- Lucy Moreira Cesar
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Lucy Moreira Cesar
Esse arrancamento da consciência à falsa alternativa da “boa” e da “má” consciência encontra em Heidegger, no capítulo “Consciência” (Gewissen) da segunda parte de Ser e tempo, sua formulação mais radical, que resume esta única frase: “A atestação de um poder-ser autêntico é dada pela consciência”1; trad. Vezin, p. 287). Ficamos tanto mais atentos à análise de Heidegger quanto lhe devemos a execução de toda esta discussão, lançada pela metáfora da voz. Esse poder-ser que a consciência atesta não é inicialmente marcado por alguma competência a distinguir o bem do mal. A consciência, poderia-se dizer, está, a seu modo, “além do bem e do mal”; surpreende-se aí um dos efeitos da luta levada contra o pensar-valor dos neokantianos e, mais ainda, contra aquele de Max Scheler em sua Ética material (não formal) dos valores. Tudo se passa como se, para sublinhar Sein em Dasein, nós evitássemos reconhecer alguma força originariamente ética ao apelo, à advocação (segundo a tradução proposta por E. Martineau) do Anruf. Com efeito, quer consideremos o conteúdo ou a origem do apelo, nada se anuncia que não esteja já nomeado sob o título de poder-ser; a consciência não diz nada: sem algazarra nem mensagem, mas um apelo silencioso. Quanto ao apelante, ele não é outro que o próprio Dasein: “Na consciência, o Dasein chama-se ele próprio” ((275) trad. Martineau, p. 199; cf. trad. Vezin, p. 332). Encontra-se aí provavelmente o momento mais surpreendente da análise: é na imanência integral do Dasein a ele próprio, que Heidegger reconhece uma certa dimensão de superioridade: “o apelo não vem incontestavelmente de um outro que está no mundo comigo. O apelo vem de mim e, no entanto, ele me supera” (aus mir und doch uber mich) (ibid.) 1. (405)
Se nós nos limitarmos a essas fórmulas, não vemos o que a análise da consciência acrescenta à do poder-ser senão o selo de originariedade e autenticidade que a consciência põe sobre a atestação. A novidade reside na explicação do traço de estran(h/geir)eza (Unheimlichkeit) (adoto a grafia de E. Martineau) pelo que a consciência se inscreve na dialética do Mesmo e do Outro. Uma sutil aproximação se faz entre a estran(h/geir)eza da voz e da condição descabida (ou cabida?) do ser-lançado. É, com efeito, na existência, que o Dasein é lançado. A confusão da passividade, da não-dominação, da afeição, ligadas ao ser-convocado orienta-se para uma meditação sobre a nadificação, isto é, sobre a não-escolha radical que afeta o ser no mundo, considerado do ângulo de sua inteira facticidade 2.
A introdução tardia da noção de Schuld — “dívida”, segundo a tradução de Martineau — não restitui de modo nenhum a essa estrangeireza, qualquer conotação ética que seja. O acento é fortemente posto sobre Sein em Schuldigsein: “O essencial aqui é que o ‘em dívida’ surge como predicado do ‘eu sou’ ” ((281) trad. E. Martineau, p. 203; cf. trad. Vezin, p. 338). Por essa insistência na ontologia da dívida, Heidegger dissocia-se do que o sentido comum liga precisamente à ideia de dívida, a saber, que ela seja para com alguém — que se seja responsável como devedor —, enfim, que o ser, um com o outro, seja público. É bem isso que Heidegger tenciona reduzir a pão e laranja 3. A ontologia vela sobre o limiar da ética. Heidegger martela sua exigência: primeiramente informar-se fundamentalmente do “ser em dúvida do Dasein” ((283) Martineau, p. 204; cf. trad. Vezin, p. 340); portanto, em primeiro lugar sobre um modo de ser. Desse modo são colocados fora de jogo os fenômenos vulgares de dívida, de endividamento, que são relativos ao “ser-com” preocupado com os outros” (ibid.). O ser em dívida não resulta, pois, do endividamento (Verschuldung) — mas o inverso. Se alguma falta é revelada (406) aqui, não é o mal — a guerra, diria Lévinas —, mas um traço ontológico previsível a