Flusser (2018:23-36) – concentração – pensamento – vontade

Os exercícios mentais que fazem parte da disciplina da ioga começam pela “concentração”. Aquele que, movido por curiosidade ou por descrença nos métodos ocidentais do conhecimento, compra uma Introdução aos Segredos do Yoga e ensaia esse primeiro exercício mental sofre um choque curioso. O livro recomenda, em síntese, a eliminação de todos os pensamentos, salvo um único arbitrariamente escolhido. Parece tratar-se, portanto, de uma recomendação de fácil execução. O choque de surpresa reside na incrível, ridícula e degradante ginástica mental que essa execução exige. Trata-se, com efeito, de uma ginástica equivalente em tudo às convulsões, repulsivas aos olhos ocidentais, que resultam dos exercícios corporais dos iogues. A nossa mente se distorce toda nesse esforço, como se distorcem os membros do corpo do iogue. Já não sabemos, quase literalmente, onde temos a cabeça. Via de regra, abandonamos esse primeiro estágio dos exercícios mentais, porque ofende os nossos cânones estéticos e o nosso senso de dignidade de pessoas inteligentes.

Qual é a razão da nossa revolta? Qual é a razão do nosso sentimento do inapropriado, ridículo e degradante que acompanha esse exercício aparentemente tão simples? É que o exercício da concentração desvenda, imediata e vivencialmente, a luta entre vontade e intelecto dentro da nossa (24) mente, e pretende fortalecer a vontade contra o intelecto. A concentração é a invasão da vontade no território do intelecto. É a vontade que elimina todos os pensamentos, salvo um único. É o primeiro passo para a conquista e a destruição do intelecto pela vontade, meta da disciplina da ioga. Estamos, entretanto, por todas as nossas tradições, ligados à supremacia do intelecto, estamos profundamente empenhados em prol do intelecto em sua luta contra a vontade. A subordinação da vontade ao intelecto é, aos nossos olhos, o estado “natural” das coisas, portanto o estado bom, belo e certo. A luta da vontade contra o intelecto, a qual se afigura, para nós, como uma revolta, representa, para nós, individualmente, a luta da loucura contra as forças da sanidade, e coletivamente, a luta da irrupção “vertical da barbárie” contra as forcas civilizadoras. A vitória da vontade, por inimaginável que seja para nós, seria, aos nossos olhos, um acontecimento apocalíptico. A vitória das forças das trevas seria a inversão total da hierarquia dos nossos valores, a demência individual e o fim da sociedade civilizada.

O simples exercício da concentração nos põe em contato imediato e vivencial com uma civilização diferente da nossa, com uma hierarquia de valores diferente. O exercício da concentração não é um ato bárbaro e indisciplinado. Pelo contrário, é um procedimento bem organizado, de técnica apurada e de êxito pragmaticamente verificável. Tem todos os característicos de fazer parte de uma civilização equivalente à nossa. De uma civilização, entretanto, (25) empenhada em prol de forças que são bárbaras aos nossos olhos. Bate-se pela vitória da vontade sobre o intelecto. Daí o nosso choque de surpresa, daí a nossa revolta.

