- Carneiro Leão
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Carneiro Leão
5. Kolbenheyer não vê nem pode ver que, como povo, o homem é um ser histórico, e que pertence a todo ser histórico decidir-se por um determinado querer ser e destino – empenho de agir, responsabilidade em suportar e perseverar, coragem, confiança, fé, força de sacrifício.
Todos esses comportamentos fundamentais do homem histórico somente são possíveis com base na liberdade
E não basta, porém, reconhecer talvez essas manifestações do ser humano (são mesmo difíceis de serem negadas) para, a seguir, falsificá-las, transformando-as em funções biológicas. Com isso, desvirtuam-se decisão – empenho – liberdade – disposição para o sacrifício – (218) transformando-os num processo imposto de fora e plantado numa realidade biológica, que se supõe ser a única. Não se vê nem se compreende que, ao empenhar-se, sustentar-se e sacrificar-se, domina um outro modo de ser, diferente em princípio do funcionamento de sulcos gástricos e células germinais ou de uma chocadeira. Nem se vê que esse modo de ser não nasce do corpo, por estar ligado ao corpo; que esse ser não se dá simplesmente “junto” com outros no organismo, mas que é justamente o ser responsável historicamente que domina e abarca o empenho e a luta do corpo (nobreza!). Será que a nobreza prussiana brotou apenas como uma maçã na macieira, ou será que nasceu da experiência histórica vigente na realidade espiritual e política do mundo de Frederico, o Grande?
Em princípio, esse modo de pensar não se distingue, em nada, da psicanálise de Freud e consortes. Também não se distingue, em princípio, do marxismo, que considera o espírito e tudo que é espiritual função do processo de produção econômica; se, em vez disso, tomo o biológico ou outra coisa qualquer, é indiferente para a questão fundamental sobre o modo de ser de um povo histórico.