Zubiri (SE:3-6) – essência e substância

tradução

Essência é o título de um dos temas centrais de toda metafísica. A palavra latina essentia é um termo culto; é o abstrato de um suposto particípio presente essens (esente) do verbo esse (ser). Morfologicamente, então, é o homólogo exato do grego ousia, que por sua vez (ou pelo menos era assim percebido pelos gregos) um abstrato do particípio feminino atual ousa do verbo einai (ser). Essa homologia pode nos levar a pensar que ousia significava essência. No entanto, este não é o caso. O vocábulo grego, na língua usual, é muito rico em sentidos e nuances; e em todos eles o emprega Aristóteles. Mas quando o filósofo o usou como termo técnico, não significava essência, senão substantia, substância. Por outro lado, o que essa palavra em latim traduz exatamente é o termo hypokeimenon, aquilo que “está-por-baixo-de” ou “é-suporte-de” accidentes (symbebekota). Não é uma mera complicação de azares linguísticos: é que para o próprio Aristóteles a ousia, a substância, é sobretudo e, em primeira linha (malista), o hypokeimenon, o sujeito, o sub-estante. Em vez disso, a essência corresponde mais ao que Aristóteles chamou to to hen einai e os latinos quidditas, o “o que” é a ousia, a substância. Para Aristóteles, a realidade é radicalmente substância e a essência é um momento desta. A essência é, portanto, sempre e somente a essência da substância.

Essa implicação ou referência mútua de essência e substância, dentro de sua inegável distinção, decorreu, conforme necessário, ao longo de toda a história da filosofia, mas assumindo um caráter diferente. Durante a Idade Média, as ideias de Aristóteles sobre esse ponto são fundamentalmente repetidas. Mas a partir do final do século XIV, e culminando com a ideia de Descartes, a essência começa a se dissociar da substância, e é referida a ela de uma maneira por assim dizer relaxada. De fato, Descartes não duvida que apenas a evidência imediata garanta que a essência do ego seja um res cogitans, algo pensativo, enquanto a essência do mundo seja um res extensa, algo extenso. Ora, aqui res não significa coisa, isto é, substância, mas apenas o que os escolásticos entendem por res, isto é, a essência em seu sentido latino, o “quê”; por isso traduzi o termo por “algo”. E esta res ou essência é tão diferente de “coisa” ou substância, que para apreender aquela seria suficiente a cogitação evidente, enquanto para assegurar que a essência se encontre realizada em “coisas ou substâncias” não apenas não somente não o basta a Descartes com a evidência, senão que tem que dar o desvio problemático de apelar para nada menos que a veracidade divina. Essência e substância estão, portanto, implicadas, mas da maneira mais relaxada possível: somente pela mera potentia Dei ordinata, pelo poder “razoável” de Deus.

A partir deste momento, esse vínculo cai quase por si só, e a substância permanece além da essência; não podia menos suceder assim. Mas a essência continua referida a uma substância especial, a substância pensante, que enquanto pensante seria um sujeito substancial. A essência seria então um ato formal de concepção deste pensamento ou, pelo menos, seu termo meramente objetivo: é o idealismo da essência em suas várias formas e matizes.

Na filosofia atual, é verdade que ainda esta implicação parece desaparecer. Fiel senão à letra, sim ao espírito cartesiano, Husserl, seguindo um escolástico, Brentano, afirmará que as essências nada têm que ver com substâncias, porque a consciência mesma não é substância, senão pura essência. Desta sorte, a orbe inteira das essências repousa sobre si mesma. As substâncias não são senão suas realizações incertas e contingentes. É a deformação mais cartesiana do cartesianismo. Mais um passo, e des-substancializada a consciência reduz-se a ser “minha consciência”, e este “minha” exige o caráter de ser simplesmente “meu próprio existir”. Assim, o que anteriormente era chamado de “sujeito” pensante, consciência etc., é agora só um tipo de ímpeto existencial, cujas possibilidades de realização dentro da situação em que se acha, são justamente a essência, algo assim como um precipitado essencial do puro existir. É a tese de todos os existencialismos. A realidade ficou des-substanciada e a essência realizada de maneira puramente situacional e histórica.

Poderia se pensar, então, que os avatares intelectuais recaíram muito mais sobre a substância que sobre a essência, como se o conceito desta tivesse se conservado imperturbavelmente idêntico na filosofia. Nada mais errôneo. Mas um erro explicável, porque esses termos consagrados por uma tradição multissecular podem produzir, pelo mero fato de sua consagração, a impressão enganosa de que ao empregá-los, todos os entendem da mesma maneira, quando a verdade é que muitas vezes envolvem conceitos distintos. E é o que ocorre em nosso caso. De acordo com a transformação do conceito de realidade como substância, o conceito de “o que” é essa realidade mudou, a saber a essência. Por um paradoxo singular, encontramo-nos, pois, ante o mesmo problema com o que desde um principio teve que se debater o próprio Aristóteles: a implicação entre a estrutura radical da realidade e a índole de sua essência.

É por isso que coloquei, como lema do trabalho, a frase com a qual Aristóteles começa o livro XII de sua Metafísica: “Esta (é uma) especulação sobre a substância”. Nesta passagem, Aristóteles reafirma sua ideia da realidade como substância e trata formalmente de encontrar suas causas. Mas nada impede – muito pelo contrário – de aplicar aquela frase a uma investigação sobre a essência da substância, realizada no livro VII. Agora, ao invocar esta frase, não o faço como título de uma tentativa de repetir suas ideias, mas como um lembrete da primariedade com que Aristóteles aborda este problema e como um convite para recolocá-lo. De fato, não se trata de pegar dois conceitos já feitos, o de substância e o de essência, e de ver como acoplá-los em uma ou outra forma, senão de colocar-se o problema que clama sob esses dois vocábulos, o problema da estrutura radical. da realidade e de seu momento essencial.

Original

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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