GA36-37:39-40 – a dúvida cartesiana

Com o propósito de determinar a posição real de Descartes na história da filosofia ocidental, no tocante às questões fundamentais, e ao fazê-lo, realçar o predomínio decisivo da ideia matemática do método (Methode), afirmo o seguinte:

1. a radicalidade da dúvida (Zweifels) de Descartes e o vigor (Strenge) da nova fundamentação (Grundlegung) da filosofia e do saber em geral é uma aparência (Schein) e, assim, fonte de ilusões fatais, hoje, muito difíceis de serem eliminadas;

2. este pretenso novo princípio (Neuanfang) da filosofia moderna, com Descartes, não apenas não consiste, como é, sobretudo, o início de mais uma decadência da filosofia (Verfalls der Philosophie). Descartes não leva a filosofia de volta para si mesma, para seu fundo e seu chão (Grund und Boden), mas a distancia mais ainda do questionamento da questão fundamental.

α) A dúvida metódica como caminho do indubitável (Unbezweifelbaren). O mais simples e o mais evidente é o fundamento (Das Einfachste und Einsichtigste als Fundamentum)

Trata-se de provar essas afirmações no seu contexto. Tal proposta é, ao mesmo tempo, a primeira estocada num ataque geral, que visa a Hegel. Antes, porém, deve-se sondar a posição de Descartes com mais nitidez e, sobretudo, ver uma coisa à medida que sua atitude de duvidar e o intuito de dar nova fundamentação correspondem inteiramente à sua ideia diretriz de método.

Muitas vezes chama-se a dúvida cartesiana de “dúvida metódica”. Com isso, entende-se o seguinte: a dúvida não deve ser meta e fim em si mesma, duvidar por duvidar. Pratica-se a dúvida, visando a algo indubitável. A dúvida serve apenas de caminho para a certeza.

Todavia, a dúvida de Descartes é “metódica” ainda num outro sentido, mais profundo e totalmente diferente. A saber, à medida que a dúvida se dá e acontece no sentido e a serviço do que Descartes entende simplesmente por método, isto é, do “matemático”, acima caracterizado. Isso significa: subordinando o filosofar a um pensamento-guia (Leitgedanken), tal método decide, de antemão, o caráter que deve ter e satisfazer, o que há de se considerar como solo seguro para todo saber. Deve ser algo superlativamente simples, simplicissima propositio, e, com isso, algo absolutamente evidente (intuitus).

(HEIDEGGER, Martin. Ser e Verdade. 1. A questão fundamental da filosofia. 2. Da essência da verdade. Tr. Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Petrópolis, 2007, p. 53-54)

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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