Raffoul (2010:17-19) – responsabilidade = responsividade

Tradução

Essa recolocação da responsabilidade abre a temática da responsabilidade e da responsividade, responsabilidade como “responder a” ou atender uma chamada. Derrida considera que qualquer senso de responsabilidade deve estar enraizado na experiência de responder e pertencer ao domínio da responsividade. A responsabilidade é antes de mais nada uma resposta, pois suas origens etimológicas, que são rastreáveis ​​ao latim respondere, traem. Derrida distingue três tipos de responsividade: há “responder de” (repondre de), “responder a” (repondre à) e “responder diante” (repondre devant). Derrida dá prioridade ao “responder a”, pois mobiliza a inscrição de um outro a quem ou ao qual respondo. Lê-se em The Politics of Friendship:

Um responde por, por si ou por algo (por alguém, por uma ação, um pensamento, um discurso), antes, antes de outro (uma comunidade de outros, uma instituição, um tribunal, uma lei). E sempre se responde por (por si ou por sua intenção, sua ação ou discurso), antes, respondendo primeiro a: esta última modalidade parece, portanto, ser mais originária, mais fundamental e, portanto, incondicional.

Os sentidos fenomenológicos de responsabilidade podem estar mais próximos de uma problemática de responsividade do que de prestação de contas, que é muito dependente de uma metafísica da subjetividade. A responsabilidade primeiro precisa ser tomada como um tipo de resposta, como sendo atribuída a uma chamada. Pensa-se aqui, por exemplo, no chamado de consciência de Heidegger em Ser e no Tempo, e mais tarde no chamado ou endereçamento do ser ao qual se deve corresponder, Heidegger indo tão longe nos Seminários de Zollikon a ponto de afirmar: “Ser responsável perante a reivindicação de presença é a maior reivindicação da humanidade: ética é esta reivindicação.” O motivo da chamada também é central para a definição de responsabilidade de Levinas — a chamada da outra pessoa, o outro humano, para fora de sua vulnerabilidade e mortalidade. Também se pode evocar aqui a problemática de Jean-Luc Marion do fenômeno saturado, e o chamado que esse excesso coloca no chamado que eu sou (l’interloque). Para Marion, de fato, os sentidos de responsabilidade como responsabilização do sujeito, assim como o sentido levinasiano de responder face ao outro, pressupõem o sentido original de responsabilidade como resposta ao chamado enquanto tal. “A responsabilidade agora pode ser redefinida”, escreve Marion, em Sendo Dado.

Ninguém negará esta responsabilidade, compreendida como propriedade de um “sujeito” jurídico que deve responder por seus atos e de um “sujeito” ético que deve responder ao que a face do Outro exige (confrontá-lo [de l’envisager] como tal), pode ser deduzido da figura mais geral da resposta a uma chamada por um dotado (un adonni).

E o resultado disso é que a chamada “sempre surge de um paradoxo (fenômeno saturado)”.

A responsabilidade é, portanto, uma resposta e não, como afirmou Kant, baseada em uma iniciação espontânea. O sujeito é o destinatário da chamada, e não um sujeito transcendental; somos respondentes, não iniciadores absolutos. Para Kant, ser responsável significa ser capaz de começar algo absolutamente. No entanto, como chamado, o sujeito nunca pode começar nada, mas pode apenas responder. O eu sempre vem depois, sempre chega “atrasado”, e sua responsabilidade é aquela própria demora na forma de se apresentar e atender a chamada. É aqui que se nota a importância crucial da concepção de ser humano que está na base de uma concepção de responsabilidade: Kant pensa o ser humano como sujeito racional, origem (“liberdade transcendental”) e fundamento. Seu conceito de responsabilidade terá estas características. Heidegger pensa o humano não mais como sujeito, mas como Dasein, isto é, como existência “lançada” (a ser assumida responsavelmente). Da mesma forma, em Lévinas o sujeito é entendido como designado a uma chamada, como passividade: o sujeito é refém do outro. A responsabilidade neste sentido não é uma questão de escolha ou inclinação, mas surge de uma exigência colocada ao “sujeito”, uma exigência que assume a forma de um dever, de uma obrigação ética, de um apelo a que não posso deixar de responder. Essa demanda precisa ser atendida: Ter que responder, responder (dever, obrigação), implica que não se pode não responder. Na verdade, não responder já é uma espécie de resposta. E é exatamente assim que Heidegger definiria inautenticidade – é uma não-resposta (ao chamado da consciência) que não deixa de ser uma espécie de resposta; “Responder na forma de não responder” significa ser inautêntico.

Original

  1. See for instance P, 15, where Derrida uses the term “responsiveness” in English in the original; and see GD, 3.[↩]
  2. Jacques Derrida. The Politics of Friendship (London and New York: Verso, 2005), 250; translation modified.[↩]
  3. In his book, Ethics and Finitude, Larry Hatab seeks to advance a notion of responsibility “that can be characterized as ‘answerability’ (cf. the German verantwortlich), rather than what I would call moralistic ‘accountability.’ With these formulations I mean to distinguish responsibility from autonomous agency and a related sense of accountability.” Lawrence J. Hatab, Ethics and Finitude (Lanham, Md.: Rowman & Littlefield, 2000), 185.[↩]
  4. Martin Heidegger. The Zollikon Seminars, trans. Franz Mayr and Richard Askay (Evanston, Ill.: Northwestern University Press, 2001), 217; translation modified. Hereafter cited as ZS, followed by page number.[↩]
  5. Jean-Luc Marion, Being Given: Toward a Phenomenology of Givenness, trans. Jeffrey L. Kosky (Stanford, Calif.: Stanford University Press, 2002), 293; translation modified.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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