Zubiri (NHD:241-242) – Sócrates e a ética

Atalhemos imediatamente uma falsa interpretação. Que Sócrates medite sobre as coisas da vida usual não quer dizer que medite somente sobre o homem e seus atos. Comumente se tomou nesse sentido o testemunho de Aristóteles. No entanto, o vocábulo grego êthos tem um sentido infinitamente mais amplo que o que damos hoje à palavra “ética”. O ético compreende, antes de tudo, as disposições do homem na vida, seu caráter, seus costumes e, naturalmente, também o moral. Em verdade, poder-se-ia traduzir por “modo ou forma” de vida, no sentido profundo da palavra, diferentemente da simples “maneira”. Pois bem: Sócrates adota um novo modo de vida: a meditação sobre o que são as coisas da vida. Com isso, o “ético” não está primariamente naquilo sobre o que medita, mas no fato mesmo de viver meditando. As coisas da vida não são o homem; mas são as coisas que se dão em sua vida e das que essa depende. Fazer que a vida do homem dependa de uma meditação sobre elas não é meditar sobre o moral, diferentemente do natural: é, simplesmente, fazer da meditação o êthos supremo. Dito em outros termos: a sabedoria socrática não recai sobre o ético, mas é, em si mesma, ética. Que de fato aplicasse sua meditação com preferência às virtudes cívicas é coisa por demais secundária. O essencial é que o intelectual deixou de ser um vagabundo que vive nas estrelas para transformar-se em homem sábio. A Sabedoria como ética: aí está a obra socrática. No fundo, uma nova vida intelectual.

Essa ética da meditação sobre as coisas da vida levou inexoravelmente a uma intelecção específica dessas. Com a filosofia tradicional, já o vimos, a natureza é aquilo de onde tudo emerge; e, quando a Sabedoria adotou a forma de ciência racional, as coisas (241) se apresentaram à mente com sua physis própria. “A Natureza” deu passagem à “natureza” de cada coisa. Sócrates está muito longe disto, por ora. Ao centrar sua mente e sua meditação nas coisas tais como se apresentam na vida, a fim de fazer depender esta do que aquelas são em si mesmas, o “são”, o eínai, adquire um novo sentido. Não é, por enquanto, nada que faça alusão à sua natureza. Isso não significa que Sócrates tenha descoberto o conceito. Há que esperar, para isso, até Aristóteles e Platão. Mas o conceito aristotélico não é mais que a teoria do quid da índole de cada coisa, de seu ti. O que a mente de Sócrates alcança, ao concentrar-se nas coisas usuais, é a visão do “quê” das coisas na vida. A Sabedoria como ética levou, pois, a algo decisivo relativo à inteligência das coisas mesmas; tão decisivo, que será a raiz de toda a nova filosofia e o que lhe permitirá voltar a encontrar por outros caminhos os temas da Sabedoria tradicional, momentaneamente postos em suspenso. (ZUBIRI, Xavier. Natureza, História, Deus. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 241-242)

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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