GA31:134-136 – liberdade é mais originária que o homem

Casanova

(…) a essência da liberdade só é vista propriamente, quando a buscamos como o fundamento da possibilidade do ser-aí, como aquilo que ainda reside antes de ser e tempo. Visto em relação com o esquema, precisamos levar a termo um deslocamento completo do lugar da liberdade, de tal modo que venha à tona agora o fato de que o problema da liberdade não se encontra embutido na questão diretriz e na questão fundamental, mas, ao contrário, é a questão diretriz da metafísica que se baseia na essência da liberdade.

Mas se o direcionamento do olhar precisa tomar essa direção, se o problema fundamental precisa mesmo ser visto a partir dela, então é agora indiferente saber se a interpretação kantiana da concepção da liberdade no quadro da causalidade tem razão de ser. Mesmo que esse não fosse o caso, segundo a nova tese da causalidade, residiriam à sua base movimento, ser em geral, a liberdade. Liberdade não é nada particular entre outras coisas, ela não se encontra alinhavada ao lado de outras coisas, mas é pré-ordenada e impera precisamente sobre o todo do ente. Mas se a (162) liberdade tem de ser buscada como fundamento da possibilidade do ser-aí, então ela mesma é em sua essência mais originária do que o homem. O homem não é senão um administrador da liberdade, só alguém que pode deixar ser a liberdade do que é livre da maneira que lhe cabe, de tal modo que, através do homem, toda a casualidade da liberdade se torna visível.

A liberdade humana não significa mais agora: liberdade como propriedade do homem, mas, ao contrário, o homem é que se mostra como uma possibilidade da liberdade. Liberdade humana é a liberdade, na medida em que ela irrompe no homem e o toma para si, possibilitando-o por meio daí. Se a liberdade é o fundamento da possibilidade do ser-aí, a raiz de ser e tempo e, com isso, o fundamento da possibilitação da compreensão de ser em toda a sua amplitude e plenitude, então o homem é,fundan-do-se em sua existência e nessa liberdade, aquele sítio e ocasião, na qual e com a qual o ente na totalidade se torna manifesto, e aquele ente, por meio do qual fala o ente na totalidade enquanto tal e, assim, se enuncia. No começo da preleção, quando nós nos aproximamos daquilo que tinha sido nomeado no tema como se se tratasse de uma coisa presente à vista entre outras, nós vimos o homem como um ente entre outros, iníquo, frágil, impotente, fugidio, um pequeno recanto no todo do ente. Agora, visto a partir do fundamento de sua essência, a partir da liberdade, fica claro para nós o descomunal e maravilhoso, o fato de que ele existe como o ente, no qual o ser do ente e, com isso, esse ente na totalidade se tornam manifestos. Ele é aquele ente, em cujo ser mais próprio e em cujo fundamento essencial acontece a compreensão de ser. O homem é mais ingente, do que um deus jamais pode ser, porque o deus precisaria ser totalmente diferente para poder experimentar algo assim. Esse elemento descomunal, com o qual tomamos contato aí efetivamente e que nós efetivamente somos, só pode ser algo tal como o que há de mais finito. No entanto, nessa finitude, dá-se a reunião existente dos contendo-res no interior do ente e, por isso, a ocasião e a possibilidade do (163) irromper dissociado e da irrupção do ente em sua multiplicidade e pluralidade. Aqui reside ao mesmo tempo o problema nuclear da possibilidade da verdade como desencobrimento.

Se virmos o homem assim – e precisamos vê-lo assim, na medida em que somos impelidos a ele por meio do conteúdo fundamental da questão diretriz da filosofia se virmos, em suma, o homem metafisicamente, então, logo que compreendermos a nós mesmos, já não nos movimentaremos mais há muito tempo na vida de uma pequena e breve reflexão egoísta sobre o nosso eu. Nós nos encontraremos agora em nós mesmos, em nossa essência, onde toda psicologia e coisas do gênero se dissolvem. Seria infrutífero, se quiséssemos continuar empreendendo discussões e suposições sobre essa experiência metafísica fundamental do homem. O que ela é, ou seja, como ela se coloca em obra como filosofia, só é experimentável e cognoscível no questionamento concreto. Só uma coisa está clara: o homem, fundando-se na liberdade de seu ser-aí, tem a possibilidade de sondar esse seu fundamento, a fim de se perder com isso em meio à grandeza metafísica interior verdadeira de sua essência e se conquistar precisamente em sua particularidade existenciária. A grandeza da finitude tornou-se há muito tempo pequena e insípida, de tal modo que não conseguimos mais pensar em conjunto finitude e grandeza. O homem não é a imagem de Deus como o pequeno burguês absoluto, mas esse Deus é o produto inautêntico do homem.

Martineau

Original

  1. « lui » (ihm) : à l’homme (N.d.T.).[↩]
  2. Ou la « chance ». Le mot désigne ordinairement la contingence (N.d.T.).[↩]
  3. Spiessbürger : épicier, philistin. Que ce petit-bourgeois divin soit une « fabrication » de l’homme, cela n’exclut nullement qu’il puisse se « révéler ». La révélation est bien plutôt le caractère le plus propre du divin inauthentique (N.d.T.).[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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