Freiheit, frei. VIDE Freilegung
A liberdade de que aqui se fala não deve ser confundida com livre arbítrio. Ela se liga à capacidade de transcendência que acompanha o ser humano enquanto tal. Mas não é uma característica do sujeito. É o lugar de encontro de ser e homem e assim é referida ao Dasein (ser-aí; por favor não se modalize o termo traduzindo-o por eis-aí-ser). Enquanto ligada à transcendência o filósofo pode vincular mais tarde esta liberdade à vontade e à clareira (Lichtung); ver Sobre a Essência da Verdade, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1970. Seria erro hipostasiar liberdade como algo entitativo ou interpretá-la na direção da substância ou da subjetividade da tradição metafísica. O filósofo forja precisamente estas difíceis cargas semânticas para se colocar além de uma visão substancialista ou subjetivista. Na raiz da liberdade, aqui em questão, está o enigma da aletheia como velamento e desvelamento. (Ernildo Stein, nota em MHeidegger)
A essência da liberdade não pertence originariamente à vontade e nem tampouco se reduz à causalidade do querer humano.
A liberdade rege o aberto, no sentido do aclarado, isto é, do des-encoberto. A liberdade tem seu parentesco mais próximo e mais íntimo com o dar-se do desencobrimento, ou seja, da verdade. Todo desencobrimento pertence a um abrigar e esconder. Ora, o que liberta é o mistério, um encoberto que sempre se encobre, mesmo quando se desencobre. Todo desencobrimento provém do que é livre, dirige-se ao que é livre e conduz ao que é livre. A liberdade do livre não está na licença do arbitrário nem na submissão a simples leis. A liberdade é o que aclarando encobre e cobre, em cuja clareira tremula o véu que vela o vigor de toda verdade e faz aparecer o véu como o véu que vela. A liberdade é o reino do destino que põe o desencobrimento em seu próprio caminho. (GA7, pag. 28)
A análise do “princípio da razão” remeteu o problema do fundamento para o âmbito da transcendência (I). Esta foi determinada, pela via de uma análise do conceito de mundo, como o ser-no-mundo do ser-aí. Trata-se agora de clarificar a essência do fundamento a partir da transcendência do ser-aí.
Em que medida reside na transcendência a possibilidade interna para algo tal como fundamento em geral? O mundo se dá ao ser-aí como a respectiva totalidade do em-vista-de-si-mesmo, isto é, do em-vista-de um ente que é co-originariamente: o ser-junto-do…, ente puramente subsistente, o ser-com com… ser-aí de outros e ser-para… si mesmo. O ser-aí só pode, desta maneira, ser para si como para si mesmo, se “se” ultrapassa no em-vista-de. A ultrapassagem com o caráter de em-vista-de somente acontece numa “vontade”, que como tal se projeta sobre possibilidades de si mesmo. Esta vontade, que essencialmente sobre-(pro-)jeta e por isso projeta ao ser-aí o em-vista-de-si-mesmo, não pode, por conseguinte, ser um determinado querer, um “ato de vontade”, à diferença de outros comportamentos (por exemplo, representar, julgar, alegrar-se). Todos os comportamentos radicam na transcendência. Aquela vontade, porém, deve “formar”, como ultrapassagem nela, o próprio em-vista-de. Aquilo, entretanto, que, segundo sua essência, antecipa projetando algo tal como em-vista-de em geral e não o produz também como eventual resultado de um esforço, é o que chamamos liberdade. A ultrapassagem para o mundo é a própria liberdade. Por conseguinte, a transcendência não se depara com o em-vista-de como com um valor ou fim por si existente; mas liberdade – é, na verdade, como liberdade – mantém o em-vista-de em-face-de-si (entegegen). Neste manter-em-face-de-si do em-vista-de, pelo transcender, acontece o ser-aí no homem, de tal maneira que, na essência de sua existência, pode ser responsável por si, isto é, pode ser um (si) mesmo livre. Aqui, porém, se desvela a liberdade, ao mesmo tempo, como a possibilitação de compromisso e obrigação em geral. Somente a liberdade pode deixar imperar e acontecer um mundo como mundo (welten). Mundo jamais é, mas acontece como mundo (weltet).
