Flusser (2017:34-39) – fazer – verbo auxiliar (to do)

Ao descrever a passagem do barroco para o romantismo, aventurei a seguinte hipótese ousada: a mudança da estrutura do pensamento e da vida que marca essa passagem é articulada pela tradução do verbo auxiliar francês “être” pelo verbo auxiliar alemão “werden”. O historicismo, antropologismo, e biologismo do romantismo é uma elaboração da estrutura de um discurso informado pelo verbo “werden”. Renovarei agora minha hipótese, ao estendê-la para a época em pauta. Direi que o verbo auxiliar “werden” se traduz, agora, para o verbo auxiliar “to do” da língua inglesa. Sei que a minha tese é ousada. Sei que no romantismo predomina o pensamento alemão apenas em termos e que, portanto, a influência da língua alemã sobre o romantismo no âmbito da minha hipótese é um exagero. Sei também que na época vitoriana a predominância do inglês é apenas limitada, e darei, logo mais, um pensador alemão, a saber, Nietzsche, como o protótipo do pensamento vitoriano. Mas não reclamo, para a minha hipótese, validade “objetiva”. Sei que não “explica” objetivamente os acontecimentos. Afinal, nós da atualidade não temos muita simpatia por explicações objetivas. Por ser exagerada a minha hipótese, talvez eu ilumine a cena dos acontecimentos com luz penetrante, embora cause distorções. É nessa esperança que a lanço.

(…)

O verbo “to do”, que traduzi muito inapropriadamente por “fazer” no título deste capítulo, é um verbo que estrutura a língua inglesa. Com o seu verbo auxiliar formula essa língua as suas sentenças interrogativas e negadoras. A não ser que essas sentenças sejam formuladas com o verbo “ser” ou semelhantes. Sentenças que se formam com o verbo “to be” não recorrem ao auxílio do verbo “to do”, e não se diz “does it be?” nem “it does not be”. Mas este verbo “to be” foi eliminado do discurso progressivo na passagem do barroco para o romantismo, e foi substituído pelo verbo “werden”, ou “to become” na língua inglesa. E este verbo exige o auxílio do “to do” para formar sentenças interrogativas e negadoras. É necessário dizer “does it become?” e “it does not become”, e não há outra forma de expressar esse pensamento. Ao se traduzir, portanto, o discurso romântico, o discurso antropológico, histórico e biológico (e mais especialmente o discurso das ciências) para a língua inglesa, recorre-se, por imposição da estrutura da língua, para o auxílio de verbo “to do”, com todas as conotações éticas e estéticas que isso acarreta.

O discurso científico é um discurso que se inicia com determinado tipo de perguntas. Procurei mostrar que no barroco essas perguntas tinham todos, em tese, a forma seguinte: “Qu’est-ce que c’est?” (“O que é isso?”). Era um tipo de pergunta que procurava adequar o pensamento aritmético a algo geométrico e duvidoso, demandava respostas causais, e o seu método era o de nomenclatura. A partir de Kant passaram as perguntas iniciais da ciência a ter a seguinte forma: “ Wie wurde das und was wird daraus werden?” (“Como se tornou isso, e o que resultará disso?”). Traduzido agora, com a época vitoriana, para a língua inglesa, a pergunta assume a seguinte forma aproximada: “How did this come to happen and how does it work?”. Creio que nisso resida o germe do espírito vitoriano.

Notem que nessa tradução se preservaram todos os aspectos epistemológicos do “werden”. As perguntas são tentativas de adequar algo ao pensamento conhecedor para realizá-lo, demandam respostas finalistas e o seu método é a predicação de sujeitos. Nesse sentido, continua romântica a época vitoriana. Nada perde do dinamismo desesperado, daquele dinamismo que resulta da exclamação “para que tudo isso!” que caracteriza o romantismo. Mas notem também que o verbo “to do” e o verbo “to work”, no exemplo, introduziram um novo elemento que se relaciona com a ética e com a estética, em suma: com a práxis. O discurso científico se iniciará, doravante, com perguntas que demandam respostas finalistas, inclusive num sentido prático do termo. Por mais que se teoretize esse discurso, não mais perderá essa conotação vitoriana. A não ser na atualidade. Este é, a meu ver, o primeiro efeito da tradução para a língua inglesa.

Mas na língua inglesa as respostas positivas prescindem do verbo “to do”, e não têm, portanto, o aspecto prático que as perguntas demandam. São, portanto, respostas que de certa maneira evadem a pergunta. Apenas as respostas negativas são significantes, porque nela o verbo “to do” aparece. Doravante será, portanto, o discurso científico um discurso que demanda respostas negativas. Formalmente isso se exprime atualmente ao dizer que a validade da ciência está na sua refutabilidade. Uma teoria científica é válida quando admite ser refutada. Uma teoria irrefutável, porque não resultante em respostas negadoras, será doravante tida como insignificante. A teoria einsteiniana é válida, porque admite refutação, por exemplo, na forma “a luz não se curva no espaço”. A teoria da antroposofia não é válida, porque resulta apenas em afirmativas. Não admite a sua negação e não é, portanto, significante. Doravante é, portanto, a estrutura da ciência aproximadamente esta: “How does it… ?”, “lt does not…” e este será doravante o padrão do pensamento ocidental todo. Será este padrão porque o discurso científico continuará sendo o padrão de todo o pensamento. E com esta observação passo a considerar a filosofia nietzschiana, essa filosofia do “to do”, embora alemã, e embora anticientífica, pelo menos em sua intencionalidade.

Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

Twenty Twenty-Five

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