SZ:238 – morte dos outros

Castilho

O Dasein dos outros, ao atingir na morte o seu todo, é também um já-não-ser-“aí” (Nichtmehrdasein), no sentido do já-não-ser-no-mundo (Nicht-mehr-in-der-Welt-seins). Morrer não significa sair-do-mundo, perder o ser-no-mundo? Todavia, o já-não-ser-no-mundo do morto é ainda-entendido em extremo — um ser no sentido do ainda-só-subsistência de uma coisa corporal que vem-de-encontro. No morrer dos outros se pode experimentar o notável fenômeno-de-ser que deve se determinar como a mutação de um ente a partir do modo-de-ser do Dasein (ou da vida) em um já-não-ser-“aí”. O final do ente qua Dasein é o começo desse ente qua mero subsistente.

Entretanto, essa interpretação da mutação a partir do Dasein em uma-ainda-só-subsistência perde, todavia, o conteúdo fenomênico na medida em que o ente ainda remanescente não se mostra uma pura coisa-corporal. Mesmo o cadáver subsistente, teoricamente visto, é ainda um possível objeto de estudo da anatomia patológica, cuja tendência-a-entender permanece orientada pela ideia de vida. O ainda-só-subsistente é “mais” do que uma coisa material sem vida. Com ele vem-de-encontro um não-vivo que perdeu a vida.

Mas essa caracterização do ainda-remanescente ela mesma não esgota por completo o dado-fenomênico-do-que-é-conforme-ao-Dasein.

O “finado”, diferentemente do morto que foi arrebatado “aos sobreviventes”, é objeto da “ocupação” pelo modo do funeral, do sepultamento, dos cuidados com o túmulo. Isto ocorre, por sua vez, porque em seu modo-de-ser ele é “ainda mais” do que um instrumento apenas utilizável em ocupação no mundo-ambiente. Permanecendo com ele no luto de recordação, os sobreviventes estão junto a ele e com ele, em um modus da preocupação-com-o-outro, a reverenciá-lo. Por isso a relação-de-ser para com o morto não deve ser apreendida como ocupação junto a um utilizável. (p. 659)

Rivera

Vezin

Macquarrie & Robinson

Original

  1. “El ‘difunto’…”: en alemán, der “Verstorbene”. En alemán hay una diferencia entre el “meramente muerto” (der Gestorbene) y el difunto (der Verstorbene). Esta última palabra se usa, por ejemplo, para hablar de los muertos de la familia, de los muertos que se recuerda. En cambio, la palabra Gestorbener significa simplemente alguien que ha dejado de vivir. En este caso se piensa en el muerto, por así decirlo, hacia atrás: es el que vivía antes y ahora ya no vive. En cambio, el Verstorbener, el difunto, es el que pervive en el recuerdo de sus parientes o de sus conciudadanos.[↩]
  2. ‘Das Nur-noch-Vorhandene ist “mehr” als ein lebloses materielles Ding. Mit ihm begegnet ein des Lebens verlustig gegangenes Unlebendiges .’[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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