Romano (EM:8-9) – o evento antes de qualquer coisa

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A partir do momento em que interpretamos qualquer manifestação relacionando-a com um sujeito, por exemplo, qualquer “ação” relacionando-a com um agente, qualquer “efeito” relacionando-o com uma “causa”, postulamos também implicitamente que “tudo o que acontece se comporta predicativamente em relação a um sujeito”. A atribuição do acontecimento a um substrato ôntico é acompanhada por uma redução do acontecimento a um “predicado” puro e simples, que é consequentemente dito de um “sujeito”. No exemplo citado por Nietzsche: “o relâmpago brilha”, o brilho não é aqui pensado no seu sentido puramente verbal como um acontecimento que se mostra como tal e se manifesta a partir de si mesmo, mas como um “predicado”, uma “propriedade” que manifesta outra coisa, nomeadamente o seu substrato ôntico, designado aqui pelo sujeito lógico da proposição: o relâmpago. Ora, é precisamente nesta transformação do acontecimento em predicado que reside, segundo Nietzsche, o profundo “erro” e “mitologia” veiculados pela linguagem; aos acontecimentos como “modificações de nós próprios” “sobrepusemos uma entidade à qual estão ligados, isto é, colocamos a ação como agindo e o agindo como ente” [Nietzsche, Nachgelassene Fragmente, 1885-1887, fragmento 2 (84)]. Aquilo a que chamamos “relâmpago” não é um “ente” que possuiria um certo modo de ser, pois não é de todo um ente, mas “é” precisamente nada mais do que o próprio relâmpago: é o “ter-lugar” do acontecimento que dá origem à “coisa”, e não o contrário; é a verbalidade do verbo donde deriva o sujeito, em vez de o verbo ser aqui concebido como aquilo que exprime a “ação” de um agente.

original

[ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1998]

  1. Nietzsche, Nachgelassene Fragmente, 1885-1887, Kritische Studienausgabe 12, herausgegeben von G. Colli und M. Montinari, DTV, de Gruyter, München, Berlin/New York, 1988, fragm. 2 (84), p. 104, trad. fr. de Julien Hervier (modifiée), in Fragments posthumes, 1885-1887, p. 110-111.[↩]
  2. Ibid, fragm. 2 (83), trad. fr., O.C., XII, p. 109.[↩]
  3. Ibid., fragm. 2 (84), trad. fr., O.C., XII, p. 110.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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