SZ:295 — querer-ter-consciência

Castilho

A interpretação existenciária da consciência deve pôr à mostra uma atestação, que é no Dasein ele mesmo, do seu poder-ser mais-próprio. O modo como a consciência atesta não é o modo de um informe indiferente, mas um despertar para-adiante dirigido ao ser-culpado. O assim atestado é “apreendido” no ouvir que entende o apelo e não o deturpa, no sentido em que ele mesmo pretende ser entendido. Só o entendimento-da-intimação como modus-do-ser do Dasein dá o conteúdo fenomênico do que é atestado no apelo da consciência. Nós caracterizamos o entender próprio do apelo como querer-ter-consciência. Esse deixar-agir-em-si (807) o si-mesmo mais-próprio, a partir dele mesmo em seu ser-culpado, representa fenomenicamente o poder-ser próprio atestado no Dasein ele mesmo, cuja estrutura existenciária deve ser posta em liberdade de agora em diante. Só assim poderemos penetrar na constituição-fundamental, aberta no Dasein ele mesmo, que é a propriedade de sua existência.

Querer-ter-consciência, como se entender no mais-próprio poder-ser, é um modo do ser-aberto do Dasein. Além do entender, o ser-aberto é constituído também pelo encontrar-se e pelo discurso. O entender existencial significa: projetar-se na possibilidade factual, cada vez mais-própria, do poder-ser-no-mundo. Mas poder-ser só é entendido no existir nessa possibilidade.

Que estado-de-ânimo correspondente a tal entender? O entender-o-apelo abre o próprio Dasein no estranhamento de seu isolamento. O estranhamento que se desvenda ao mesmo tempo no entender é genuinamente aberto pelo encontrar-se da angústia que lhe pertence. O factum da angústia-da-consciência confirma fenomenicamente que o Dasein, no entender-o-apelo, é conduzido ante o estranhamento de si mesmo. O querer-ter-consciência torna-se um ficar-pronto para a angústia.

O terceiro momento-essencial do ser-aberto é o discurso. Ao apelo, como discurso originário do Dasein, não corresponde um contradiscurso — algo no sentido de, por exemplo, uma discussão sobre o que a consciência diz. O ouvir que-entende o apelo não se nega ao contradiscurso para que um “poder obscuro” não se lhe sobrepuje e o derrube, mas porque ele sem encobrimento se apropria do conteúdo do apelo. O apelo põe diante do constante ser-culpado e dessa maneira traz de volta o si-mesmo do ruidoso falatório da entendibilidade de a-gente. Por conseguinte, o modus de articulação do discurso pertinente ao querer-ter-consciência é o ser-calado. O calar-se foi caracterizado como a possibilidade essencial do discurso 1. Quem quer dar a entender algo se calando deve (809) “ter algo a dizer”. O Dasein na intimação dá-se a entender seu poder-ser mais-próprio. Por isso esse apelar é um calar-se. O discurso da consciência nunca chega à proferição. A consciência só apela se calando, isto é, o apelo provém da não-proferição do estranhamento e apela para que o Dasein retorne também calado ao silêncio de si-mesmo. O querer-ter-consciência só entende, por conseguinte, de modo adequado esse discurso calado unicamente no ser-calado. Ele cassa a palavra do entendedor falatório de a-gente.

O discorrer calado da consciência toma a interpretação-da-consciência do entendimento comum, que “se atém rigorosamente a fatos”, como oportunidade para afirmar que constatar a consciência como tal é algo de todo impossível e não subsistente. Que a-gente, por somente ouvir e entender o barulhento falatório, não pode “constatar” apelo algum, o que se atribui à consciência com a desculpa de ela ser “muda” e de modo manifesto não-subsistente. Essa interpretação de a-gente nada mais faz do que encobrir sua surdez para o apelo e a reduzida amplitude do seu “ouvir”. (p. 807, 809, 811)

Schuback

Rivera

Vezin

Macquerrie

Original

  1. Cf. § 34, p. 218.[↩]
  2. Cf. § 34, p. 187.[↩]
  3. Cf. § 34, p. 164.[↩]
  4. Vgl. § 34, S. 164.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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