SZ:242-243 – Ausstand – faltante

Castilho

Há no Dasein uma constante “não-totalidade” indelével até que com a morte encontra seu final. Mas esse dado-de-fato fenomênico que pertence ao Dasein enquanto ele é, esse ainda-não, pode ser interpretado como faltante? A que ente nos referimos ao falar de faltante? A expressão significa o que “pertence” certamente a um ente, mas que ainda lhe falta. O faltar como falha se funda numa pertinência. Por exemplo, falta o restante de uma dívida que ainda não foi paga. O faltante ainda não está disponível. A extinção da “dívida” como eliminação do faltante significa o “ingresso”, isto é, a entrada subsequente (669) do restante, pela qual o ainda-não é como que preenchido até que a soma devida seja “completada”. Faltar significa por isso: o ainda-não-estar-junto-daquilo-a-que-se-deveria-estar-junto. Ontologicamente, nisso reside a não-utilizabilidade de partes que-deveriam-estar junto das que já são utilizáveis, as quais têm, por sua vez, o mesmo modo-de-ser que elas e não se modificam em seu modo-de-ser pelo ingresso do restante. O não-todo subsistente é eliminado por um amontoar das partes. O ente no qual há ainda algo faltante tem o modo-de-ser do utilizável. O estar-junto, ou não estar-junto que nele se funda, nós o caracterizamos como soma.

Porém esse não estar-junto pertencente àquele modus do estar-junto, o faltar como faltante, não pode de modo algum determinar ontologicamente o ainda-não que pertence ao Dasein enquanto morte possível. Este ente não tem em geral o modo-de-ser de um utilizável do interior-do-mundo. O estar-junto do ente que o Dasein é “no seu curso”, isto é, até que tenha completado “seu curso”, não é constituído por um juntar “sucessivo” de partes de ente que já é utilizável por si e em algum lugar. O Dasein não começa a ser quando seu ainda-não é preenchido, momento em que ele, ao contrário, precisamente já não é. O Dasein existe precisamente sempre cada vez já de tal maneira que seu ainda-não lhe pertence. (p. 669, 671)

Rivera

Vezin

Macquarrie

Original

  1. ‘Aber darf der phänomenale Tatbestand, dass zum Dasein, solange es ist, dieses Noch-nicht “gehört”, als Ausstand interpretiert werden?’ The contrast between ‘Tatbestand’ and ‘Ausstand’ is perhaps intentional.[↩]
  2. Ausstehen als Fehlen gründet in einer Zugehörigkeit.’[↩]
  3. ‘Tilgung der “Schuldals Behebung des Ausstandes bedeutet das “Eingehen”, das ist Nacheinanderankommen des Restes, wodurch das Noch-nicht gleichsam aufgefüllt wird, bis die geschuldete Summebeisammenist.’ On ‘Schuld’ see note 1, p. 325, H. 280.[↩]
  4. Throughout this sentence Heidegger uses words derived from the verb ‘laufen’, ‘to run’. Thus, ‘in running its course’ represents ‘in seinem Verlauf’, ‘ “its course” has been completed’ represents ‘es “seinem Lauf” vollendet hat’; ‘continuing’ represents ‘fortlaufende’.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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