GA29-30:99-100 – tristeza [Traurigkeit]

Uma TRISTEZA (Traurigkeit) se abate sobre um homem (Mensch) com o qual convivemos. Será que tudo se dá apenas de um modo tal que este homem possui um estado relativo a uma vivência? Afora isto, tudo permanece como antes? Ou o que acontece aqui? O homem que se tornou triste se fecha, se torna inacessível, sem com isto ser rude para conosco. Somente isto se dá: ele se torna inacessível. Não obstante, estamos junto dele como antes. Talvez passemos mesmo a encontrá-lo ainda mais frequentemente e venhamos mais ao seu encontro; ele também não altera nada em seu comportamento com as coisas e conosco. Tudo está como antes, e, porém, tudo está diverso. Não apenas sob este ou aquele aspecto, mas, sem prejuízo do caráter próprio ao que fazemos e no que nos inserimos, o como, no qual estamos, é diverso. Isto, contudo, não é uma manifestação que surge enquanto consequência da tonalidade afetiva nele presente, enquanto consequência da TRISTEZA. Ao contrário, este como com-pertence ao seu estar-triste (Traurigsein).

O que significa dizer: assim afinado, ele está inacessível? O modo como podemos estar com ele e o modo como ele está conosco é um modo diverso. Esta TRISTEZA é que perfaz este como: o modo como estamos juntos. Ele nos traz para o interior do modo, no qual se encontra, sem que nós mesmos precisemos necessariamente já estar entristecidos. A convivência, nosso ser-aí, é diversa, está transpassada por uma nova tonalidade afetiva. Não podemos seguir agora mais amplamente este contexto. No entanto, se aproximarmos dele um pouco mais o olhar, fica claro que a tonalidade afetiva está tampouco no interior de algo como a alma do outro quanto ela está aí ao lado, na nossa alma. Desta feita, precisamos dizer e dizemos, muito ao contrário, que esta tonalidade afetiva se coloca sobre todas as coisas: que ela não está de maneira nenhuma dentro de uma inferioridade, manifestando-se assim somente em vista do olhar. Mas por isto ela também não está tampouco “do lado de fora. Onde ela está e como ela é, então? Esta tonalidade afetiva, a TRISTEZA, é alguma coisa em relação à qual temos o direito de perguntar onde ela está e como ela é? A tonalidade afetiva não é um ente, que advém na alma como uma vivência, mas o como de nosso ser-aí-comum (Miteinander-Daseins). (GA29-30:99-100)

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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