Nancy (2002:66) – o pensamento da ética em Heidegger

nossa tradução

Apresentar o pensamento da ética em Heidegger envolve uma dificuldade tríplice, cujos termos inevitavelmente precisam ser definidos, pelo menos em breve. Primeiro de tudo, o envolvimento nazista de Heidegger, depois seu silêncio quase completo sobre os campos de concentração, marcaram sua memória (mesmo fora de qualquer julgamento político adequado) com uma mancha moral que muitos consideraram invalidar qualquer proposição ética de sua parte, se não de todo do seu pensamento. Não é nosso objetivo analisar essas informações (além disso, o caso já foi bem investigado por alguns trabalhos importantes; para constar: Bourdieu, Habermas, Faye, Poggeler, Lacoue-Labarthe, Derrida, Granel, Parfait, Janicaud, Wolin, Sluga, etc.). Nos limitaremos a postular o seguinte: é correto inferir do erro moral um certo estilo ou certa conduta intelectual profissional (em toda a obra), mas é errado traçar essa inferência quando o que está em questão é a lógica pela qual um pensamento procurou analisar o que constitui o homem como aquele através do qual o “Ser” tem como “senso” original (ou ethos) a escolha e a conduta da existência. O fato de este pensamento não ser igual à dignidade (Würde) que ele tomou como tema deve dar origem a novas reflexões. Mas isso só é possível se considerarmos o pensamento de Heidegger como seu ponto de partida (sem esquecer de perguntar a si mesmo qual era a expectativa ética precisa à qual o engajamento político procurou responder).

Além da consideração anterior, alguns pensaram ser possível negar que exista alguma dimensão ética no pensamento de Heidegger, baseando sua alegação em sua própria objeção à ética como uma “disciplina”, na correspondente ausência de uma “filosofia moral” em seu trabalho, e em sua recusa de qualquer interpretação moral da analítica de Dasein. Neste sentido, para que este capítulo tenha mínima relevância, seria necessário começar demonstrando a falsidade desse argumento e reconstruindo a possibilidade de uma abordagem ética de Heidegger. Não apenas aqui não há espaço para esta tarefa, mas também pode ser considerado desnecessário. Somente aqueles que leram Heidegger cegamente, ou não conseguiram pensar nele como um estranho a preocupações éticas. Além disso, já existem trabalhos suficientes para refutar esse preconceito. Será suficiente, então, explicar o seguinte (que o resto complementará): não há “moralidade” em Heidegger se o que isso significa é um conjunto de princípios e objetivos de conduta, fixados por autoridade ou por escolha, coletivo ou individual. Mas nenhuma filosofia fornece ou é por si só uma “moralidade” nesse sentido. A filosofia não se encarrega de prescrever normas ou valores: deve pensar a essência ou o sentido do que faz a ação [l’agir] como tal, em outras palavras, do que coloca a ação na posição de ter que escolher normas ou valores. Talvez, aliás, esse próprio entendimento da filosofia já seja de origem heideggeriana, ou pelo menos para nós, hoje, é necessariamente heideggeriano na modalidade. Isso não impediria alguém de mostrar como é apropriado Spinoza, Kant, Hegel ou Husserl, ou de mostrar como, sem dúvida por razões históricas específicas, isso concorda com os contemporâneos de Heidegger (cada um bem diferente dos outros), Bergson , Wittgenstein ou Levinas, o que equivale a dizer que, em termos gerais, haveria um argumento para mostrar como, com Heidegger e com o período de Heidegger, a filosofia se entendeu (mais uma vez) como “ética”, digamos, por conta de rapidez, e não como “conhecimento”, pressupondo, em particular, uma distinção entre “ética” e “moralidade”, que toda a nossa era atual herdou (mesmo que às vezes confundidamente). Mas esse não é o nosso objetivo aqui: precisamos simplesmente esboçar uma explicação interna do próprio Heidegger, esforçando-se para ser o mais rigorosamente fiel possível, evitando a piedade.

A terceira dificuldade conflita com o exposto acima. Se a ética constitui, paradoxalmente, de pronto um tema discreto e não obstrusivo na obra de Heidegger e uma preocupação constante, uma orientação de seu pensamento, seria necessário realizar um exame geral desse pensamento. De fato, teremos que mostrar até que ponto o “pensamento de Ser” – que é, afinal, o principal e até exclusivo título desse pensamento – não passa de um pensamento daquilo que Heidegger chamou de “ética original” e que é isso o tempo todo, em todos os seus desenvolvimentos. Em particular, não seria difícil mostrar que a celebrada “virada” (o Kehre), caracterizada de maneira mais sucinta como uma “passagem de ontologia a ontologia” (nos termos do Beiträge), basicamente corresponde a uma acentuação, um reforço ou uma “dobrar” do motivo ético. E isso, pode-se supor, não estava totalmente relacionado a uma reflexão silenciosamente tensa e perturbada pela aberração nacional-socialista. Portanto, é tão excluído de jure isolar uma “filosofia moral” heideggeriana quanto de fato, devido à economia de um dicionário, cobrir todo a obra de Heidegger. Então, nos limitaremos a explicar a intenção básica do texto em que o motivo da “ética original” é trazido à luz, ou seja, a “Carta do Humanismo”. Ligados a isso, estarão alguns lembretes essenciais sobre o que abriu o caminho para esse motivo em Ser e Tempo e Kant e o Problema da Metafísica. Quanto ao resto, as sugestões terão que ser suficientes (“o resto” seria acima de tudo: (1) o pensamento da liberdade como uma “fundação não baseada”; (2) o pensamento da linguagem e da poesia como um verdadeiro ethos; (3) o pensamento da “técnica” como um recuo dos fundamentos morais e a entrega de uma demanda ética diferente).

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Excertos de ,

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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