Em última análise, reside, nesta interpretação de liberdade conquistada a partir da transcendência, uma originária caracterização de sua essência em face da determinação da mesma como espontaneidade, isto é, como uma espécie de causalidade. O começar-por-si-mesmo dá apenas a característica negativa da liberdade, isto é, de que mais para trás não reside uma causa determinante. Esta determinação, porém, passa por alto, antes de tudo, o fato de que fala de “começar” (Anfangen) e “acontecer” (Geschehen) sem fazer uma diferenciação ontológica, sem que o ser-causa seja caracterizado expressamente e a partir do modo específico de ser do ente que é assim, do ser-aí. Se, por conseguinte, a espontaneidade (“começar-por-si-mesmo”) deve poder servir como caracterização essencial do “sujeito”, então se requerem duas coisas: 1. A mesmidade (Selbstheit) deve estar ontologicamente esclarecida para uma possível e adequada formulação do “por-si” (von selbst). 2. Desta mesma clarificação da mesmidade deve decorrer o esboço do caráter do acontecer de um mesmo, para poder determinar a modalidade de movimento do “começar”. A mesmidade do mesmo que já está na base de toda a espontaneidade, reside, porém, na transcendência. Aquilo que, projetando e trans-(pro-)jetando, faz imperar o mundo é a liberdade. Só porque ela constitui a transcendência, pode ela manifestar-se, no ser-aí existente, como tipo privilegiado de causalidade. A explicitação da liberdade como “causalidade” se move, porém, já, antes de tudo, dentro de uma determinada compreensão de fundamento. A liberdade como transcendência não é, contudo, apenas uma “espécie” particular de fundamento, mas a origem do fundamento em geral. Liberdade é liberdade para o fundamento. (MHeidegger SOBRE A ESSÊNCIA DO FUNDAMENTO)
Assim, pois, também o princípio da razão continua perturbando a essência do fundamento e sufoca, na sua forma sancionada de princípio, uma problemática que primeiro sacudiria a ele mesmo. Mas esta “desordem” e perturbação não devem, porventura, ser imputadas à presumível “superficialidade” de filósofos isolados e não podem por isso também ser superados por um assim-dito “progresso” (“Weiterkommen”) mais radical. O fundamento tem sua desordem (não-essência) porque brota da liberdade finita. Ela mesmo não se pode subtrair ao que dela assim brota. O fundamento, que transcendendo brota, remonta à própria liberdade, e esta, como origem, se transforma ela mesma em fundamento. A liberdade é a razão do fundamento (o fundamento do fundamento). Isto, sem dúvida, não no sentido de uma “interação” formal sem fim. O ser-fundamento da liberdade não possui – isto facilmente se está tentado a pensar – o caráter de um dos modos de fundar, mas se determina como a unidade fundante da distribuição transcendental do fundar. Enquanto este fundamento, porém, a liberdade é o abismo (sem-fundamento) do ser-aí. Não que o comportamento individual livre seja sem razão de ser (grundlos); mas a liberdade situa, em sua essência como transcendência, o ser-aí como poder-ser diante de possibilidades, que se escancaram diante de sua escolha finita, isto é, que se abrem em seu destino. (MHeidegger SOBRE A ESSÊNCIA DO FUNDAMENTO)
De onde recebe a enunciação apresentativa a ordem de se orientar para o objeto, de se pôr de acordo segundo a lei da conformidade? Por que é este acordo co-determinante da essência da verdade? Como pode unicamente efetuar-se a antecipação do dom (Vorgabe) de uma medida e como surge a injunção de se ter que pôr de acordo? É isto que somente se realizará se esta doação prévia (Vorgeben) nos tiver instaurado como livres, dentro do aberto, para algo que nele se manifesta e que vincula toda apresentação. Liberar-se para uma medida que vincula somente é possível se se está livre para aquilo que está manifesto no seio do aberto. Maneira semelhante de ser livre se refere à essência até agora incompreendida da liberdade. A abertura que mantém o comportamento, aquilo que torna intrinsecamente possível a conformidade, se funda na liberdade. A essência da verdade é a liberdade.
Não substitui, porém, esta afirmação sobre a essência da conformidade uma “evidência” (Selbstverständlichkeit) por outra? Uma ação obviamente não se pode realizar a não ser através da liberdade de quem age. O mesmo acontece com a ação de enunciar apresentando, e com a ação de consentir ou recusar uma “verdade”.
Esta tese, entretanto, não significa que para levar a termo uma enunciação, para comunicá-la ou assimilá-la, se deva agir sem constrangimento. A afirmação diz: a liberdade é a própria essência da verdade. Entendamos aqui por “essência” o fundamento da possibilidade intrínseca daquilo que imediata e geralmente é admitido como conhecido. Todavia, no conceito de liberdade nós não pensamos a verdade e muito menos sua essência. A tese segundo a qual a essência da verdade (a conformidade da enunciação) é a liberdade deve, portanto, surpreender.
Situar a essência da verdade na liberdade não significa, por acaso, entregar a verdade ao arbítrio humano? Pode-se sabotar mais profundamente a verdade do que a abandonando ao arbítrio deste “caniço instável”? O que constantemente se impôs ao bom senso durante a discussão manifesta-se agora de modo mais claro: a verdade é aqui deslocada para a subjetividade do sujeito humano. Mesmo que este sujeito tenha acesso a uma objetividade, ela permanece, porém, do mesmo modo humana como esta subjetividade e posta à disposição do homem.
Põe-se, sem dúvida, na conta do homem, a falsidade e a hipocrisia, a mentira e o engano, o logro e a simulação, numa palavra, todos os modos da não-verdade. Mas já que a não-verdade é o contrário da verdade, tem-se o direito de afastá-la do âmbito de interrogação pela pura essência da verdade com relação à qual aquela é inessencial (Unwesen). Esta origem humana da não-verdade apenas confirma, por oposição, que a essência da verdade “em si” reina “acima” do homem. Ela é tida pela metafísica como eterna e imperecível, e jamais poderá ser edificada sobre a instabilidade do frágil ser humano. Como pode, ainda assim, a essência da verdade encontrar seu apoio e fundamento na liberdade do homem?
A hostilidade contra a tese que diz que a essência da verdade é a liberdade apoia-se em preconceitos dos quais os mais obstinados são: a liberdade é uma propriedade do homem; a essência da liberdade não necessita nem tolera mais amplo exame; o que é o homem, cada qual sabe. (MHeidegger – SOBRE A ESSÊNCIA DA VERDADE)
A liberdade assim compreendida, como deixar-ser do ente, realiza e efetua a essência da verdade sob a forma do desvelamento do ente. A “verdade” não é uma característica de uma proposição conforme, enunciada por um “sujeito” relativamente a um “objeto” e que então “vale” não se sabe em que âmbito; a verdade é o desvelamento do ente graças ao qual se realiza uma abertura. Em seu âmbito se desenvolve, ex-pondo-se, todo o comportamento, toda tomada de posição do homem. É por isso que o homem é ao modo da ek-sistência. (MHeidegger – SOBRE A ESSÊNCIA DA VERDADE)