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O exercício da concentração, justamente por ser tão contrário ao funcionamento “normal” (isto (26) é, tradicional) da nossa mente, revela, de maneira simples e quase palpável, alguns aspectos do intelecto e da vontade. A situação é a seguinte: (Admito, de passagem, que tenho de recorrer à alegoria para descrever uma situação que ultrapassa o intelecto.) No centro da situação está o Eu. Esse Eu se manifesta de duas formas: pensa e quer. Quando a concentração começa, o Eu pensa uma multiplicidade de pensamentos, e todos eles correm como fios num tear. No centro corre o fio mestre, fortemente iluminado pela atenção (aparentemente irradiada pelo Eu). Ao redor do fio mestre correm fios auxiliares, às vezes acompanhando, às vezes cruzando, às vezes sustentando o fio mestre. Esses fios auxiliares vêm da escuridão além do cone luminoso da atenção, passam, fugazes, pela penumbra da periferia do cone, para perderem-se na escuridão novamente. Entretanto estão sempre presentes, porque o cone da atenção pode desviar-se do fio mestre para iluminá-los e torná-los, destarte, novos fios mestres. Simultaneamente, e por assim dizer no outro lado, o Eu quer, a saber: o Eu quer fazer parar o fio mestre e destruir todos os fios auxiliares. Em outras palavras, o Eu quer pensar um único pensamento. No final da concentração, se esta for bem-sucedida, a situação mudou radicalmente. O Eu continua no centro. Tem, em sua frente, um único pensamento, rígido, parado e morto. Não seria já exato dizer que o Eu pensa. O pensamento que o Eu tem agora está morto. Em redor desse pensamento morto está a vontade do Eu, agora completamente livre, tão somente ancorada dentro (27) do pensamento morto. A sensação é a de uma força de vontade quase ilimitada que não tem objetivo. Essa vontade começa a girar em redor do pensamento morto, girando o próprio pensamento nesse processo. Surge, dessa maneira, um processo parecido ao pensar, mas governado pela vontade e não pelo intelecto. O Eu medita.

Para quem teve a experiência vivencial da concentração e da meditação incipiente, essa descrição da situação é satisfatória. Transmite em palavras, isto é, intelectualiza uma situação a rigor inarticulável por inintelectualizável. As palavras dessa descrição não são, portanto, simbólicas, como o são num discurso estritamente intelectual, mas são alegóricas. Não significam, mas evocam a situação descrita. Graças a essa evocação tornam a situação penetrável ao intelecto, tornam-na inteligível. Para quem, entretanto, nunca teve essa experiência, a descrição da situação está cheia de dificuldades e é, portanto, profundamente insatisfatória. Não tendo passado pela experiência inarticulada e bruta, deve tomar as palavras da descrição como símbolos unívocos, como tendo um significado exato. Do ponto de vista desse alguém, é forçoso admitir, esse esforço de intelectualizar uma situação inarticulada deve ser considerado como tendo fracassado.

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Para tanto, voltemos à consideração do exercício da concentração na ioga. Se contemplarmos aquilo que chamamos “pensamento” a partir do nosso ponto de vista “natural”, “normal”, isto é, tradicionalmente ocidental, este se nos afigurará como fenômeno psicológico, como algo dado íntima e imediatamente. Entretanto, se formos contemplar o pensamento dentro do exercício da concentração, este se apresentará como fenômeno externo, como uma coisa entre as coisas que perfazem o ambiente chamado “mundo”. Desse ponto de vista, os pensamentos são vistos como uma teia densa e opaca que obstrui a nossa visão da realidade, mas através da qual se infiltra, refratada (32) e peneirada, a luz dessa realidade. A teia dos pensamentos se afigura como uma camada que se introduz entre o “Eu” e a realidade, tapando a visão da realidade, apresentando indiretamente essa realidade ao “Eu” e representando essa realidade para o “Eu”. As palavras “tapar”, “apresentar” e “representar” são homônimas em alemão, a saber, vorstellen. A teia dos pensamentos é aquilo que Schopenhauer chama de Vorstellung, e o que ele contrasta com a “vontade”. A teia dos pensamentos é, portanto, aquele véu tecido de ilusões que deve ser rasgado de acordo com o ensinamento hindu, e que lá é chamado de Maya.

Esse ponto de vista sobre o pensamento, por assim dizer, um ponto de vista de dentro para fora, proporciona a possibilidade de uma apreciação “objetiva”, pois nele o pensamento é visto como sendo objeto, e não sujeito, da contemplação. Assim se torna fenômeno no sentido da fenomenologia husserliana, isto é, algo a ser intendido. Podemos, a partir desse ponto de vista, investir contra o pensamento e podemos investigá-lo. Descobriremos que o pensamento, longe de ser um fenômeno simples, é um complexo de elementos organizados entre si de acordo com regras fixas. Chamamos esses elementos de “conceitos”, e as regras, de “lógica”. O pensamento é uma organização lógica de conceitos.

