McNeill (1999:44-47) – Augenblick [kairos]

A visão prática que informa a phronesis ocorre em um olhar momentâneo; é um momento de “concreção mais extrema”, um momento que, como diz Heidegger, orienta ou se direciona para “o que é mais extremo” (das Äußerste), avista o eschaton absoluto:

O noûs da phronesis visa ao que é mais extremo no sentido do eschaton absoluto. A phronesis é uma visão do aqui-e-agora (Erblicken des Diesmaligen), do caráter concreto do aqui-e-agora [ou singularidade: Diesmaligkeit] da situação momentânea. Como aisthesis, é o olhar da véspera, o olhar “momentâneo” (der Blick des Auges, der Augen-blick) para o que é concreto em cada caso específico e, como tal, sempre pode ser diferente. O noein na sophia, ao contrário, é uma contemplação daquilo que é aei, daquilo que está sempre presente em sua mesmidade. (GA19,163-64)

Em seu tratado de 1922 “Phenomenological Interpretations with Respect to Aristotle” (GA61), Heidegger já havia identificado o momento do insight prático ou Augenblick como a tradução da concepção de Aristóteles do kairos da situação prática (PIA, 35-36). Mais tarde, no curso de 1927 The Basic Problems of Phenomenology, ele observaria que “Aristóteles já viu o fenômeno do Augenblick, o kairos, e o delimitou no Livro VI de sua Ética a Nicômaco, embora sem conseguir conectar o caráter temporal específico do kairos com o que ele conhece como tempo (o nun)” (GA24, 409). O kairos refere-se ao momento oportuno, o momento temporal de decisão no qual a ação se inicia, o momento em que tudo gira e em torno do qual tudo gira. O que é “visto” (na maior parte das vezes, apenas implicitamente) no momento kairótico do insight é o eschaton, “o ponto mais extremo [das Äußerste], no qual a situação concreta que é vista de uma maneira determinada atinge seu ápice [ou culmina: sich zuspitzt] em cada caso” (PIA, 35).1

Certamente, o momento da visão ou do olhar intrínseco à phronesis, em virtude de uma prohairesis orientadora, sempre já permitiu que a situação fosse vista em um determinado aspecto. A própria existência humana da praxis (o prakton), como a transformação hesitante, porém contínua, da praxis em cada caso, já é, portanto, sempre vista com relação a um “ainda não” orientador, uma possibilidade e direcionalidade futural para sua transformação. No entanto, em meio a essa visão “kairótica” na qual, no desdobramento da praxis, o que foi sempre já se transformou em e para o futuro, o insight prático atinge seu ápice ao se abrir para algo que não pode ser calculado ou apropriado pela deliberação. Como deliberativa, a phronesis é, como Heidegger (ecoando Aristóteles) coloca, “epitática”: ela emite comandos, ordena e direciona o que é visto no Augenblick, dando-lhe uma determinação, permitindo que seja visto sob uma luz particular. Mas essa “iluminação epitática” apenas leva nossa praxis a uma “prontidão para” algo, a uma “ruptura em direção a” algo (der Bereitschaft zu des Losbrechens auf…) (GA61:PIA, 36). Pois o eschaton da visão prática, o ponto em que esta última para e chega a um fim ou parada, é também o fim do logos, uma paralisação (Stillstand) e um silenciamento. É “aquele momento do ser (Seinsmoment) que se preocupa com entes concretos e no qual a intervenção do médico se engaja (einsetzt) e, inversamente, aquele momento no qual a deliberação e a conversa sobre as coisas chegam a um impasse” (GA19, 157-58).2 Esse eschaton é “o limite mais extremo” (die äußerste Grenze) da deliberação, no qual “uma ação se engaja”.

