(HKIP)
Nesse espírito, todos os problemas filosóficos podem então ser pensados a partir do exame dos vividos nos quais enfrentamos seu objeto. Assim, a fenomenologia não buscará apreender a essência do tempo de maneira especulativa, por exemplo, em relação à eternidade (“a imagem móvel da eternidade”, Platão, Timeu) ou em relação ao conceito (“o tempo é o ser-aí do conceito”, Hegel), mas voltará seu olhar para as experiências mais significativas nas quais vivemos algo do tempo: memória, esperança, tédio, expectativa… Nessas experiências, o tempo se mostra, de certa forma, ele mesmo, em pessoa; se lembrarmos que a palavra “fenômeno” significa etimologicamente “o que aparece, o que se mostra”, entendemos por que tal filosofia se chamará “fenomenologia”.
Husserl, seu fundador, formulou essa exigência no imperativo do “retorno às coisas mesmas” (Zurück zu den Sachen selbst, onde Sache significa menos a coisa no sentido de objeto físico — Ding em alemão — do que o assunto, a questão, a causa) no início das Investigações Lógicas (1900).
Trata-se de promover, contra a construção de teorias sobre o mundo, o olhar retrospectivo para os vividos nos quais as coisas sobre as quais queremos pensar se delineiam de forma despercebida.
Podemos compreender a novidade introduzida pela fenomenologia ao contrastá-la com o que poderíamos chamar provisoriamente aqui de “metafísica”. Quando se trata, por exemplo, de questionar o Belo, a metafísica produzirá teses: o Belo é o Bem (Platão), o Belo é a verdade apreendida na ordem estética (Hegel); o fenomenólogo examinará as maneiras pelas quais ele experimenta a beleza. Da mesma forma, para um conceito fundamental da metafísica tradicional, o de Deus, não se trata mais de provar sua existência a partir de sua possibilidade como ser infinito, nem mesmo de examinar suas propriedades, mas de descrever as dimensões fundamentais da experiência religiosa: a fé, a relação com o sagrado… Vemos aqui em que sentido a fenomenologia orientou o questionamento filosófico para a iluminação do aparecer e de sua significação, desviando-se de qualquer tomada de posição sobre a existência daquilo que aparece (aqui, Deus), abstendo-se, portanto, de qualquer tese metafísica sobre a natureza daquilo que existe (idealismo, realismo, materialismo, espiritualismo).
Essa reserva em relação aos debates metafísicos permite distinguir a fenomenologia das correntes filosóficas que a precederam, mesmo que ela frequentemente tome emprestado conceitos delas. Em particular, não se deve interpretar o lema do “retorno às coisas mesmas” como um credo empirista. O empirismo parte de uma tese — todo conhecimento provém da experiência ou, em termos humeanos, toda ideia copia uma impressão —, tese que a fenomenologia não sustenta, já que ela não pressupõe nenhuma teoria sobre a natureza do conhecimento.