“Alguém”, ela ou ele, como se diz “é ele mesmo” diante de uma foto, enunciando com esse “mesmo” a sobreposição de um descompasso, a adequação do inadequado, que não se refere a nada além do que ao “instantâneo” do instante, que não é exatamente nada além de seu próprio descompasso. A foto, refiro-me à foto cotidiana, banal, revela ao mesmo tempo a singularidade, a banalidade e nossa curiosidade que vai de uma à outra.
O princípio dos indiscerníveis adquire aqui uma acuidade decisiva. Não apenas todas as pessoas são diferentes, mas elas diferem todas — de nada, senão umas das outras. Elas não diferem de um arquétipo ou de uma generalidade. Os traços típicos (sejam étnicos, culturais, sociais, de geração, etc.), cujos esquemas próprios constituem, por sua vez, outro registro de singularidades, não apenas não abolem as diferenças singulares, mas as destacam. Quanto às diferenças singulares, elas não são apenas “individuais”, mas infra-individuais: nunca é Pedro ou Maria que eu encontro, mas um ou outro em tal “forma”, em tal “estado”, de tal “humor”, etc.
Essa camada muito humilde de nossa experiência cotidiana contém uma afirmação ontológica rudimentar: de fato, o que recebemos (em vez de percebermos), com as singularidades, é a passagem discreta de outras origens do mundo. O que se apresenta ali, o que se curva, se inclina, se torce, se dirige, se recusa — desde o recém-nascido até o cadáver —, não é, em primeiro lugar, um “próximo”, nem um “outro”, nem um “estranho”, nem um “semelhante”: é uma origem, é uma afirmação do mundo — e sabemos que o mundo não tem outra origem além dessa singular multiplicidade de origens. O mundo surge sempre, a cada vez, de acordo com uma configuração exclusiva, local-instantânea. Sua unidade, sua unicidade e sua totalidade consistem na combinatória dessa multiplicidade reticulada, que não tem uma resultante.
Sem essa afirmação, não haveria nenhuma afirmação primeira da existência como tal, ou seja, dessa não-essência e não-subsistência por si mesma que constitui o fundamento do ser-si. É por isso que o “a-gente” (das Man) heideggeriano é insuficiente como apreensão inicial da “cotidianidade” existencial. Ele faz com que se confunda o cotidiano com o indiferenciado, o anônimo e o estatístico. Estes não são menos importantes, mas só podem se constituir em relação com a singularidade diferenciada que o cotidiano já é por si mesmo: cada dia, cada vez, dia após dia.
Não se pode afirmar que o sentido do ser deve ser indicado a partir da cotidianidade e, ao mesmo tempo, começar por negligenciar o diferencial geral do cotidiano, sua ruptura incessantemente renovada, sua discórdia íntima, sua polimorfia e sua polifonia, seu relevo e sua variedade. O “dia” não é simplesmente uma unidade de contagem. Ele é a configuração singular do mundo a cada vez, e os dias, ou mesmo todos os dias, não poderiam “se parecer”, como se diz, se não fossem, antes de tudo, diferentes, a própria diferença. O mesmo vale para as “pessoas”, ou melhor, “as pessoas”, com a irredutível bizarrice que as constitui como tais, são elas mesmas, antes de tudo, a exposição da singularidade segundo a qual a existência existe, de maneira irredutível e primeira — e de uma singularidade [27] que a experiência também atesta como comunicante com a totalidade do ente, ou como se comunicando a ela: a “natureza” também é “bizarra”, e nós existimos nela, existimos para ela no modo de uma singularidade sempre renovada, seja a da diversidade e disparidade de nossos sentidos, seja a da profusão desconcertante de suas espécies, ou a de suas metamorfoses na “técnica”. Mais uma vez, é para o todo do ente que dizemos o estranho, o curioso, o desconcertante.
Os temas do “espanto” e da “maravilha do ser” são suspeitos, se remetem a uma mística extática que pretende escapar do mundo. O tema da “curiosidade científica” não é menos suspeito, se remete a um afã colecionador de raridades. Em ambos os casos, o desejo da exceção supõe o desdém pelo ordinário. Hegel, sem dúvida, foi o primeiro a ter essa consciência, propriamente moderna, do paradoxo violento de um pensamento cujo bem próprio é o inaudito, e cujo domínio é a grisalha do mundo. A grisalha ordinária, a insignificância do cotidiano — da qual o “a-gente” heideggeriano retém o acento — supõem uma “grandeza” ausente, perdida ou distante. No entanto, a verdade não pode ser outra coisa senão a verdade do ente em sua totalidade, ou seja, na totalidade de seu “ordinário”, assim como o sentido não pode estar em outro lugar senão na própria existência, e não em outro lugar. O mundo moderno exige que se pense essa verdade: que o sentido está na própria existência. Ele está na pluralidade indefinida das origens e em sua coexistência. O “ordinário” é sempre excepcional, desde que se reconheça seu caráter de origem. O que recebemos mais comumente como “bizarrice” é esse próprio caráter. Na nudez da existência e segundo o sentido do mundo, a exceção é a regra. (Aliás, não é disso mesmo que dão testemunho as artes e a literatura? O primeiro e talvez único ofício de sua existência, ela mesma estranha, não seria o de apresentar essa estranheza? Afinal, na etimologia da palavra “bizarro”, seja pelo basco ou pelo árabe, encontramos a valentia, a prestância e a elegância.)
(NESP)