Gadamer (1993:C2) – iatrike techne

Antônio Luz Costa

Existe um tratado da época dos sofistas gregos, o qual defende a arte da medicina contra agressores 1. Também vestígios de argumentações semelhantes ainda podem ser seguidos regressando-se na história, e isso, seguramente, não é uma casualidade. Trata-se de uma arte especial, aquela que é exercida na medicina. Uma arte que não coincide em todos os pontos com aquilo que os gregos chamavam techne e com aquilo que chamamos arte artesanal ou com a ciência. O conceito de “techne” é uma criação peculiar da mente grega, do espírito da historie, da livre prospecção pensante em relação às coisas e do logos da justificação de motivos para tudo que se considera como verdadeiro. Com esse conceito e sua aplicação à medicina aparece uma primeira decisão em favor daquilo que caracteriza a civilização ocidental. O médico não é mais a figura do curandeiro de outras culturas, revestido pelo segredo de forças mágicas. Ele se tornou um homem da ciência. Aristóteles utiliza justamente a medicina como exemplo padrão da transformação de simples coleção de ser-capaz-de-fazer e saber, baseada na experiência, em verdadeira ciência. Mesmo quando o médico, em casos isolados, possa estar em condição inferior em relação ao curandeiro experiente ou à curandeira, seu saber é, fundamentalmente, de outra ordem: ele sabe sobre o geral. Ele conhece o motivo pelo qual uma determinada técnica de cura tem êxito. Ele entende seu efeito, porque acompanha o contexto geral de causa e efeito. Isso soa bem moderno e, no entanto, não (41) se trata aqui, no nosso sentido atual, da aplicação de conhecimentos das ciências naturais ao objetivo prático da cura. A oposição entre ciência pura e sua aplicação prática, como nós conhecemos hoje, é caracterizada por métodos específicos da ciência contemporânea, sua aplicação da matemática aos conhecimentos naturais. O conceito grego de “techne”, ao contrário, não significa a aplicação prática de um saber teórico, mas uma forma própria do saber prático. “Techne” é aquele saber que constitui um determinado ser-capaz-de-fazer, seguro de si mesmo, no contexto de uma produção. Ele é, desde o princípio, relacionado à capacidade de produção e resulta a partir dessa relação. Mas trata-se de uma capacidade de produção excelente, uma capacidade que sabe e se fundamenta no conhecimento das causas. Assim, desde o princípio, pertence a esse ser-capaz-de-fazer, fundamentado naquele saber, o aparecimento com ele de um ergon, uma obra, como que liberado da atividade da produção. Já que, com isso, se completa a produção, que produz alguma coisa, quer dizer, dispondo a outros a sua utilização.

Em tal conceito de “arte”, que se encontra perante o limiar daquilo que chamamos “ciência”, a arte de curar assume então, claramente, uma posição excepcional e problemática. Nesse caso não há uma obra que seja produzida pela arte e seja artificial. Não se pode, nesse caso, falar de um material que, em última instância, seja preconcebido naturalmente e dele seja obtido algo novo ao se produzir uma forma engenhosa e idealizada. Faz parte, antes, da essência da arte de curar que sua capacidade de produção seja uma capacidade de restabelecimento. Com isso, no saber e no fazer do médico cabe-lhe uma modificação própria daquilo que, nesse caso, se designa “arte”. Pode-se, é verdade, dizer que o médico produz a saúde com os meios de sua arte, mas tal afirmação não é exata. O que é produzido desse modo não é uma obra, um ergon, algo novo que surge no ser e comprova o ser-capaz-de-fazer, mas o restabelecimento da saúde do doente, e não é possível ser evidenciado se ele é resultado do sucesso do saber e do ser-capaz-de-fazer médico. A pessoa com saúde não é uma pessoa que foi feita saudável. Por isso, inevitavelmente (42), fica aberta a pergunta até que ponto um sucesso de cura se deve ao tratamento especializado do médico e até que ponto a própria natureza contribui para tal sucesso.

Esse é o motivo pelo qual sempre houve uma circunstância própria em torno da arte médica e de sua reputação. A literal importância vital dessa arte confere ao médico e à sua pretensão sobre o saber e o ser-capaz-de-fazer uma distinção especial, principatmente quando há perigo. No entanto, por outro lado a dúvida sobre a existência e eficiência da arte de curar sempre se relaciona a essa reputação, particularmente quando não há mais perigo. Nesse aspecto, tyche e techne estão em uma tensão especial e antagônica. Aquilo que vale para o caso positivo da cura bem-sucedida não vale menos para o caso negativo do fracasso. O que nisso corresponde a uma eventual falha do ser-capaz-de-fazer médico e não talvez ao desfecho infeliz provocado por um destino superior, e quem irá decidir sobre isso, sobretudo na condição de leigo? A apologia da arte de curar não é, no entanto, apenas uma defesa de uma classe profissional e de uma arte perante outros, incrédulos e céticos, mas, sobretudo, um auto-exame e uma autodefesa do médico perante si mesmo e contra si mesmo. Isso está indissoluvelmente associado à singularidade do ser-capaz-de-fazer médico. Ele pode comprovar sua arte tão pouco a si mesmo quanto a outras pessoas.

