Percepção psicológica e conhecimento pessoal

(RMAP:200-203)

[…] preencher com conteúdo fenomenológico os dois aspectos que a meditação de ontem nos indicou como características da realidade pessoal: a subjetividade e a individualidade essencial.

De fato, se essas duas categorias abarcam respectivamente, por assim dizer, a aparência e a essência, o rosto e a alma do que somos, elas devem conter o alfa e o ômega de um percurso de conhecimento pessoal: o dado inicial, o de um “encontro”, e o termo ideal do “percurso”. Em suma, o dado da percepção psicológica e o objeto do conhecimento pessoal.

A subjetividade, de fato, é o modo de presença das pessoas enquanto tais, o modo de nossa presença atual, pontual, aqui e agora, a sua e a minha. Imaginemos, caro leitor e cara leitora, que estamos novamente juntos na [201] sala com a lareira, nós três. Isso facilita o exercício eidético: cada um de nós tem diante de si tudo de que precisa.

Cada um de nós sabe que é uma pessoa e que seus dois interlocutores também o são. Esse saber certamente tem um componente conceitual e verbal: talvez Teodoro já tenha aprendido a aplicar mais ou menos corretamente esse termo “pessoa”, cujo domínio de aplicação, aliás, é incerto em suas margens. De qualquer forma, para conceber alguém legitimamente como pessoa, é preciso percebê-la como tal, responder-lhe de maneira adequada — e as crianças o fazem antes mesmo de aprender a descrever as pessoas como tais (embora a gênese da capacidade complexa de reconhecer pessoas não nos interesse aqui). Mas o que significa perceber uma pessoa? Fenomenologicamente, a presença pessoal fundamenta a percepção das pessoas. Em resumo, as perspectivas da primeira e da segunda pessoa (tu que me olhas, tu que não me olhas, tu que podes me prejudicar, tu que podes me ajudar) são as perspectivas da experiência verdadeiramente direta das pessoas, da “percepção psicológica”.

A percepção psicológica pressupõe o encontro, ao menos virtual. Pressupõe a possibilidade de entrar em uma relação, por assim dizer, vocativa. No vocativo, os nomes servem mais para chamar do que para designar: aliás, dentro de certos limites, podem ser substituídos pelos pronomes pessoais.

Esse é um ponto fundamental da fenomenologia do conhecimento pessoal: podemos até perceber algo como uma pessoa sem entrar em uma relação de “face a face” com esse algo — mas, sem esse “face a face”, sem interação, essa presunção perceptiva nunca pode ser “preenchida”, adequadamente verificada. Uma presença de pessoa é mais do que uma simples aparência de pessoa, pois é o início possível de um aprofundamento do conhecimento: portanto, de uma [202] “entrada em comunicação”. Geralmente, é o início de uma conversa.

O modo de presença atual de cada um de vocês, que vejo diante de mim, é diferente do modo de presença de mim mesmo, que não vejo diante de mim. Mas, por mais diferentes que sejam, são análogos sob dois aspectos: o tipo de coisa presente e a modalidade direta, imediata, “originária” da presença.

Quanto ao tipo de coisa presente, somos três (exemplares do tipo) pessoas. Você, leitora, na poltrona da direita. Você, leitor, na poltrona da esquerda. Eu, aqui, no banco.

A “apreensão” direta que cada um de nós tem dos outros e de si mesmo é um tipo de percepção que convencionamos chamar de psicológica, pelos aspectos que a distinguem da percepção de “objetos simples”, como veremos. E, antes de tudo, trata-se de verdadeiras presenças pessoais, onde, por essa razão, o modo de presença coincide com a perspectiva, respectivamente, da primeira e da segunda pessoa.

Sem dúvida, a percepção que tenho de vocês e a que tenho de mim mesmo são duas modalidades diferentes de percepção psicológica. Vejo suas fisionomias, suas atitudes — tensas ou relaxadas, por exemplo; o jogo de expressões em seus rostos (interesse, tédio, desejo de objetar etc.). No que me diz respeito, não vejo tudo isso, mas algo semelhante, eu o “vivo” por dentro, por assim dizer. Apreendo, no seu caso, seus atos e estados como tais — ou seja, enquanto atos e estados de um sujeito, apreendo o sujeito que cada um de vocês é em cada um desses atos e estados. No meu caso, eu “me vivo” enquanto “vivo em” certos atos e estados.

Efetivamente, a diferença entre sua vida e a minha é, do ponto de vista fenomenológico, a diferença entre uma vida vivida e uma vida observada. É a mesma diferença que há entre a percepção psicológica que tenho de vocês e a que tenho de mim. Não faz muito sentido [203] dizer a você, caro leitor, que eu o vivo. Mas viver é sempre, em certo sentido, viver-se.

Essa distinção nos ocupará por muito tempo ainda. Mas, para fixar as ideias, designemos por “empatia” a percepção psicológica do outro e por “viver-se” a percepção psicológica de si mesmo.

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

Designed with WordPress