SZ:202-205 – “escândalo da filosofia”

Schuback

A questão se o mundo é real e se o seu ser pode ser provado, questão que a presença (Dasein) enquanto ser-no-mundo haveria de levantar – e quem mais poderia fazê-lo? – mostra-se, pois, destituída de sentido. Trata-se ademais de uma questão ambígua. Confunde-se e não se chega a distinguir mundo enquanto o contexto do ser-em e “mundo” enquanto ente intramundano em que se empenham as ocupações. No entanto, com o ser da presença (Dasein), o mundo já se abriu de modo essencial; com a abertura de mundo, já se descobriu o “mundo”. Sem dúvida, o ente intramundano no sentido de real, de ser simplesmente dado, pode ficar encoberto. Entretanto, somente com base num mundo já aberto é que o real pode vir a ser descoberto ou ficar encoberto. Coloca-se a questão da “realidade” do “mundo externo” sem se esclarecer previamente o fenômeno do mundo. De fato, o “problema do mundo externo” orienta-se, constantemente, pelos entes intramundanos (coisas e objetos) e, desse modo, todas as discussões conduzem a uma problemática que, do ponto de vista ontológico, é quase indeslindável.

Essa confusão das questões, o confundir-se do que se quer comprovar com o que se comprova e com a comprovação, mostra-se na “refutação do idealismo”1 de Kant. Kant chamou de “escândalo da filosofia e da razão humana em geral”2 que ainda não (271) se dispusesse de uma prova definitiva, capaz de eliminar todo ceticismo a respeito da “presença (Dasein) (existentia, presença (Dasein); N64) das coisas fora de nós”. (…)

(…)

O “escândalo da filosofia” não reside em essa prova ainda inexistir e sim em sempre ainda se esperar e buscar essa prova. Tais expectativas, intenções e esforços nascem da pressuposição, ontologicamente insuficiente, de algo com relação ao qual um “mundo” simplesmente dado deve comprovar-se independente e exterior. Insuficientes não são as provas. O modo de ser desse ente que prova e exige provas é que se encontra subdeterminado. Daí nasce a impressão de que, comprovando-se a necessidade do dar-se em conjunto de dois seres simplesmente dados, algo se prova ou pode ser provado a respeito da presença (Dasein) enquanto ser-no-mundo. Entendida corretamente, a presença (Dasein) resiste a tais provas porque ela já sempre é, em seu ser, aquilo que as provas posteriores supõem como o que se deve necessariamente demonstrar.

[HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução revisada de Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2018, p. 271-274, §43]

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Original

  1. Cf. Kritik der reinen Vernunff, p. 274s, e também os acréscimos no prefácio da segunda edição p. XXXIX, observação; e igualmente: Von den Paralogismen der reinen Vernunft, op. cit, p. 399s, especialmente p. 412.[↩]
  2. Idem, Prefácio.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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