A particularidade do ser-capaz-de-fazer que distingue a medicina no âmbito da “techne” encontra-se, como toda a “techne”, no âmbito da natureza. Todo o pensamento antigo refletiu a esfera do artificialmente exequível tendo em vista a natureza. Quando se entendia a “techne” como imitação da natureza, considerava-se com isso, sobretudo, que a capacidade artística humana como que explora e preenche o espaço de possibílidades deixado pela natureza e a sua própria constituição.

Nesse sentido, seguramente a medicina não é uma imitação da natureza. Com certeza, não deve surgir uma formação que seja artificial. O que deve resultar da arte médica é a saúde, quer dizer, o próprio natural. Isso fornece ao todo dessa arte a sua marca característica. Ela não é invenção e planejamento de algo novo que não existe dessa forma, cujo poder da produção (43) apropriada é detido por alguém, mas trata-se, desde o princípio, de um tipo de fazer e efetuar, que não realiza nada de peculiar e nada que venha do peculiar. O saber e o ser-capaz-de-fazer da arte médica enquadram-se totalmente com o curso natural, na medida em que se procura o seu estabelecimento onde foi perturbado, de tal forma que a perturbação como que desaparece com o próprio equilíbrio natural. O médico não pode abdicar de sua obra, da forma como todo artista abdica da sua, como faz todo artesão e especialista, a saber, de tal forma que se possa, de algum modo, manter o trabalho como sendo sua obra. De fato, em toda a “techne” o produto é deixado para o uso de outros, mas trata-se sim de uma obra própria. A obra do médico, pelo contrário, exatamente por ser a saúde restabelecida, não é mais sua de modo algum, nunca o foi. A relação entre realizar e o realizado, fazer e o feito, esforço e êxito, é, nesse caso, de natureza fundamentalmente diferente, enigmática e posta em dúvida.

Um dos aspectos que evidencia isso na antiga medicina é o de ela ter superado expressamente a condição de, com a velha tentação de provar para si mesmo a sua capacidade, auxiliar somente quando há perspectiva de êxito. Também o doente incurável, para o qual não se conta com algum sucesso de cura espetacular, torna-se objeto da preocupação médica, pelo menos na existência de uma maturidade da consciência médica que, com a perspectiva filosófica, ande a par com a essência do logos. Nesse sentido profundo, a “techne”, da qual aqui se trata, está claramente inserida no curso da natureza de tal forma que ela pode desempenhar sua contribuição no todo desse curso e em todas as suas fases.

Poder-se-á reconhecer todas essas determinações também na ciência médica moderna. E, no entanto, algo de fundamental se modificou. A natureza, o objeto da moderna ciência natural, não é a natureza, em cujo grande âmbito se insere o ser-capaz-de-fazer médico e todo o ser-capaz-de-fazer artificial do ser humano. É, pois, peculiaridade da ciência natural moderna o fato de ela entender seu próprio saber como capacidade de fazer (Machenkönnen). O entendimento matemático-quantitativo das leis do acontecimento natural está (44) direcionado a um isolamento de contextos de causa e efeito que permitem à ação humana possibilidades de intervenção com grau de exatidão testável. O conceito de técnica, associado ao pensamento científico contemporâneo, tem a seu alcance possibilidades específicas e crescentes nas áreas de procedimentos de cura e da medicina. A capacidade de fazer como que se torna autônoma. Ela permite dispor parcialmente sobre o curso do processo e é aplicação de um conhecimento teórico. Como tal, entretanto, não é um curar, mas um efetuar (fazer). Numa esfera de importância vital, ela leva até as últimas consequências a divisão do trabalho, peculiar a toda forma de atividade humano-social. A junção do saber diferenciado e o ser-capaz-de-fazer na unidade prática de um tratamento e cura não resulta da mesma força do saber e do ser-capaz-de-fazer que é cultivada como metodológica na moderna ciência. Trata-se, de fato, de uma antiga sabedoria que se tornou simbólica, primeiro na figura mitológica de Prometeu e depois no christus patiens para todo o Ocidente europeu, aquele chamado paradoxal “Médico, ajuda a ti mesmo”. Mas o grave paradoxo do procedimento de divisão do trabalho pertencente à “techne” se afirma plenamente somente a partir da ciência moderna. A impossibilidade interna de se fazer de si objeto de si mesmo manifesta-se por completo somente a partir da metodologia objetivista da ciência moderna.

Marianne Dautrey

  1. Apologie der Heilkunst, revisão, tradução, notas e introdução de Theodor Gomperz (Ata da Kaiserlichen Akademie der Wissenschaft in Wien). Viena, 1890.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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