toda a ética: “O ser-fundamento de uma nulidade” (Grundsein einer Nichtigkeit) ((283) trad. Martineau, p. 204; cf. trad. Vezin, p. 341) 4. Já não se pode claramente repelir o primado da ética: “Se o ser-em-dívida originário não pode ser determinado pela moralidade, é que esta o pressupõe já para ela mesma” ((286) trad. Martineau, p. 206; cf. trad. Vezin, p. 344). Infelizmente, Heidegger não mostra como poderíamos percorrer o caminho inverso: da ontologia para a ética. É, contudo, o que parece prometer no parágrafo 59, onde ele entra em debate com a “explicação vulgar da consciência”. Nesse sentido, a atestação gera uma certa criteriologia, ao menos como crítica do sentido comum. Resulta daí uma crítica das noções de “boa” e de “má” consciência nos termos próximos dos que nós empregamos. É, em primeiro lugar, a noção de “má” consciência que é atingida pela “vulgaridade”: ela vem, com efeito, muito tarde, ulteriormente (ela é reativa, diria Nietzsche); falta-lhe, portanto, o caráter pro-spectivo inerente à preocupação. Nada, portanto, para tirar do re-morso, do arrependimento. Quanto à “boa” consciência, ela se vê afastada como farisaica: Pois quem pode dizer “eu sou bom”? Heidegger não quer mesmo ouvir falar da consciência como admoestação, advertência, em nome desse curioso argumento de que a consciência se tornaria assim prisioneira do “se” (292). Nisso tudo, a crítica de Heidegger do sentido comum encontra-se manifestamente próxima da Genealogia da moral de Nietzsche. Como consequência, são rejeitados em bloco o ponto de vista deontológico de Kant, a teoria scheleriana dos valores e, no mesmo movimento, a função crítica da consciência. Tudo isso fica na dimensão da preocupação, a que falta o fenômeno central, o apelo às possibilidades mais apropriadas. Nisso a atestação é realmente uma espécie de compreensão, mas irredutível a um saber alguma coisa. O sentido da atestação está agora selado. “Convocação provocante ao ser-em-dívida” ((295) trad. Martineau, p. 211; cf. trad. Vezin, pp. 353-354).
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234) trad. Martineau, p. 175 (art58
- Não é que a referência a outro falte inteiramente: mas o outro só está implicado em consideração ao “se” e no plano inautêntico da preocupação: “É o si-mesmo (das Man-Selbst) do ser-com preocupado com o outro que é atingido pelo apelo” ((272) trad. E. Martineau, p. 198; cf. trad. Vezin, p. 329). A dominante permanece o arrancamento do si ao “se”: “A consciência convoca o si-mesmo do Dasein fora da perda no se”. Voltaremos, do ângulo do terceiro desafio, a essa ausência, em Être et temps, de um desenvolvimento dedicado às formas autênticas do ser-com sobre as quais se poderia enxertar uma aproximação diferente da alteridade da consciência.[
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- “E o que é que poderia ser mais estranho ao se, perdido como ele está na diversidade do “mundo”, de sua preocupação como o Si-mesmo isolado sobre si na estrangeireza, lançado no nada?” ((277) trad. E. Martineau, p. 200; cf. trad. Vezin, p. 331). Razão por que, apelando-o, não é também alguém, uma vez que o apelo vem da estran(h/geir)eza até da condição lançada e decaída: “Apelo vindo da (estran(h/geir)eza” ((280) trad. Martineau, p. 202; cf. trad. Vezin, p. 337), isto é, do “isolamento lançado” (ibid.).[
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- Portion congrue — (Na linguagem eclesiástica) pensão anual que o beneficiado paga ao sacerdote que serve o seu benefício; e, por extensão, rendimento ou salário que mal chega para viver, ordenado mesquinho. (N.E.)[
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- E ainda: “O Dasein é como tal em dívida, se tanto é como permanece a determinação existencial formal da dívida como ser-fundamento de uma nulidade” ((285) trad. Martineau, p. 205; cf. trad. Vezin, p. 343).[
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