Toda leitura e exposição da Sagrada Escritura, sobretudo a pregação, que busca revivificar a Escritura para que se transforme novamente em mensagem, deve ser presidida pela exigência querigmática do evangelho. A reflexão hermenêutica deve reconhecer isso. Esse postulado não justifica de modo algum que se classifique de dogmático o ensinamento hermenêutico de Flacius. Esse ensinamento limita-se a dar uma fundamentação teórica adequada ao princípio bíblico estabelecido por Lutero. A doutrina hermenêutica de Flacius não se opõe aos princípios humanistas e filológicos da reta interpretação por compreender um texto religioso como uma mensagem religiosa. Em relação ao conteúdo, não exige nenhum pressuposto dogmático que não possa ser demonstrado no texto do Novo Testamento e que represente uma instância superior a ele. Toda sua hermenêutica segue um princípio único: é só o contexto total que pode realmente determinar o sentido das frases distintas e das passagens etc. (“ut sensus locorum tum ex scopo scripti aut textus, cum ex toto contextu petatur”). Aqui aparece claramente o enfrentamento polêmico com toda a tradição magisterial, alheia à Bíblia. É nesse sentido que Flacius, como Melanchton, seguem Lutero, prevenindo sobre os perigos da alegorese. A doutrina do scopus totius scripti busca evitar justamente essa tentação. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 20.
O artigo intitulado Übersetzung und Verkundigung (Tradução e anúncio) esclarece melhor em que sentido essa doutrina hermenêutica busca ultrapassar a interpretação existencial proposta por Bultmann. Sua orientação básica é o princípio hermenêutico da tradução. Esse princípio é indiscutível: “A tradução deve criar o mesmo espaço que queria criar um texto quando o espírito se pronunciou nele” (409). Mas, frente ao texto — e esta é uma consequência audaz e inevitável — , a palavra tem a primazia, pois é acontecimento da linguagem. Isso deve deixar claro que a relação entre palavra e pensamento não é no sentido de que a palavra expressa só alcança o pensamento a posteriori. A palavra é como um raio certeiro. A seguinte afirmação de Ebeling vem de encontro a isso: “Na realização da pregação, o problema hermenêutico experimenta sua densidade mais extrema”. VERDADE E MÉTODO II ANEXOS 27.