GA55:211-213 – pensar [denken] e amar [liebe]

Schuback

“Aquele que pensou o mais profundo ama o mais vivo.” (Sócrates e Alcebíades.)

Estamos sempre tentados a considerar “o mais profundo” como algo a ser encontrado, como o que se deixa procurar com auxílio do pensamento, enquanto objeto da apreensão. Mas o mais profundo só se dá seja tivermos pensado, simplesmente apenas pensado. Mas se aquele que já pensou também já acabou de pensar, como o mais profundo poderia entreabrir-se? Os pensadores gregos tinham um saber diferente e melhor relativamente a essa questão. Quem já pensou ainda não está pronto e nem alcançou o fim. Só quem já pensou é que pensa e começa a pensar. Quanto mais cristalinamente o homem apenas já pensou, mais decisivamente ele alcança o caminho do pensamento e permanece um alguém que pensa. Da mesma maneira que só aquele que viu direito é que vê. Tão raro como, aqui, o fim é propriamente o começo. Aquele que já pensou e que alcançou o caminho da vida, mantendo-se, assim, no e pelo pensamento, também já pensou o mais profundo, a ponto de compreender que este nunca se encontra em algum lugar como um lugar à parte.

“Aquele que pensou o mais profundo ama o mais vivo.”

Isto soa como se o amor pelo mais vivo fosse consequência do pensamento, como se amor estivesse subordinado ao pensamento. Inteiramente falso — o próprio pensamento é o amor e, na verdade, o amor pelo “mais vivo”, por aquilo que reuniu na vida todo o vivo. O amor é pensamento e o pensamento, amor? Costumamos ouvir que o amor é um “sentimento” e que o pensamento não tem sentimento. A psicologia distingue com precisão pensamento, sentimento, vontade, e “classifica” os “fenômenos psíquicos”.

(223) Acredita-se também, com certo direito, que o pensamento é tanto mais limpo e preciso quanto menos se deixe orientar pelas disposições e sentimentos, que sempre confundem. Se, no entanto, o pensamento devesse conduzir para o amor, ele deveria ser, sem dúvida, um pensamento bem disposto, um pensamento “afinado pelo sentimento”, um pensamento com “emoções”, “um pensamento emocional”. Mas como, se o mais profundo só se deixa alcançar no pensamento e só se abre para o pensamento? Então tudo não dependeria somente de pensar, de pensar cristalinamente, a fim de que o a ser-pensado venha ao encontro do pensamento?

Pronunciamos as palavras de Hölderlin dando uma entonação mais próxima da construção e do ritmo do verbo.

“Aquele que pensou o mais profundo ama o mais vivo.”

Mas se quisermos nos exprimir de acordo com a inesgotabilidade misteriosa deste verso, essa que sempre acompanha os poetas, também deveríamos, sempre ou de vez quando, dar uma outra entonação:

“Aquele que pensou o mais profundo ama o mais vivo.”

O “pensou” e o “ama” encontram-se numa proximidade tão imediata que chegam a ser o mesmo. Não o mesmo entendido como o igual unidimensionalizado, mas como a simplicidade conjugada, cuja unidade pode ser chamada de pensamento, pode ser chamada de vida, não obstante permaneça impronunciada.

Goesser

Original

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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