupo de trabalho fenomenológico foi criado na École normale supérieure de Fontenay-aux-Roses, apoiado por Bernard Besnier, Françoise Dastur e Jean-François Courtine, batizado Alter para sublinhar sua abertura ao outro, reunindo inicialmente J.-M. Mouillie e Ph. Beck, depois F. D. Sebbah e A. Montavont, com a presença de S. Nagaï e D. Lohmar, seguidos por Ph. Cabestan, V. Houillon, A. Steinbock, D. Zahavi e R. Barbaras, e mais recentemente B. Bégout, E. Bimbenet, V. Kokoshka, P. Rodrigo, L. Perreau, J. Farges e C. Riquier; desde 1993 tornou-se a revista Alter, vinculada desde 2011 aos Archives-Husserl, com J. Benoist no comitê de redação e cooperação com Europhilosophie de J.-C. Goddard.
  • Colóquios sobre a experiência da atenção com A. Steinbock em Carbondale (1999) e Paris (2000) geraram o volume Phenomenology of Attention (2005, ed. Steinbock e Depraz); paralelamente, a colaboração entre N. Depraz, F. J. Varela e P. Vermersch desde 1995, com seminário de prática fenomenológica a partir de 1996 e ateliers no Collège international de philosophie (1998-2002), resultou em On Becoming Aware. An Experiential Pragmatics, descrição em ato do ato da tomada de consciência (becoming aware).

3.4. PROVAS DAS ABORDAGENS EM PRIMEIRA E EM SEGUNDA PESSOA

  • Uma colaboração se estabeleceu com uma equipe de psiquiatras urgentistas especializados em terapia familiar, formalizada no Collège international de philosophie (2002-2004) em relação com a Équipe rapide d'intervention de crise (ERIC) do hospital Charcot, dirigida pelo Dr. F. Mauriac, ampliando a ferramenta da tomada de consciência à sua dimensão comunitária, interpessoal e antropológica.
    • A colaboração se traduziu em reuniões clínicas mensais no hospital Charcot (2005-2009) e na redação de numerosos artigos com F. Mauriac e colaboradores, entre eles “A ressonância como epoché ética” (Alter, n. 13, 2005), “Segundas pessoas: uma antropologia da relação” (L'Évolution psychiatrique, 2006), “Multiplicidade relacional e relação interindividual” (com L. Zeltner, Alter, n. 14, 2006), “Segundas pessoas. O exemplo de um serviço psiquiátrico de urgência: ERIC” (2007), estudos sobre as hierarquias funcionais e as figuras da mobilidade no trabalho com adolescentes (com L. Zeltner), “Fenomenologia da relação” (2009), “A fecundidade da fenomenologia da vida de Michel Henry para as abordagens em segunda pessoa” (Revue internationale Michel Henry, 2010), reflexão sobre ressonância e antinomia como figuras relacionais do compromisso (2011), e um estudo sobre a intussuscepção entre ressonância e empatia à luz do aporte de Marcel Jousse (2011-2012).
    • Essa colaboração se institucionalizou com estudantes de Mestrado da Universidade de Rouen realizando estágios de observação no serviço ERIC, como S. Jobert, que cruzou teoria fenomenológica (Levinas, Henry) e prática em segunda e primeira pessoa sobre violência e sofrimento nas relações intersubjetivas, e Thomas Cuvelier e Eileen Lewandowicz, que trabalharam respectivamente sobre o coletivo nas instituições terapêuticas e sobre a vontade e suas patologias a partir de Sêneca.
  • A prova da abordagem em primeira pessoa se concretizou em duas colaborações a partir dos Archives-Husserl.
    • Um atelier experiencial de dois dias, coanimado com Cl. Petitmengin e M. Bitbol em maio de 2011 e 2012, reuniu-se anualmente para experimentação a partir da entrevista de explicitação e da leitura experiencial de textos fenomenológicos, aproximando-se do trabalho do grupo neuroexperiencial de Claire Petitmengin e Michel Bitbol no CREA, em colaboração com o serviço de neurologia do Pr. Jean Vion-Dury em Marselha, explorando métodos experienciais em primeira e segunda pessoa a partir da leitura de um texto fenomenológico como objeto experiencial, por meio de autoexplicitação e entrevistas em grupos de três, com o objetivo de refinar a metodologia comparativa entre explicitação e leitura experiencial dos textos.
    • A segunda colaboração se insere num projeto ANR liderado pelos Archives-Husserl (N. Depraz) em parceria com o Inserm de Tours (T. Desmidt) e a Universidade Paris-Diderot (A. Celle), sobre a surpresa na espontaneidade das emoções como vetor de cognição ampliada, combinando protocolos experimentais de neurofisiologia sobre hiporreatividade à surpresa em sujeitos depressivos, protocolos de linguística sobre reação verbal espontânea a imagens surpreendentes, e os marcos filosóficos disponíveis sobre a surpresa (Descartes, Smith, Diderot, Husserl, Heidegger, Levinas, Merleau-Ponty, Jonas, Marion), com o objetivo de comparar descrições em primeira pessoa de sujeitos depressivos e estudantes de linguística com os conceitos das descrições filosóficas em terceira pessoa, visando uma descrição requalificada do tempo e da encarnação da surpresa.
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