Descobriremos, em segundo lugar, que o pensamento é um processo, e isso em dois (33) sentidos. No primeiro sentido o pensamento é um processo que corre em busca de sua própria completação. Podemos conceber pensamentos interrompidos e, portanto, incompletos. O pensamento é um processo em busca de uma forma (Gestalt), é um processo estético. Alcançada essa forma, o pensamento adquire uma aura vivencial de satisfação, um clima de obra de arte completa e perfeita. Essa aura se chama “significado”. O pensamento completo é significante. No segundo sentido é o pensamento um processo autorreprodutivo. Gera automaticamente um novo pensamento. Podemos distinguir cadeias de pensamentos, dentro das quais os pensamentos individuais formam elos. Essas cadeias estão unidas entre si como que por ganchos para formar o tecido do pensamento, no qual as cadeias de pensamento formam os fios. Um pensamento individual, embora completo esteticamente por ser significante, é, não obstante, carregado de um dinamismo interno que o impede de repousar sobre si mesmo. Esse dinamismo inerente do pensamento se manifesta numa tendência do pensamento a superar-se a si mesmo, abandonando-se nessa superação. Esse abandono do pensamento por si mesmo pode assumir diversas formas, mas aquela que conduz à formação de novos pensamentos, portanto a única que interessa no presente contexto, é, ela também, chamada “lógica”. A lógica é, portanto, um conceito ambivalente. É o conjunto das regras de acordo com as quais o pensamento se completa, (34) e é, ainda, o conjunto das regras de acordo com as quais o pensamento se multiplica.

A teia dos pensamentos pode ser, portanto, concebida como sendo um conjunto dinâmico de organizações de conceitos que absconde e revela a realidade, isto é, que introduz o Eu na realidade de maneira destorcida por suas próprias regras, ou que apresenta a realidade ao Eu destorcida pelas regras do pensamento. A realidade se apresenta através do pensamento como se apresenta porque assim é construída a teia dos pensamentos. A “realidade em si” não pode ser captada pela teia dos pensamentos, porque essa teia obedece a regras que lhe são inerentes. Nessa concepção corresponde a teia de pensamentos à “razão pura” de Kant, e as regras, às “categorias da razão pura” kantianas. É a concepção à qual estamos acostumados pela discussão filosófica clássica. Embora pareça ser uma concepção crítica do pensamento, embora pareça admitir limitações do intelecto, opera, não obstante, com o conceito do conhecimento como sendo adaequatío intellectus ad rem, adequação essa que nega em suas premissas. Admite, movida por fé ingênua no intelecto, que a realidade em si transparece pela teia dos pensamentos, ainda que destorcida; muito embora admita, simultaneamente, a impossibilidade de qualquer afirmativa em relação à realidade em si. É uma concepção que precisa ser abandonada.

Abandonando essa concepção clássica teremos, possivelmente, a primeira visão da força que (35) impele a teia dos pensamentos. Essa teia pode ser concebida como sendo um único superpensamento enorme em busca de sua completação. Tal como se nos apresenta agora, incompleto e interrompido por nossa contemplação, não tem significado, como não o tem nenhum pensamento incompleto e interrompido. A força que impele a teia dos pensamentos é a busca do significado. É essa busca que se apresenta como sendo absurda, por ser frustrada pelo próprio caráter do pensamento. Nessa concepção, adquire o significado dos pensamentos individuais um papel secundário e parasitário. Os pensamentos individuais são significantes à medida que contribuem para o significado geral, em cuja busca a teia dos pensamentos se expande. São, portanto, significantes dentro do contexto da teia dos pensamentos. O fato de serem assim significantes contribui para a expansão da teia. A soma dos significados dos pensamentos individuais é a força da expansão da teia. Sendo, entretanto, inalcançável este último significado em direção ao qual os pensamentos tendem, são, nesse sentido, também insignificantes os significados dos pensamentos individuais. Continuam sendo, entretanto, significantes dentro de seu contexto. O abandono da fé no último significado do pensamento não acarreta, necessariamente, o abandono do uso pragmático dos significados dos pensamentos individuais. Nesse abandono do uso prático, nessa reação do “tudo ou nada”, reside o erro e o primitivismo dos anti-intelectualistas.

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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