Na phronesis, a aisthesis prática infoma cada momento na transformação contínua da praxis que é a existência humana. Ela revela a própria praxis em seu caráter momentâneo, sua exposição a uma situação específica. No entanto, será que a aisthesis prática revela a praxis em si (como tal, a praxis como praxis? O olhar que informa a phronesis vê o que vê em termos de um “bem” que já foi decidido de antemão; mas isso pode ser apenas um fim ou bem particular (por exemplo, promover a saúde no caso de um médico), ou pode ser o bem em si mesmo (haplos), isto é, o bem absoluto com respeito à existência humana como um todo (pros to eu zen holos: 1139 b28), o bem prático como um fim em si mesmo. Somente se ela deliberar com vistas a este último, a deliberação será o tipo de deliberação apropriada à phronesis, a saber, deliberar bem (euboulia) (EN, 1142 b28f). Como deliberar bem, a phronesis já deve ter o agathon “em vista” (im Blick) a todo momento; ela deve agir conscientemente com vistas ao bem. No entanto, isso significa que a própria phronesis (como deliberação sobre o que é revelado no noûs prático) é impotente para decidir o fim último ou o bem para o qual ela é direcionada; a phronesis é possível apenas para alguém que já é bom (EN, 1144 a34; GA19, 166f). E isso, por sua vez, implica que a aisthesis prática, orientada antecipadamente para um determinado fim, mas entregue à particularidade de uma situação aqui e agora, é em si mesma incapaz de revelar o bem prático (a própria praxis) como tal. A revelação deste último, ao contrário, é contribuída pela sophia.

Em outras palavras, o piscar de olho pertencente à phronesis genuína (como deliberar bem) já viu mais do que o que é dado em qualquer situação prática. Ele vê os “dados” no contexto de um todo (a particularidade temporal da situação), mas esse “todo” já foi visto antecipadamente em um aspecto muito específico: não apenas com vistas a qualquer bem particular, mas com relação ao bem prático como tal, à praxis como um fim em si mesma: a presença ou a própria atualidade como fugaz, instável, aberta à possibilidade de mudança (metabole) a qualquer momento. Mas isso implica que, intrinsecamente à phronesis, há uma visão que já “vê” não apenas a possibilidade de mudança, mas a própria atualidade como aquilo que permanece constante, aquilo que sempre retorna como o mesmo, isto é, como presença, em e através de toda mudança. No entanto, como veremos, essa compreensão da atualidade em Aristóteles, explicitamente realizada no puro noûs como uma teorização da presença, sempre corre o risco de se tornar uma concepção puramente formal-ontológica da presença se o bios theoretikos e o bios politikos forem separados um do outro.

  1. Observe que a interpretação do Augenblick como um Zuspitzung, ou seja, como culminando em um pico ou extremidade (Spitze), retorna no curso de 1929/30 Os Conceitos Fundamentais da Metafísica como marcando a essência própria ou autêntica do tempo (GA29-30, § 31 e seguintes). O Augenblick é aí identificado com o “olhar de abertura resoluta” (Blick der Entschlossenheit: 224); ele constitui o “todo simultâneo” ou a unidade da visão (Sicht) do Dasein que, de outra forma, está dispersa nas três perspectivas (Sichten) do presente, do ter sido e do futuro (GA29-30, 218). Essa “simultaneidade” obviamente convida a uma comparação com o hama de ver e ter visto no Livro IX da Metafísica de Aristóteles. Examinaremos esse “pico” do Augenblick em mais detalhes no capítulo 4.[↩]
  2. Essa formulação lembra o Livro VII da Metafísica, que descreve o momento da praxis na poiesis (M, 1032 b6ff). A noção do kairos é pertinente em particular à prática médica; Aristóteles também menciona a guerra e a navegação como ações nas quais o momento oportuno é crítico. A noção de kairos também foi amplamente discutida pelos retóricos. Para uma visão geral, consulte Pierre Aubenque, La prudence chez Aristote (Paris: Presses Universitaires de France, 1963), 98 nn. 3, 4.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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