Fink (1994b:197-198) – ser-em-si e ser-para-si

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(…) Na “Introdução” à Fenomenologia do Espírito, Hegel examina esta distinção da crítica e vê o erro no fato de a aparência do ente ser tomada como um ente, como uma coisa intermediária que se interpõe, como um luneta que colore, como uma parede divisória entre ser e pensar. Pensar a aparência das coisas como uma coisa, como um véu que esconde ou como um espelho deformador que desfigura, é bloquear e fechar-se ao verdadeiro problema da aparência. Hegel delineia a tarefa de “verificar a realidade do saber”. Não se trata de uma tarefa que deva preceder, como investigação ou crítica da razão, o conhecimento racional do que é. A faculdade racional do homem não é como uma faca que tem de ser afiada antes de poder ser usada. A razão demonstra o que é na sua efetivação (Leistung), no seu poder de penetração e visão. Hegel distingue entre pensar o ser-em-si e o ser-para-si; no entanto, a origem destes dois conceitos opostos está na própria consciência — ela pensa o ser-em-si do ser como um ser não-relativo, como um permanecer-fora em relação à relação de conhecimento da consciência com o seu objeto. O ser-em-si e o aparecer são apreendidos de duas maneiras por Hegel. Ele reúne as duas posições fundamentais da metafísica, a antiga e a moderna. No sentido moderno, a relação entre o ser-em-si e o aparecer é explicitada de tal modo que o ser-em-si significa o ente fora da relação de conhecimento, o aparecer, por outro lado, o tornar-se-objeto deste ente no conhecimento. Pensado à maneira antiga, o ser-em-si das coisas é a sua essência interior e o aparecer é a auto-apresentação de uma essência na diversidade de propriedades e circunstâncias. “Chamamos ao conhecimento o conceito e, por outro lado, chamamos à essência ou ao verdadeiro o ente ou o objeto? Se, por outro lado, chamarmos à essência ou ao em-si do objeto o conceito, e se entendermos pelo objeto como um objeto, isto é, como (198) ele é para outro, o exame consiste em ir ver se o objeto corresponde ao seu conceito.”1 Seria impossível formular de forma mais concisa e fundamental o problema antigo e moderno da relação geral entre ser e aparecer. O ser-para-si das coisas no conhecimento é necessariamente sustentado pela saída de si da sua essência, pela sua apresentação. Se as coisas permanecessem fechadas na sua própria essência, se se recusassem a emergir na multiplicidade das determinações e circunstâncias, então, muito simplesmente, nenhum conhecimento humano seria possível. O poder-ser-sabido do ente está ligado da maneira mais íntima com o auto-desdobramento das coisas.

Kessler

[FINK, Eugen. Proximité et distance: essais et conférences phénoménologiques. Tr. Jean Kessler. Grenoble: Jérôme Millon, 1994, p. 126]

  1. G.W.F. Hegel, Fenomenologia do Espírito, trans. Hyppolite, p. 73.[↩]
  2. G.W.F. Hegel, Phénoménologie de l’Esprit, trad. Hyppolite, p. 73.[↩]
Excertos de

Heidegger – Fenomenologia e Hermenêutica

Responsáveis: João e Murilo Cardoso de Castro

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