Krell (1994:372-374) – Abstand (distância), sentido relacional da vida

destaque

Abstand, “distância”; ou, ao contrário, Abstandstilgung, “eliminação da distância”. Com igual originalidade (gleichursprünglich), a vida cobre e ofusca a sua própria inclinação. É levada à dispersão, encontra-se a si própria (pois de alguma forma, inexplicavelmente, encontra-se) como dispersa e dispersa no seu mundo. Assim, a vida está “em ruína” (102-103). A vida perde o seu “em face de”, vê-se a si própria falsamente e numa perspectiva enviesada; como Heidegger repetirá vinte e cinco anos mais tarde, em “Poetically Man Dwells …” A vida persegue a posição, o sucesso e a posição no mundo; sonha em ultrapassar os outros e assegurar vantagens; manobra-se de modo a diminuir a distância, mas permanece sempre distante; dedica-se ao cálculo, à ocupação, ao ruído e à fachada. Aqui Heidegger usa a mesma palavra que empregará em Ser e Tempo (SZ 126), nomeadamente, Abständigkeit, para designar a paixão consumidora de colocar distância entre si e os outros, quer elevando-se para além deles, quer oprimindo-os abaixo de si. Ironicamente, na paixão de manter a distância dos outros, somos arrastados e tornamo-nos precisamente como os outros, que, presumivelmente, estão todos a tentar fazer a mesma coisa. Acabamos assim por não ter qualquer distância dos outros.

original

  1. Martin Heidegger, “Dichterisch wohnet der Mensch … ,” in Vorträge und Aufsätze (Pfullingen: G. Neske, 1954), pp. 195-96.[↩]
  2. Henry David Thoreau, Walden, the Variorum Edition, Walter Harding, ed. (New York: Washington Square, 1968), pp. 17-18, for this and the following.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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